México, Brasil, EUA e outros países convocam reunião urgente na OEA por 'eleições transparentes' na Venezuela

Nicolás Maduro
Legenda da foto, Disputa na qual Maduro tentará reeleição foi antecipada em 3 meses, irritando opositores e uma série de países | Foto: José Cruz/Ag. Brasil
    • Author, Ricardo Senra - @ricksenra
    • Role, Da BBC Brasil em Washington

A missão permanente do México na Organização dos Estados Americanos (OEA) se articulou com diplomatas do Brasil, Estados Unidos, Argentina, Panamá e Santa Lúcia para convocar uma sessão extraordinária do Conselho Permanente da organização nesta sexta-feira.

O objetivo é votar uma resolução que condena a "decisão do governo venezuelano de antecipar as eleições presidenciais para 22 de abril de 2018".

O pleito - no qual Nicolás Maduro disputará a reeleição - foi adiantado em três meses pelo governo, em decisão que irritou opositores e uma série de países que se opõem ao regime.

O documento a ser posto em votação na OEA, ao qual a BBC Brasil teve acesso, diz que a decisão do presidente venezuelano Nicolas Maduro "impossibilita a realização de eleições democráticas, transparentes e fidedignas, em conformidade com as normas internacionais, e contraria os princípios democráticos e a boa-fé".

Em nota à imprensa, a OEA informou que a reunião pretende "analisar projeto de resolução sobre os últimos acontecimentos na Venezuela", sem entrar em mais detalhes.

O Itamaraty também confirmou a presença do Brasil no encontro extraordinário.

Pressão

De acordo com interlocutores ouvidos pela reportagem, o grupo que convocou o encontro precisará convencer simpatizantes ao regime de Maduro, como Nicarágua, Bolívia, El Salvador, Haiti e Republica Dominicana, a pressionarem o regime venezuelano por um consenso com a oposição para a construção do calendário eleitoral.

O governo da Venezuela, por sua vez, rechaça críticas ao processo eleitoral - como a proposta recente da oposição de boicotar o pleito, caso a data não seja revista.

"Teremos eleições chova, trovoe ou relampeje", disse Maduro nesta quinta-feira, mantendo os planos para o próximo dia 22 de abril.

Imagem mostra o presidente da Venezuela em telão

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Governo da Venezuela rechaça críticas ao processo eleitoral e diz que haverá eleições antecipadas 'chova, trovoe ou relampeje'

Expectativa

Na avaliação do líder venezuelano e aliados, os críticos às eleições atuariam por submissão aos Estados Unidos, que na avaliação do regime tenta articular um golpe de Estado na Venezuela em conluio com a oposição e países membros do Grupo de Lima - entidade multilateral criada no ano passado para discutir a crise venezuelana.

De outro lado, o texto que será proposto aos membros da OEA pede que a Venezuela "apresente um novo calendário eleitoral que torne possível a realização de eleições com todas as garantias necessárias para um processo livre, justo, transparente, legítimo e fidedigno".

A exemplo dos últimos encontros da OEA sobre o tema, o debate deve ser acalorado e pode gerar um documento final distinto do que será proposto originalmente por México, Brasil e aliados.

A expectativa da diplomacia, entretanto, é que haja consenso por um texto final, mesmo que mais brando que o inicial.

A proposta pede ainda que um novo processo eleitoral "inclua a participação de todos os partidos e atores políticos venezuelanos, sem excluídos de espécie alguma".

Também solicita acesso a observadores internacionais independentes e meios de comunicação ao processo.

A convocação de urgência acontece dias depois da publicação de uma nota sobre o mesmo assunto por membros do Grupo de Lima - que tem posições bem mais duras que a OEA em críticas públicas ao regime venezuelano.

No último dia 14, em texto assinado por Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia, o grupo de Lima expressou "seu mais firme rechaço à mencionada decisão, que impossibilita a realização de eleições presidenciais democráticas, transparentes, confiáveis".

Maduro reagiu, afirmando que "é uma honra que a oligarquia da região faça o que faz contra mim".

"A Venezuela não depende do Grupo de Lima para nada", respondeu.

Fila para comprar alimentos na Venezuela

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Inflação mais alta do mundo e escassez de alimentos castiga os venezuelanos; pobreza disparou no país

Comissão de Direitos Humanos

A carta proposta para votação na OEA cita um relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos sobre a crise venezuelana, publicado no último dia 12.

Terceiro texto público da comissão sobre a Venezuela, o relatório afirma que a pobreza no país saltou de 48% da população, em 2014, para 81,8% em 2016.

"Desse total, 51,51% estava em situação de pobreza extrema", apontou o órgão.

O texto pedia "restauração da ordem democrática venezuelana" e apontava, ainda, uma piora sensível na situação dos direitos humanos, agravado por supostas prisões arbitrárias e prática de torturas na Venezuela.