A aposta do novo presidente da Bolívia no lítio para reviver boom econômico de quando era ministro de Evo

Luis Arce após vitória nas urnas

Crédito, EPA

Legenda da foto, Arce vê na industrialização e na produção do lítio a esperança de retorno da economia em alta
    • Author, Marcia Carmo
    • Role, De Buenos Aires para a BBC News Brasil
  • Tempo de leitura: 5 min

Apesar de os resultados oficiais ainda não terem sido proclamados, a Bolívia já tem um vencedor na eleição presidencial realizada no domingo (18/10): Luis Arce, que foi ministro da Economia durante a Presidência de Evo Morales, comemora o triunfo após seus principais oponentes terem reconhecido publicamente a derrota.

Agora, Arce se prepara para assumir o posto e botar à prova uma de suas principais bandeiras de campanha: a aposta na industrialização e na produção do lítio para reviver o boom econômico de quando foi ministro, como ele mesmo enfatizou na reta final da disputa.

"Com a industrialização do lítio, vamos gerar 130 mil novos postos de trabalho diretos e indiretos, além de 41 novas indústrias que vão gerar ainda mais emprego para os bolivianos", disse Arce.

Estima-se que a Bolívia tenha uma das maiores reservas deste metal leve usado em baterias como as de celulares e de automóveis elétricos. O governo Evo tinha chegado a acordos com uma empresa da Alemanha e outra da China para a exploração e produção do produto, que seriam realizadas em parcerias, mas mantendo-se o controle o estatal.

A anulação da eleição presidencial do ano passado levou ao congelamento dos acordos, segundo o ex-presidente. Ele e Arce afirmaram em entrevistas e em suas redes sociais que a eleição teria sido anulada como resultado do "golpe do lítio" porque envolveria interesse de empresas americanas que estariam de olho nessa produção.

"Não foi um golpe contra o indígena, mas pelo lítio. ('O golpe') foi desenhado por transnacionais interessadas na sua privatização junto com a do gás", disse Arce, recentemente.

Mas, afinal, o lítio pode efetivamente levar a um novo salto econômico boliviano?

'Ouro branco' ou 'fetiche'?

Em entrevista à BBC News Brasil, três especialistas no assunto deram opiniões diferentes sobre a possibilidade de o lítio, chamado de 'ouro branco', ser a alavanca que reerguerá a economia boliviana que este ano deverá registrar a maior queda da sua história - cerca de 10%, segundo o Banco Central do país, e em torno de pelo menos 6%, de acordo com levantamentos internacionais.

O ex-gerente executivo da empresa estatal Yacimientos de Lítio Bolivianos (YLB), durante o governo Evo, Juan Carlos Montenegro, disse que as reservas estimadas de lítio foram comprovadas por organismos do governo americano e por empresas nacionais e estrangeiras.

"Nosso projeto envolve 14 fábricas, que serão o núcleo da industrialização do lítio, até 2025. Essas fábricas vão demandar insumos, como lâminas de cobre, e então serão necessárias as plantas destes insumos e mais outras sete de seus derivados. É um projeto grande para atender à demanda mundial e para isso queremos contar com a participação privada", disse Montenegro.

Protesto sindical com bandeira colorida

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Sindicatos e organizações camponesas pediram eleições desde a saída de Evo

Segundo ele, seriam necessários investimentos de US$ 4 bilhões para este núcleo da produção e o país deverá ter rendimentos de pelo menos US$ 6 bilhões anuais pela produção de lítio e suas ramificações.

Até o ano passado, disse, antes da troca de governo na Bolívia, o país já contava com cerca de 1.200 empregos diretos ou indiretos, uma fábrica piloto e uma em desenvolvimento no Salar de Uyuni, no departamento de Potosí, na fronteira com o Chile.

"Mas nossas projeções de continuar crescendo foram interrompidas pelos fatos políticos do ano passado. Agora, porém, com a eleição de Arce serão retomadas", disse Montenegro, que é engenheiro metalúrgico.

O ex-ministro da Energia, Mauricio Medinaceli, analista do setor, disse que o lítio está longe de gerar os recursos gerados pelo gás boliviano.

"Apesar da queda nos investimentos e na produção, o gás ainda é um fator muito importante para a economia boliviana. O lítio ainda não apresentou resultados concretos", disse Medinaceli. Ele ressalvou, porém, que o custo para extração do lítio da Bolívia tem a vantagem sobre os outros países, como os asiáticos, por exemplo.

"Na Bolívia, não é preciso cavar minas para tirar o lítio. Ele está numa superfície muito mais acessível, a poucos metros de profundidade. Com isso, os custos seriam menores. Mas o gás é menos complexo para ser produzido e mais barato para ser produzido e para ser enviado aos mercados do Brasil e da Argentina. O lítio ou as baterias de lítio vão precisar de maior infraestrutura e sistema para exportação", afirmou.

De acordo com Montenegro, estudos teriam comprovado que em uma profundidade de apenas 50 metros, existiria o equivalente a 21 milhões de toneladas do produto, segundo estudos realizados por uma empresa americana e analisados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos.

"E o Salar tem mais de 200 metros de profundidade. Por isso, o que dissemos é com embasamento cientifico, comprovado", afirmou o ex-assessor do governo Morales para o lítio. Segundo ele, no ano passado, foram produzidas 430 toneladas em uma fábrica pequena, piloto da operação, e a expectativa, pela projeção realizada no governo de Evo Morales, é de uma produção de 100 mil toneladas até 2025, incluindo as empresas da China e da Alemanha e algumas das ramificações do lítio, incluindo outros dois lugares de Potosí. "Com a eleição de Arce essa produção será possível", disse.

arce

Crédito, Anadolu Agency

Legenda da foto, Arce é visto como pupilo de Evo Morales

Para o economista Javier Gómez, da consultoria Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Trabalho e Agrário (Cedla, na sigla em espanhol), o lítio é, porém, "quase um fetiche" para os bolivianos.

"Nós sabemos que o lítio é importante, mas ele faz parte muito mais da narrativa política do que da possibilidade real econômica", afirmou Gómez.

Ele disse que a situação da economia boliviana é grave e que a expectativa é que o futuro presidente tenha que recorrer a organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) para contar com os recursos necessários para que a economia volte a crescer.

"O Movimento ao Socialismo, o MAS, de Evo e de Arce, é muito pragmático. E recorrer ao FMI por recursos extras não seria um problema. O principal agora é que o PIB volte a crescer. As pessoas votaram em Arce, em grande parte, pela esperança de voltar a ter uma vida melhor, como quando ele era ministro e o país e a região viviam o boom econômico", disse Gómez.

De acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, Cepal, as economias da região serão as mais afetadas pela pandemia do novo coronavírus. Parece distante a época do boom das commodities quando algumas delas, como a Bolívia, direcionou os recursos do boom para as áreas social e de infraestrutura.

Economista, com estudos na Bolívia e na Inglaterra, Arce é apontado como um dos principais pilares do crescimento econômico de cerca de 5% ao ano e da redução da pobreza nos 13 anos de gestão de Evo.

Arce só deixou o ministério nos quase dois anos em que realizou tratamento contra o câncer num hospital em São Paulo. No governo de Evo, os recursos da nacionalização do petróleo e do gás foram direcionados para a distribuição de planos sociais, como o Juancito Pinto, para que as crianças não deixem de ir à escola.

Línea

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