O que pode acontecer se os EUA atacarem o Irã? 7 possíveis cenários

Uma imagem composta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei

Crédito, EPA

Legenda da foto, O presidente dos Estados Unidos Donald Trump e o Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei
    • Author, Frank Gardner
    • Role, Da BBC News em Londres
  • Tempo de leitura: 7 min

Os Estados Unidos parecem prestes a atacar o Irã nos próximos dias.

Embora os alvos potenciais sejam em grande parte previsíveis, o desfecho não é.

Assim, se nenhum acordo de última hora for alcançado com o Irã e o presidente americano, Donald Trump, decidir ordenar um ataque das forças americanas, quais seriam os possíveis cenários?

1. Ataques pontuais e cirúrgicos, poucas vítimas civis e transição para a democracia

Aqui, as forças aéreas e navais dos EUA realizam ataques limitados e de precisão contra bases militares do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e da unidade Basij, uma força paramilitar sob controle da Guarda Revolucionária, além de locais de lançamento e armazenamento de mísseis balísticos e de instalações do programa nuclear iraniano.

Um regime, já enfraquecido, seria derrubado e passaria, com o tempo, por uma transição para uma democracia genuína, permitindo que o Irã volte a se integrar ao restante do mundo.

Esse é um cenário altamente otimista. As intervenções militares ocidentais no Iraque e na Líbia não resultaram em transições suaves para a democracia. Embora tenham encerrado ditaduras brutais em ambos os casos, elas deram início a anos de caos e derramamento de sangue.

A Síria, que conduziu sua própria revolução e derrubou o presidente Bashar al-Assad sem apoio militar ocidental em 2024, tem obtido resultados melhores até o momento.

2. O regime sobrevive, mas modera suas políticas

Esse cenário poderia ser chamado, em linhas gerais, de "modelo venezuelano", no qual uma ação rápida e contundente dos EUA mantém o regime no poder, mas leva à moderação de suas políticas.

No caso do Irã, isso significaria a sobrevivência da República Islâmica, o que não satisfaria parte da população iraniana, mas o país seria obrigado a reduzir o apoio a milícias violentas em todo o Oriente Médio, a encerrar ou limitar seus programas nucleares e de mísseis balísticos, além de aliviar a repressão a protestos internos.

Novamente, trata-se de um cenário pouco provável.

A liderança da República Islâmica permaneceu resistente a mudanças por 47 anos. Tudo indica que é incapaz de alterar seu rumo neste momento.

Mapa do Oriente Médio mostrando os recentes desdobramentos militares dos EUA ao redor do Irã, no Golfo. As legendas do mapa indicam que, na Jordânia, caças foram deslocados para a Base Aérea Muwaffaq Salti; no Bahrein, destróieres e navios de combate estão no Porto Khalifa Bin Salman; no Catar, novas defesas aéreas foram instaladas na Base Aérea de al-Udeid. E, no Oceano Índico, uma frota é liderada pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln

3. O regime entra em colapso e é substituído por um governo militar

Muitos consideram este o desfecho mais provável.

Embora o regime do Irã seja claramente impopular entre muitos, e sucessivas ondas de protestos tenham enfraquecido o regime iraniano ao longo dos anos, ainda existe um vasto e influente aparato de segurança do Estado com interesse na manutenção do status quo.

As principais razões pelas quais os protestos até agora não conseguiram derrubar o regime são a ausência de deserções significativas entre militares para o lado dos manifestantes e a disposição para permanecer no poder dos que detêm o controle de usar força e brutalidade sem restrições.

Na confusão que se seguiria a eventuais ataques dos EUA, é possível que o Irã acabe governado por um forte regime militar, composto em grande parte por integrantes da Guarda Revolucionária.

Policiais vestidos de preto, portando armas, patrulham uma multidão que carrega bandeiras do Irã

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Forças especiais da polícia iraniana monitoram um ato pró-governo em Teerã no início deste mês

4. O Irã retalia atacando forças dos EUA e países vizinhos

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O Irã prometeu retaliar qualquer ataque dos EUA, afirmando que "seu dedo está no gatilho".

Embora esteja claramente em desvantagem diante do poderio da Marinha e da Força Aérea americana, o Irã poderia reagir com seu arsenal de mísseis balísticos e drones, muitos deles escondidos em cavernas, no subsolo ou em montanhas remotas.

Existem bases e instalações dos EUA espalhadas ao longo do lado árabe do Golfo, especialmente no Bahrein e no Catar, mas o Irã também poderia, se assim decidisse, atingir parte da infraestrutura crítica de nações que considerasse cúmplices de uma ofensiva americana, como a Jordânia.

O devastador ataque com mísseis e drones contra instalações petroquímicas da Saudi Aramco, em 2019, atribuído a uma milícia apoiada pelo Irã no Iraque, mostrou aos sauditas o grau de vulnerabilidade do país diante de mísseis iranianos.

Os vizinhos árabes do Irã no Golfo, todos aliados dos EUA, estão, compreensivelmente, apreensivos.

Uma captura de vídeo borrada mostra manifestantes e fumaça de um incêndio; uma pessoa aparece erguendo um celular para registrar os acontecimentos. A imagem foi feita em Mashhad, no início de janeiro

Crédito, UGC

Legenda da foto, Imagens de protestos contra o governo começaram a circular lentamente nas redes sociais, apesar dos apagões de internet no início de janeiro

5. O Irã retalia instalando minas no Golfo

Essa ameaça paira há muito tempo sobre o transporte marítimo global e o fornecimento de petróleo, desde a Guerra Irã-Iraque (1980-88), quando o Irã de fato instalou minas em rotas de navegação e navios caça-minas da Marinha Real britânica ajudaram a limpá-las.

O estreito de Ormuz, entre Irã e Omã, é um ponto de gargalo crítico. Pela região passam, anualmente, cerca de 20% das exportações mundiais de gás natural liquefeito (GNL) e entre 20% e 25% do petróleo e derivados petrolíferos.

O Irã já realizou exercícios para a rápida implantação de minas marítimas. Caso colocasse essa capacidade em prática, o impacto sobre o comércio mundial e os preços do petróleo seria inevitável.

Mapa que mostra onde fica o Estreito de Ormuz, no Golfo de Omã, uma rota fundamental para o transporte de petróleo global. O estreito fica entre o Irã e a península formada pelos Emirados Árabes Unidos e Omã

6. O Irã retalia afundando navio de guerra dos EUA

Um capitão da Marinha dos EUA a bordo de um navio de guerra no Golfo me disse certa vez que uma das ameaças do Irã que mais o preocupa é um "ataque enxame".

Nesse tipo de ofensiva, o Irã lança simultaneamente um grande número de drones explosivos e embarcações torpedeiros rápidos contra um ou múltiplos alvos, de modo que nem mesmo as formidáveis defesas de curto alcance da Marinha dos EUA conseguem eliminar todos a tempo.

A Marinha da Guarda Revolucionária substituiu há muito tempo a Marinha iraniana convencional no Golfo, cujos comandantes chegaram a ser treinados em Dartmouth (Reino Unido) na época do xá Mohammad Reza Pahlavi, que era aliado dos EUA e foi derrubado do poder em 1979 durante a Revolução Islâmica que deu início ao atual regime.

As tripulações navais iranianas concentraram grande parte de seu treinamento em guerra não convencional, ou "assimétrica", buscando formas de superar ou contornar as vantagens tecnológicas de seu principal adversário, a Quinta Frota da Marinha dos EUA.

O afundamento de um navio de guerra americano, acompanhado da possível captura de sobreviventes de sua tripulação, seria uma humilhação enorme para os EUA.

Embora esse cenário seja considerado improvável, o destróier USS Cole, avaliado em bilhões de dólares, foi danificado por um ataque suicida da Al-Qaeda no porto de Aden (Iêmen) em 2000, que matou 17 marinheiros americanos.

Antes disso, em 1987, um piloto de jato iraquiano disparou por engano dois mísseis Exocet contra o navio de guerra dos EUA USS Stark, matando 37 marinheiros.

Uma mulher vestindo um hijab preto e um vestido preto passa por um mural em uma parede que retrata políticos dos EUA e do Irã sentados frente a frente. A imagem foi registrada em Teerã, em 28 de janeiro

Crédito, Anadolu via Getty Images

Legenda da foto, À medida que cresce o risco de uma ação militar dos EUA, murais antiamericanos se espalham por locais públicos de Teerã

7. O regime iraniano desmorona e é substituído pelo caos

Esse é um risco muito real e uma das principais preocupações de países vizinhos como o Catar e a Arábia Saudita.

Além da possibilidade de uma guerra civil, como vivenciada pela Síria, pelo Iêmen e pela Líbia, existe também o risco de que, em meio ao caos e à confusão, tensões étnicas transbordem para conflitos armados, à medida que curdos, balúchis e outras minorias busquem proteger seus próprios grupos diante de um vácuo de poder em escala nacional.

Grande parte do Oriente Médio certamente ficaria satisfeita em ver o fim da República Islâmica, especialmente Israel, que já realizou golpes significativos contra os aliados do Irã na região e que teme uma ameaça existencial representada pelo programa nuclear iraniano.

No entanto, ninguém quer ver o país mais populoso do Oriente Médio — cerca de 93 milhões de habitantes — mergulhar no caos, desencadeando uma crise humanitária e de refugiados.

O maior perigo agora é que o presidente Trump, após mobilizar forças militares próximas às fronteiras iranianas, decida agir para não perder prestígio, dando início a uma guerra sem um desfecho claro e com consequências imprevisíveis e potencialmente danosas.