Por que nova prisão de Vorcaro mergulha Brasília na maior tensão desde a Lava Jato

Vorcaro é transferido para a Penitenciária Federal em Brasília

Crédito, Senappen

Legenda da foto, Vorcaro foi preso na nova fase da Operação Compliance Zero
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    • Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Tempo de leitura: 11 min

Brasília respira um ar de tensão que não rodeava a capital federal, pelo menos, desde a Operação Lava Jato.

É assim que o clima nos bastidores do mundo político é descrito por analistas após a segunda prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, na semana passada.

Vorcaro foi preso na nova fase da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal no dia 4 de março. Mensagens foram extraídas de seu celular, como parte da investigação da Polícia Federal autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A exposição de sua teia de relações, que transita da direita à esquerda, passando pelo Centrão e pela cúpula do Judiciário, gerou ansiedade em torno de uma eventual delação premiada do banqueiro.

A incerteza sobre o que Vorcaro documentou e até onde vão suas conexões, diz o cientista político Lucas de Aragão, sócio da empresa de análise de risco político Arko Advice, torna o atual cenário na capital federal o "pior dos últimos muitos anos".

"Não se sabe exatamente o que Vorcaro tem, o que ele sabia. Ele transitou em grupos políticos que não necessariamente conversavam um com o outro. Pessoas sabem fragmentos e isso gera uma tensão gigantesca em Brasília, comparável ou até maior ao que vimos na Lava Jato", diz.

"É uma sensação de que é incontrolável, de que é uma avalanche."

Nas mensagens, Vorcaro menciona relações e encontros com autoridades, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ministro Alexandre de Moraes, do STF.

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De um lado, Vorcaro se referia a Nogueira, presidente de um dos maiores partidos do Centrão e ex-ministro de Jair Bolsonaro, como "um dos meus grandes amigos de vida".

Mensagens mostram o dono do Master comemorando uma emenda proposta pelo senador que aumentaria a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão — uma medida que favorecia diretamente o banco e foi chamada por Vorcaro de "bomba atômica no mercado financeiro".

Além disso, Vorcaro chegou a fretar um helicóptero de transporte VIP para Nogueira e Antônio Rueda, presidente do União Brasil, após o Grande Prêmio de Interlagos de Fórmula 1.

O senador negou ter proximidade com o empresário e classificou as ilações como "uma mentira fabricada na tentativa de manchar minha biografia".

Do outro lado do espectro, Vorcaro também tinha portas abertas no atual governo. Em dezembro de 2024, ele foi levado ao Palácio do Planalto pelo ex-ministro petista Guido Mantega para uma reunião fora da agenda oficial de Lula.

Em mensagens a uma namorada, Vorcaro classificou o encontro com Lula, que contou com a presença de três ministros e do atual presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, como "ótimo" e "muito forte".

O Palácio do Planalto confirmou a reunião, mas justificou a visita dizendo que Vorcaro foi levado ao local por Mantega. Segundo o governo, Vorcaro reclamou da concentração do mercado bancário no país e Lula apenas respondeu que o assunto deveria ser tratado de forma técnica pelo BC.

Ciro Nogueira

Crédito, Andressa Anholete/Getty Images

Legenda da foto, Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, negou ter proximidade com Vorcaro

A teia ainda se estende ao bolsonarismo. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, operador financeiro e alvo de prisão na operação, foi o maior doador pessoa física da campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2022, injetando R$ 3 milhões.

Aviões ligados a Vorcaro também foram usados por figuras da direita, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) durante as últimas eleições. O deputado e seu partido reiteram que, naquele momento, não existia qualquer suspeita pública envolvendo o nome de Vorcaro.

Figuras como o ex-governador de São Paulo João Doria também aparecem enviando mensagens de preocupação a Vorcaro, pedindo conversas "reservadamente". À CNN Brasil, a assessoria de Doria confirmou o diálogo, mas justificou que a mensagem foi enviada em maio de 2025 e que se tratou "apenas de um gesto cordial".

Já a defesa de Vorcaro diz que prisão preventiva do banqueiro ocorreu sem "tivesse acesso prévio aos elementos que fundamentaram a medida" — e pediu que o STF apresente informações como as datas das mensagens mencionadas na investigação.

"Daniel Vorcaro sempre esteve à disposição das autoridades e segue colaborando com as investigações", diz nota da defesa.

O advogado Roberto Podval reclamou do envio das conversas à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS: "Toda a intimidade do Vorcaro e de muitos outros está sendo devassada", afirmou.

O analista político Creomar de Souza, sócio-fundador da consultoria de análise de risco político Dharma, compartilha a percepção sobre a crise e pressão sobre Brasília. "Há uma tensão que é inegável", diz.

"O caso Master é como balançar um pé de jaca. A impressão é que cai goiaba, uva, laranja, banana", afirma, explicando que a rede de diálogos de Vorcaro se mostra suprapartidária e supraideológica.

"Talvez esse seja um dilema de difícil compreensão nesse ambiente de polarização da sociedade brasileira, que ainda é refém dessa ideia de que corrupção tem lado, de que é uma relação dos maus com os bons", continua.

Para Aragão, o que torna o caso Master singular é a sua adaptação a uma nova realidade institucional do Brasil. Ele reflete que, diferentemente do Mensalão ou do início da Lava Jato, épocas em que o Executivo centralizava poder, o Brasil de hoje possui um poder fragmentado.

Desde 2014, pontua o analista, o Congresso Nacional ganhou musculatura, especialmente com as emendas impositivas, e o Judiciário assumiu um protagonismo inédito.

"Hoje, se você quer fazer um esquema no Brasil, cooptar só o Executivo já não é mais necessário", explica Aragão. O poder diluído faz com que os esquemas financeiros também precisem ser pulverizados entre diversos atores e instituições. É exatamente isso que as mensagens revelam, diz o analista.

Fachada da sede do banco Master com grades, em São Paulo

Crédito, Victor Moriyama/Bloomberg via Getty Images

Legenda da foto, Incerteza sobre o que sono do Banco Master documentou deixa classe política no "pior momento dos últimos anos", dizem analistas

Eleição antissistema

Com as eleições à vista em outubro, partidos correm para se descolar do escândalo, ao mesmo tempo em que tentam associar o caso aos adversários.

Em uma estratégia de contenção de danos, Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, minimizou publicamente as doações milionárias feitas à campanha de Jair Bolsonaro pelo cunhado de Vorcaro. Ele argumenta que os repasses ocorreram apenas pela "força e prestígio" do ex-presidente.

À GloboNews, ele disse que não considera que políticos do partido estejam envolvidos no esquema pelo fato de que nenhuma pessoa o procurou para tratar do assunto. O líder partidário cobrou a instalação imediata de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado para investigar as fraudes.

Do outro lado, o PT tenta atrelar o caso a Bolsonaro. O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), apelidou o caso de "BolsoMaster" e afirmou que o banco é "filho legítimo" da gestão anterior e do Banco Central, sob a presidência de Roberto Campos Neto.

"Vorcaro era um pequeno banqueiro e, através de articulações criadas dentro do governo Bolsonaro, com a proteção do Banco Central, se tornou um banqueiro bilionário", declarou.

Lula

Crédito, Mauro PIMENTEL / AFP via Getty Images

Legenda da foto, O governo federal vem reforçando a imagem de que foi durante a gestão de Lula que o caso Master passou a ser investigado

Um interlocutor do presidente Lula ouvido pela BBC News Brasil disse que a avaliação no Palácio do Planalto é de que o governo estaria protegido contra uma tentativa da oposição atribuir o caso Master à atual administração petista.

Segundo ele, o governo vem reforçando, inclusive com discursos de Lula, a imagem de que foi durante o governo petista que o caso passou a ser investigado.

"O problema é que essa descoberta vem no terceiro ano de governo, o que, em algum sentido, mostra que ambos os lados tem suas inconsistências", aponta Creomar de Souza.

O analista alerta que a tentativa de partidarizar a corrupção neste caso pode ser um tiro no pé. "Creio que todos os lados são frágeis na atual conjuntura", afirma.

Para ele, os dois principais grupos que se envolvem na eleição, cujo cenário vai se desenhando em torno de Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, tem motivos para serem bastante cautelosos com os desdobramentos da crise.

"Flávio Bolsonaro tem sido muito discreto em tocar no tema Banco Master, porque, em algum sentido, parece que há atores com os quais ele e o pai tiveram uma relação muito próxima. Casos, por exemplo, de Ciro Nogueira e de Antônio Rueda, com um grande número de citações. Isso os fragiliza", analisa.

"De outro lado, o problema para o governo federal é outro. O PT é o grande perdedor na narrativo da Lava Jato. Quer dizer, o partido se torna o alvo e gera um passivo acerca do que é corrupção, que o bolsonarismo explorou muito bem até aqui", diz.

Flávio Bolsonaro

Crédito, Ton MOLINA / AFP via Getty Images

Legenda da foto, Flávio Bolsonaro é pré-candidato à Presidência da República

Para Lucas de Aragão, o impacto nas eleições respinga em todos os lados, mas é pior para quem está sentado na cadeira presidencial.

"Quando você tem um super escândalo no país e você é o incumbente, isso gera questionamentos. E quando você tem a principal corte do país, que ainda é percebida por boa parte da população como mais alinhado ao governo, também é muito ruim", afirma.

A gravidade para o Palácio do Planalto se multiplica com o avanço da investigação sobre fraudes no INSS, que tem como um dos principais alvos Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula.

Lulinha é suspeito de recebimento de valores de lobistas envolvidos nas fraudes e já teve seus sigilos bancário e fiscal quebrados por ordem do STF e da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS.

Segundo dados da CPMI revelados pelo portal Metrópoles e confirmados pela BBC News Brasil, o filho de Lula movimentou, em transações bancárias, R$ 19,5 milhões em quatro anos — de janeiro de 2022 a janeiro deste ano, foram 9,774 milhões em crédito (que entraram na conta) e 9,758 milhões em débito (que saíram).

A defesa de Lulinha reagiu ao vazamento por meio de uma nota, em que diz que as fontes de renda são "legítimas" e que é "gritante a ausência de menção a qualquer elemento ligado às fraudes do INSS, o alegado objeto investigativo da quebra de sigilo".

"Você imagina se amanhã o filho do presidente da República é preso por corrupção? Isso vai gerar um desconforto enorme", diz Aragão.

Creomar de Souza projeta que as consequências eleitorais podem ser ainda mais drásticas do que a simples perda de votos para Lula ou Flávio Bolsonaro.

Ele enxerga no caso Master os ingredientes para uma "tempestade perfeita" que reavive o sentimento antipolítica na sociedade brasileira, semelhante ao que elegeu Fernando Collor no passado ou Jair Bolsonaro em 2018.

"Abre-se o risco de que haja mais um momento de perda generalizada de confiança da cidadania nas instituições", alerta Souza.

Para o analista, o cenário pode pavimentar o caminho para a ascensão de um "bolsonarismo 2.0" ou de candidatos outsiders, ou seja, que vendam a imagem de ruptura total com o "sistema". Ele cita o exemplo de Pablo Marçal nas eleições municipais de São Paulo, que conseguiu engajar o eleitorado conservador criticando o próprio Bolsonaro por ter se tornado mainstream.

Fator Mendonça

Em Brasília, se o Legislativo e o Executivo estão em alerta máximo, a pressão também recai sobre o STF, que enfrenta uma crise de imagem sem precedentes com o caso Master.

O ministro Dias Toffoli, primeiro relator do inquérito do Banco Master, foi constrangido a deixar o caso em reunião conduzida pelo atual presidente do STF, Edson Fachin, com todos os ministros, após ser revelado que um fundo ligado ao Master comprou parte de um resort no Paraná que pertencia a uma empresa de Toffoli e dois irmãos do ministro.

Toffoli admitiu ser sócio da empresa, mas o ministro nega qualquer irregularidade na transação ou ter qualquer relação de amizade com o banqueiro.

Já Alexandre de Moraes virou alvo de críticas após sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moares, ter mantido um contrato de R$ 129 milhões com Master. Agora, novas informações vazadas da investigação ampliaram os indícios de conexão entre Moraes e Vorcaro.

Vorcaro relatou em mensagens ter se encontrado com Moraes durante um feriado em Campos do Jordão e que teria falado com o ministro no dia de sua primeira prisão, em 17 de novembro de 2025.

Em nota na sexta-feira (6/3), o gabinete de Moraes disse que "análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, tornados públicos pela CPMI do INSS, constatou que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos".

Segundo o gabinete do ministro, "os prints dessas mensagens enviadas por Vorcaro estão vinculadas a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam como direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes".

O STF também já havia afirmado em nota que o escritório de Viviane Barci de Moraes "jamais atuou na operação de aquisição do Banco Master pelo BRB perante o Banco Central".

Moraes também justificou que as reuniões que teve com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, não foram para tratar do Master, mas sim dos efeitos das sanções da Lei Magnitsky contra ele e sua esposa.

Com a saída de Toffoli, o inquérito ficou nas mãos do ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro.

Segundo fontes ouvidas pela BBC News Brasil com interlocução com o presidente do STF, Edson Fachin, há expectativa de que a atuação de Mendonça possa melhorar o forte desgaste causado na imagem do Supremo devido às supostas conexões de Toffoli e Moraes. Por outro lado, há temores do abalo que a Corte pode sofrer com novas revelações envolvendo ministros.

"André Mendonça hoje talvez seja a figura mais relevante do processo político, tanto no Judiciário por ser relator, quanto no Legislativo quanto no Executivo", avalia Lucas de Aragão.

Creomar de Souza adverte, contudo, que a posição de Mendonça é uma faca de dois gumes. "O dilema para o ministro André Mendonça é um dilema muito semelhante pelo qual passaram alguns ministros de que à medida que há um excesso de visibilidade sobre o trabalho, há um excesso de procura por vulnerabilidades", reflete Souza.

Para o analista, o grande desafio de Mendonça será provar que está mais interessado em "prover justiça do que prover revanchismo".

"O fato de que um ator político tenha o nome na agenda do celular do Vorcaro não necessariamente significaria dizer que esse ator político está envolvido em algum tipo de ação ou situação escusa, inclusive no que diz respeito a um encontro pessoal ou algo do gênero", diz o analista.

"O problema é que o Brasil vive há mais de uma década um clima de constante crise política e nessa constante crise política, há um desgaste da confiança do cidadão comum na lisura do comportamento dos atores institucionais."

*Com reportagem de Leandro Prazeres e Mariana Schreiber, da BBC News Brasil em Brasília.