Como uma parede de tijolos levou policiais a salvar menina que sofreu anos de abuso sexual

Greg Squire, de camiseta cinza com decote em V e óculos, ao lado de uma imagem tratada de uma parede de tijolos e da silhueta de uma garota.
    • Author, Sam Piranty
    • Role, BBC Eye Investigations
  • Tempo de leitura: 8 min

Aviso: Este artigo contém detalhes sobre abuso sexual.

O investigador especializado em crimes online Greg Squire havia esbarrado em um beco sem saída no seu esforço para resgatar uma menina vítima de abusos sexuais — apelidada por sua equipe de "Lucy".

Imagens perturbadoras dela estavam sendo compartilhadas na dark web — uma parte criptografada da internet acessível apenas por meio de softwares especiais projetados para tornar seus usuários digitalmente impossíveis de serem rastreados.

Mesmo com esse nível de sigilo, o abusador fazia questão de tentar apagar seus rastros, cortando ou alterando quaisquer características que pudessem levar até ele, diz Squire. Era impossível descobrir quem era Lucy ou onde ela estava.

Mas Squire logo percebeu que a maior pista para localizar a menina de 12 anos estava ali, diante de seus olhos.

Squire trabalha para o Departamento de Segurança Interna dos EUA em uma unidade de elite que tenta identificar crianças que aparecem em material de abuso sexual.

Uma equipe da BBC — incluindo o repórter João Fellet da BBC News Brasil — passou cinco anos registrando o trabalho de Squire e de outras unidades de investigação no Brasil, Portugal e Rússia.

Os jornalistas filmaram os investigadores resolvendo casos como o de uma menina de 7 anos sequestrada na Rússia e que era dada como morta.

Outro caso é o de um brasileiro responsável por cinco dos maiores fóruns de abuso infantil na dark web. Ele foi capturado e condenado a 266 anos de prisão.

Essas histórias são narradas em Infiltrados na dark web, um documentário da BBC News Brasil com a BBC Eye, equipe de investigações da BBC. Assista aqui.

O acesso inédito da BBC mostra como esses casos são solucionados muitas vezes não por meio de tecnologia de ponta, mas por detalhes reveladores em imagens ou fóruns de bate-papo.

Legenda do vídeo, Rede internacional de investigação atua em colaboração rara entre países como Brasil, Portugal, Rússia e Estados Unidos.
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Squire cita o caso de Lucy, que ele abordou no início de sua carreira, como a inspiração para sua dedicação ao trabalho de vários anos.

Ele achou especialmente perturbador que Lucy tivesse quase a mesma idade que sua própria filha. Novas fotos dela sendo agredida, aparentemente em seu quarto, apareciam constantemente.

Squire e sua equipe puderam ver, pelo tipo de interruptores e tomadas elétricas visíveis nas imagens, que Lucy estava na América do Norte. Mas era só isso que eles sabiam.

Eles entraram em contato com o Facebook, que na época dominava as mídias sociais, pedindo ajuda para vasculhar fotos de usuários na plataforma e ver se Lucy estava em alguma delas. Mas a empresa, apesar de ter tecnologia de reconhecimento facial, disse que "não tinha as ferramentas" para ajudar.

Squire e seus colegas analisaram então tudo o que conseguiam ver no quarto de Lucy: a colcha, suas roupas, seus bichos de pelúcia. Sempre procurando por qualquer elemento que pudesse ajuda a encontrá-la.

Até que finalmente tiveram um pequeno avanço. A equipe descobriu que um sofá visto em algumas das imagens era vendido apenas em uma região dos Estados Unidos e não nacionalmente e que, portanto, tinha uma base de clientes mais limitada. Mas isso ainda representava cerca de 40 mil pessoas.

"Naquele ponto da investigação, ainda estávamos analisando 29 Estados aqui nos Estados Unidos. Quer dizer, estamos falando de dezenas de milhares de endereços, e essa é uma tarefa muito, muito difícil", diz Squire.

Greg Squire e seus colegas, incluindo Pete Manning, em seu escritório. Greg está vestindo uma camiseta verde e calças claras e caminha por uma sala repleta de telas de computador, segurando um laptop.
Legenda da foto, Squire e sua equipe monitoram salas de bate-papo da dark web 24 horas por dia, 7 dias por semana, em busca de pistas que possam identificar e localizar crianças abusadas

A equipe ainda procurava mais pistas. E foi então que perceberam que uma parede de tijolos aparentes no quarto de Lucy poderia ser uma pista.

"Comecei a pesquisar tijolos no Google e não demorou muito para encontrar a Associação da Indústria de Tijolos", diz Squire.

"E a mulher ao telefone foi incrível. Ela perguntou: 'Como a indústria de tijolos pode ajudar?'."

Ela se ofereceu para compartilhar a foto com especialistas em tijolos de todo o país. A resposta foi quase imediata, diz o agente.

Uma das pessoas que entrou em contato foi John Harp, que trabalhava com vendas de tijolos desde 1981.

"Notei que o tijolo era de um tom rosado intenso e tinha uma leve camada de cor carvão. Era um tijolo modular de 20 cm e tinha bordas quadradas", diz Squire. "Quando vi isso, soube exatamente qual era o tijolo."

Era um "Flaming Alamo", disse o especialista: "[Nossa empresa] fabricou esse tijolo do final dos anos 1960 até meados dos anos 1980, e eu vendi milhões de tijolos dessa fábrica".

John Harp tem cabelo grisalho curto e bigode grisalho. Ele veste uma camisa preta de mangas curtas e calças verdes, e está sentado em sua fábrica de tijolos, com caixas abertas atrás dele.
Legenda da foto, John Harp conseguiu identificar o tipo de tijolo na parede mostrada atrás de Lucy

Inicialmente, Squire ficou entusiasmado, esperando que os investigadores pudessem acessar uma lista de clientes digitalizada. Mas Harp revelou que os registros de vendas eram apenas uma "pilha de anotações" que remontavam a décadas.

No entanto, ele revelou um detalhe crucial sobre os tijolos, conta Squire. "Ele disse: 'Tijolos são pesados.' E acrescentou: 'E tijolos pesados ​​não vão muito longe.'"

Isso mudou tudo. A equipe voltou à lista de clientes do sofá e a restringiu apenas aos clientes que moravam em um raio de 160 km da fábrica de tijolos de Harp, no sudoeste dos Estados Unidos.

A partir dessa lista de algo entre 40 e 50 pessoas, foi fácil encontrar e vasculhar suas redes sociais. E foi então que encontraram uma foto de Lucy no Facebook com uma mulher adulta que parecia próxima da menina — possivelmente, uma parente.

Eles descobriram o endereço da mulher e, em seguida, usaram essa informação para encontrar todos os outros endereços ligados a essa pessoa e todos os outros com quem ela já havia morado.

Isso restringiu ainda mais o possível endereço de Lucy, mas eles não queriam ir de porta em porta fazendo perguntas. Se errassem o endereço, corriam o risco de o suspeito ser alertado de que estava no radar das autoridades.

Então, Squire e seus colegas começaram a enviar fotos dessas casas para John Harp, o especialista em tijolos.

Greg Squire with his dog on a walk near his home - he is looking down at the black, white and tan dog looking up at him.
Legenda da foto, Squire, em sua casa em New Hampshire, ficava perturbado com o fato de que Lucy tinha idade semelhante à de sua própria filha

Os tijolos Flaming Alamo não eram visíveis na parte externa de nenhuma das casas, porque as propriedades eram revestidas com outros materiais. Mas a equipe pediu a Harp que avaliasse — observando o estilo e o exterior — se essas propriedades haviam sido construídas durante um período em que os tijolos Flaming Alamo estavam à venda.

"Basicamente, fazíamos uma captura de tela de uma casa e enviávamos para John, perguntando: 'Esta casa teria esses tijolos por dentro?'", diz Squire.

Finalmente, eles fizeram uma descoberta: encontraram um endereço que Harp acreditava provavelmente ter uma parede de tijolos Flaming Alamo e que constava na lista de clientes do sofá.

"Então, restringimos a busca a esse endereço e começamos o processo de confirmação de quem morava lá por meio de registros estaduais, carteira de motorista, informações sobre escolas", diz Squire.

A equipe percebeu que Lucy havia morado na mesma casa que o namorado de sua mãe — um criminoso sexual que já havia sido condenado no passado.

Em poucas horas, agentes locais da Segurança Interna dos Estados Unidos prenderam o criminoso, que vinha estuprando Lucy havia seis anos. Ele foi posteriormente condenado a mais de 70 anos de prisão.

Harp, o especialista em construção civil, ficou muito feliz em saber que Lucy estava segura, especialmente considerando sua própria experiência como pai adotivo.

"Já acolhemos mais de 150 crianças diferentes em nossa casa. Adotamos três. Então, ao longo desses anos, tivemos muitas crianças em casa que sofreram abusos [anteriormente]", disse ele.

"O que [a equipe de Squire] faz diariamente e o que eles veem é algo muito maior do que já vi ou tive que enfrentar."

Greg Squire caminhando na floresta - ele está usando um casaco escuro e um gorro cinza.
Legenda da foto, Squire enfrenta problemas de saúde mental em decorrência de seu trabalho

Há alguns anos, a pressão que Squire sofreu em seu trabalho começou a afetar seriamente sua saúde mental. Ele próprio admite que, quando não estava trabalhando, "o álcool era uma parte maior da minha vida do que deveria ser".

"Naquela época, meus filhos já eram um pouco mais velhos... E, sabe, isso quase te permite se envolver mais. Tipo... 'Aposto que se eu levantar às 3h, posso pegar [um criminoso] online.'", diz o agente.

"Mas, enquanto isso, na minha vida pessoal... 'Quem é Greg?' Eu nem sei o que ele gosta de fazer.'"

Pouco tempo depois, seu casamento acabou, e ele diz que começou a ter pensamentos suicidas. Foi seu colega Pete Manning quem o encorajou a procurar ajuda.

Greg Squire e Pete Manning caminhando pela praia com bebidas para viagem na mão. Ambos vestem calças azuis e jaquetas marrons.
Legenda da foto, "Me sinto honrado por fazer parte da equipe que conseguiu fazer a diferença", diz Squire, fotografado com o amigo e colega Pete Manning

"É difícil quando aquilo que lhe dá tanta energia e motivação é também aquilo que o está destruindo lentamente", diz Manning.

Squire afirma que expor suas vulnerabilidades foi o primeiro passo para melhorar e continuar fazendo um trabalho do qual se orgulha.

"Me sinto honrado por fazer parte da equipe que conseguiu fazer a diferença, em vez de assistir pela TV ou só ouvir falar sobre o assunto... Prefiro estar lá na luta, tentando impedir que isso aconteça."

No ano passado, Greg conheceu Lucy, agora uma mulher de 20 e poucos anos, pela primeira vez.

Squire e Lucy estão conversando sentados em um banco de parque. Squire veste uma camiseta escura e Lucy usa um boné e uma regata azul.
Legenda da foto, Lucy (à esquerda), agora adulta, disse a Squire que vinha rezava para que alguém a salvasse

Ela disse que ser capaz de finalmente falar sobre o que aconteceu é uma prova do apoio que tem ao seu redor.

"Tenho mais estabilidade. Consigo ter energia para conversar com as pessoas [sobre o abuso], o que eu não conseguiria fazer... Nem mesmo há alguns anos."

Ela conta que, na época em que o Departamento de Segurança Interna prendeu o criminoso, ela "rezava para que tudo terminasse". "Sem querer soar clichê, mas foi uma oração atendida."

Squire disse a ela que gostaria de ter podido avisar que estava a caminho. "A gente queria ter telepatia e poder entrar em contato e dizer: 'Escuta, estamos chegando'."

A BBC perguntou ao Facebook por que não usou sua tecnologia de reconhecimento facial para ajudar na busca por Lucy. A resposta foi: "Para proteger a privacidade do usuário, é importante que sigamos o processo legal apropriado, mas trabalhamos para apoiar as autoridades policiais o máximo possível".