'Vi pessoas presas dentro de casa pedindo por socorro': os relatos de moradores das cidadas arrasadas pela chuva em Minas Gerais

Crédito, Andre Coelho/EPA/Shutterstock
- Author, Iara Diniz
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
- Tempo de leitura: 5 min
A chuva começou a cair no início da noite de segunda-feira (23/2) na Zona da Mata de Minas Gerais.
Em poucas horas, a água já invadia casas e comércios, arrastava carros e provocava mortes em cidades da região.
Em Juiz de Fora, o volume de chuva chegou a cerca de 80% da média esperada para todo o mês em apenas sete horas.
Já em Ubá, choveu cerca de 170 mm em aproximadamente três horas e meia. O rio que corta a cidade atingiu 7,82 metros e transbordou, provocando inundações em diversos bairros.
Ao menos 30 pessoas morreram nas duas cidades e 39 estão desaparecidas, segundo o Corpo de Bombeiros.
Morador da região da Beira Rio, uma das avenidas mais atingidas em Ubá, o gerente de e-commerce Lucas Gandra recebeu o primeiro alerta de enchente pouco depois da meia-noite.
Um amigo ligou para avisar que a água estava prestes a transbordar do rio Ubá. Minutos depois, o cenário já era de destruição.
"Às 00h07 a água já estava transbordando e às 00h20 já estava fazendo um estrago enorme. Subiu muito rápido", relata.
Gandra conta que a partir daí testemunhou cenas de angústia.
"Vi pessoas que estavam presas dentro de casa pedindo por socorro e a gente não tinha nada o que fazer. Teve uma casa em que eu sinceramente achei que ia ver as pessoas morrendo afogadas."
Segundo ele, a cidade já tinha passado por outras enchentes, principalmente entre 2019 e 2020, mas nada comparado ao que aconteceu nas últimas 24 horas.
"E é uma enchente que não se limitou a perdas materiais. Teve gente que morreu saindo para ajudar. É rezar para Deus dar força para a gente e seguir em frente."

Crédito, Lucas Gandra
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A dentista Carolina Magalhães, que também mora em Ubá, conta que foi acordada durante a madrugada por uma vizinha, avisando que a água estava subindo muito rápido e que iria entrar na garagem do prédio.
Ela e o marido desceram para tirar o carro e estacionar em um ponto mais alto do bairro. Segundo Carolina, em menos de cinco minutos a água já estava entrando no prédio e chegando ao primeiro andar.
"A sensação na hora era que ia acontecer alguma coisa grave com a gente. Pensei até em pegar meus documentos e ir para o último andar. Foi desesperador. Graças a Deus minhas filhas não estavam em casa", contou.
Assustada, ela passou a registrar pelo celular tudo que via sendo levado pela enchente.
"Primeiro passou lixo, depois veio freezer, cadeira, carros, motos, muitos botijões de gás. Até que passou uma van e um caminhão carregados pela água. Uma cena de horror", lembra.
"E no meio de tudo isso, a gente ainda recebia mensagens das pessoas que estavam desaparecidas, que tinham perdido tudo."

Crédito, Carolina Magalhães
Em Juiz de Fora, a gerente de vendas Isabela Lourenço ainda tenta dimensionar os estragos deixados pela chuva.
"A cidade já teve alagamentos antes, mas em bairros específicos. E dessa vez o impacto foi em toda a cidade. Eu conheço diversas pessoas que estão desalojadas, tenho tios e primos que a Defesa Civil pediu para sair de casa porque estavam em risco. Foi a primeira vez que vivi isso vendo pessoas tão próximas nessa situação", destacou.
Assim como em Ubá, a prefeitura de Juiz de Fora decretou estado de calamidade pública. Ao menos 20 imóveis foram soterrados na cidade, principalmente na região sudeste, e cerca de 440 pessoas ficaram desabrigadas, acolhidas provisoriamente em três escolas municipais.
"É uma situação muito triste. As três avenidas principais de Juiz de Fora estão alagadas, vias fechadas, túneis. Uma situação caótica", destacou.
'Cenário de guerra'

Crédito, Lucas Gandra
Com a diminuição do nível da água, moradores começaram a limpar casas e a contabilizar os prejuízos deixados pela chuva nesta terça-feira (24/2).
"Hoje, quando sai de casa, vi um cenário de guerra, devastador", descreve Lucas Gandra, que mora em Ubá.
No local onde trabalha, a enchente quebrou paredes, estourou vidraças e inundou toda a loja, destruindo boa parte do estoque. Por causa disso, eles tiveram que pausar as vendas e não tem perspectiva de retomar.
"Eu trabalho em uma loja física com operação e-commerce. Não tem como trabalhar, pensar em faturar, em enviar pedido, porque a gente não tem infraestrutura. A cidade não comporta uma infraestrutura para coleta, despacho de pedidos. Uma sensação terrível de impotência", afirma.
O sentimento é compartilhado pelos moradores.
A médica Marcela Barbosa, que estava dando plantão em um município vizinho quando as chuvas atingiram Ubá, conta que mal reconheceu a cidade ao retornar esta manhã.
"Ubá está irreconhecível. Eu estou tentando entender o que aconteceu. A gente olha para os lados e está tudo interditado. Você só vê pessoas na rua com as roupas sujas, saindo para limpar e ajudar", afirma.
"Está tudo cheio de lama, uma destruição total."
Apesar dos danos, Gandra diz que se apoia na segurança da família e na solidariedade dos moradores.
"Agora é tentar olhar para um lado positivo. A nível pessoal, minha família está bem, mas materialmente vai ser um baque. E não é só a gente, os vizinhos estão na mesma situação, acordados desde cedo para limpar, arrumar a casa e seguir em frente assim que der."
Os fenômenos por trás da tragédia
Uma combinação de três fenômenos climáticos resultou na tempestade histórica.
Uma frente fria, impulsionada por um cavado e a formação de uma supercélula estão por trás da tragédia climática em Minas Gerais, explica Maria Clara Sassaki, porta-voz da Tempo OK Metereologia.
"Nós tivemos a passagem de uma frente fria pelo sudeste do Brasil, que acabou trazendo bastante instabilidade desde o litoral do Estado de São Paulo, passando pelo Rio de Janeiro e também com acumulado significativo, ontem e hoje, na região da Zona da Mata Mineira", diz Sassaki.
A frente fria que afetou a região provocou a formação de uma supercélula, uma nuvem gigante com uma corrente de ar ascendente e rotativa, conhecida como mesociclone.
Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), das quatro classificações de tempestade (supercélula, multicélula, unicélula e linha de instabilidade), as supercélulas são as menos comuns, e também as mais severas.
Ainda conforme a agência, as supercélulas podem produzir ventos fortes, chuva intensa com granizo, tornados mortais, enchentes e descargas elétricas.
Já o cavado foi um fenômeno que ajudou na formação dessa "super nuvem", diz a especialista.
Trata-se de uma região alongada de baixa pressão, geralmente em médios níveis da atmosfera, que favorece a subida do ar e a formação de nuvens e tempestades.
É como se fosse uma área onde o ar está "mais leve" e em altitudes elevadas, o que cria um efeito de sucção, puxando a umidade do solo para o alto.
"Imagina que o cavado é um vento que vai jogar ar úmido da superfície para a atmosfera. Esse movimento vai levando umidade para a nuvem, alimentando essa nuvem e vai trazendo mais condições para que essa nuvem cresça na atmosfera", diz Sassaki.
*Com reportagem de Thais Carrança
























