A gigantesca cratera de 50 metros de profundidade que intriga cientistas no norte da Rússia

Cratera

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Já são 17 crateras em seis anos
Tempo de leitura: 3 min

Desde 2014 a Rússia tem assistido ao surgimento da imensas crateras em seu território, na região da Sibéria.

A mais recente, com 50 metros de profundidade, foi descoberta por uma equipe de televisão local e levou mais uma vez cientistas à área.

"O que vimos é surpreendente por seu tamanho e grandeza. São as forças colossais da natureza que criam esses objetos", disse ao jornal Siberian Times Evgeny Chuvilin, pesquisador do Instituto Skolkovo de Ciência e Tecnologia, que participou da expedição científica.

Segundo a imprensa local, esta é a "mais impressionante" das 17 crateras que apareceram nesta região nos últimos anos.

"Isso é algo único, guarda várias informações científicas que ainda não estou pronto para divulgar", disse o geólogo Vasily Bogoyavlensky, do Instituto Russo de Pesquisa de Petróleo e Gás em Moscou, em entrevista para a rede de televisão Vesti Yamal.

Como elas se formam

Ele explicou ainda que as crateras, chamadas pelos cientistas de hidrolacólitos, de acordo com um relatório do Instituto de Ciência e Tecnologia Skolkov, aparecem como decorrência do derretimento de uma camada de gelo até então perene, conhecida como permafrost, e a consequente liberação de gás metano que estava sob a superfície do gelo.

O permafrost é encontrado em regiões muito frias do planeta. É composto por terra, sedimentos e rochas permanentemente congelados - mas isso tem mudado com as mudanças climáticas e o aquecimento global.

Durante esse processo, em seu interior são formadas áreas saturadas de gases, que, com o derretimento do gelo, são liberados na atmosfera - deixando um buraco para trás.

"Em um sentido literal, (a cratera) é um espaço vazio preenchido com gás de alta pressão e se forma quando a camada de gelo na tampa se solta", disse ele.

No caso da Sibéria, a extração de gás das vastas reservas Yamal, além das mudanças climáticas, pode contribuir para que o fenômeno aconteça, acrescenta Bogoyavlensky.

siberia

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Cratera guarda informações sobre o clima de 200 mil anos atrás

Por conta da saída de gás, o surgimento dessas crateras está muitas vezes associado a grandes explosões, segundo o Siberian Times.

Uma porta para o passado

Ainda de acordo com a imprensa russa, os grandes buracos representam uma rara oportunidade de se olhar para o passado, o presente e o futuro ao mesmo tempo.

As camadas de sedimentos expostas revelam como era o clima na região há cerca de 200 mil anos, um registro geológico que pode ajudar a entender como será a adaptação da região ao aquecimento global no futuro.

E, ao mesmo tempo, o crescimento potencial da cratera pode ser um indicador imediato do impacto crescente da mudança climática no permafrost.

Cratera de Batagaika

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Em algumas crateras previamente descobertas, a parede cresceu em média 10 metros por ano - nos anos mais quentes, aumento foi de até 30 metros

O processo que levou ao aparecimento dos hidrolacólitos remonta à década de 60, como explicou Julian Murton, professor da Universidade de Sussex, na Inglaterra, em entrevista à BBC.

O rápido desmatamento na região deixou o terreno sem a proteção das sombras das árvores nos meses de verão. Assim, os raios de sol aqueceram o solo e aceleraram o processo de degelo, uma vez que era a vegetação que mantinha o solo resfriado.

"Esta combinação de menos sombra e transpiração levou a um aquecimento da superfície", afirma.

Com o derretimento do permafrost, é possível que venham a surgir mais crateras como também lagos e bacias hidrográficas.

Para o professor, "à medida que o gelo derrete em novas profundidades, podemos ver o surgimento de paisagens novas".

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