Justiça condena banda por incêndio que matou 194 na Argentina

Vítimas do incêndio na boate argentina são socorridas.
Legenda da foto, Incêndio provocado por foguetes matou 194 pessoas na boate argentina
    • Author, Marcia Carmo
    • Role, De Buenos Aires para a BBC Brasil

A Justiça argentina condenou nesta quarta-feira a banda Callejeros pela morte de 194 pessoas em um incêndio na casa noturna República Cromañón, em Buenos Aires, na noite de 30 de dezembro de 2004.

O acidente comoveu a Argentina e motivou diversas discussões nos últimos anos, especialmente sobre a segurança nas casas noturnas da capital.

De acordo com a imprensa argentina, muitos dos mortos tinham menos de 20 anos e alguns dos sobreviventes continuam com sequelas respiratórias devido à fumaça.

Os seis músicos foram condenados por incêndio culposo seguido de mortes e poderão cumprir penas de até onze anos de prisão.

Negligência e imprudência

Os juízes argentinos consideraram a banda "negligente" e "imprudente" por ter realizado o show em local com várias irregularidades. O local tinha capacidade para mil pessoas, mas naquela noite reuniu mais de quatro mil.

"A justiça entendeu que houve uma série de delitos e que todos os envolvidos foram culpados (músicos, empresários, funcionários públicos que habilitaram o local). Quer dizer, a justiça entendeu que houve negligência, imprudência e falta de atenção que provocaram o incêndio.

A responsabilidade foi estendida, na nova decisão, aos músicos, que na sentença anterior tinham sido absolvidos", interpretou o jurista Roberto Durrieu.

Os peritos entenderam que o fogo foi provocado por um foguete, mas não foi descoberto quem o teria lançado. A banda costumava usar foguetes em suas apresentações.

Apelos

O novo veredicto foi anunciado após a apresentação de recursos contra uma decisão anterior, de 2009, na qual os músicos tinham sido absolvidos e o dono da casa noturna, o empresário Omar Chabán, fora condenado a vinte anos de prisão.

Na primeira sentença, a Justiça havia condenado Chabán, considerando-o “coautor do delito de incêndio doloso (intenção ou conhecimento sobre o delito)”. O empresário, logo após o incêndio, havia sido apontado pelos sobreviventes como o responsável por impedir que as portas fossem abertas para evitar a saída dos que não tinham pago a entrada.

No novo veredicto, anunciado nesta quarta-feira, Chabán foi condenado “por delito não intencional”, o que abre caminho para que sua pena seja reduzida para onze anos.

A leitura da nova decisão foi acompanhada pelos pais das vítimas, que levaram para o tribunal em Buenos Aires cartazes e camisetas com as fotos dos filhos adolescentes.

Alguns familiares, contrários à decisão, reagiram aos gritos e batendo no vidro que os separava dos juízes.

Condenações

Também nesta quarta-feira, a Justiça determinou a condenação de duas ex-funcionárias públicas da prefeitura de Buenos Aires por questões ligadas à falta de segurança na República Cromañón.

No total, quinze pessoas foram condenadas pelo acidente, incluindo o empresário da Callejeros e o ex-assistente de Chabán.

Os juízes Eduardo Riggi, Angela Ledesma e Liliana Cattucci determinaram ainda a liberação da rua em frente à casa noturna, onde os pais montaram uma espécie de santuário com as fotos das vitimas e os tênis que elas usavam naquela noite.

“Vamos continuar nesta luta até as ultimas conseqüências. A condenação para os Callejeros foi um avanço, mas a mudança de parecer para Chabán, um retrocesso”, disse Monica Rojas, mãe de uma das vítimas.

Outra mãe, Nilda Blanco de Benítez, afirmou que eles não iriam permitir o “fim do santuário das vítimas” e que a decisão “não foi o epílogo” para os familiares dos que morreram na tragédia.

Segundo juristas locais, a sentença poderia ser avaliada pela Suprema Corte de Justiça caso haja apelação. Antes disso, outro tribunal deverá anunciar a pena exata para cada um dos condenados.