#SalaSocial: Copa e assédio em ônibus são temas da 'Marcha das Vadias'

Crédito, BBC World Service
- Author, Ricardo Senra
- Role, Da BBC Brasil em São Paulo - #salasocial
Do 13º andar de um prédio a dois quarteirões da rua Augusta, em São Paulo, dava para ouvir palavras de ordem como "Se tem violência contra a mulher / a gente mete a colher" e "Pula, sai do chão, contra o assédio no busão".
Lá embaixo, descendo a ladeira, um grupo de 300 pessoas segundo estimativa da polícia carregava cartazes, frases pintadas de batom pelo corpo e disposição para enfrentar garoa e uma temperatura de 15 graus vestindo sutiã, biquini ou sem nada mesmo.
Com o tema "Quem cala não consente", a Marcha das Vadias de São Paulo chegou a sua quarta edição na tarde deste sábado.
Atrás de cartazes que diziam "Não ensine as mulheres a temer, ensine homens a respeitar" e "Meu decote não é vitrine para você ficar olhando", a estudante Camilla Souza*, 19, trazia a frase "Meu corpo, meus direitos" pintada no peito nu.
"Até meus 14 anos, um vizinho sempre aparecia em casa e pedia para eu ficar com ele antes de meus pais chegarem. Eu acho que preferia não entender, mas agora faz todo sentido e marchas como essas ajudam meninas a não passarem pelo que passei", disse a jovem à BBC Brasil. "Com meu corpo eu faço o que eu quiser e ai de quem se meter."
O grupo se concentrou no vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo) no fim da manhã e chegou a ocupar três faixas da avenida Paulista antes de descer a rua Augusta, rumo à praça Roosevelt, no centro.
Na linha de frente, segundo um cartaz que dizia "Resistência Feminista", um grupo de meninas com o rosto coberto por lenços pretos gritava: "Eu amo homem, amo mulher, tenho direito de amar quem eu quiser!"

Crédito, BBC World Service
O grito que mais empolgou a estudante de Letras Ana Lucia Pinto*, 22, cabelos vermelhos e meia arrastão, era parecido. "Que contradiçããão, amor tem fim, homofobia nãão" cantou ela à reportagem, de mãos dadas com a namorada Aline.
"É uma pena a gente precisar cobrir o rosto para lutar pelo que é óbvio: a nossa liberdade", disse Aline*, com lenço vermelho na cabeça e um leque de penas nas mãos.
Mas não havia só mulheres entre as vadias. Usando maquiagem, vestindos saias e perucas, o produtor Lucas Costa, 34, e mais quatro amigos gritavam com força:
"Essa Copa / Para quem é? / Não é para a mulher"
"Vim todos os anos", disse Costa. "Enquanto houver denúncia de abuso no transporte público, preconceito no mercado de trabalho e cantadas grosseiras como a que acabou de acontecer, eu estarei aqui."
Ele se referia a um homem de terno e gravata que subia a rua no sentido oposto à marcha e sussurou "gostosa" ao ver uma garota sem sutiã.
A reação foi imediata. Aos gritos de "Ei, machista, eu vou cortar a sua p**a", dezenas de meninas cercaram o homem - que saiu bem envergonhado.
*Os nomes das mulheres nesta reportagem são fictícios a pedido das entrevistadas.












