Como o Paquistão ajudou a mediar cessar-fogo entre EUA e Irã

Crédito, Reuters
- Author, Caroline Davies
- Role, Correspondente da BBC News no Paquistão
- Tempo de leitura: 5 min
Nas horas que antecederam o anúncio do cessar-fogo de duas semanas entre Irã e Estados Unidos, surgiram sinais discretos de avanço nas negociações mediadas pelo Paquistão.
Falando sob anonimato, uma fonte paquistanesa disse à BBC que as negociações avançavam "em ritmo acelerado", com o Paquistão atuando como intermediário entre Irã e EUA.
Segundo essa fonte ouvida pela BBC, as negociações do lado paquistanês estavam concentradas em "um grupo muito restrito" e o clima era "sombrio e sério, mas ainda com esperança de que o desfecho seja uma cessação das hostilidades. Restam poucas horas". A fonte afirmou não fazer parte desse grupo.
Nas últimas semanas, o Paquistão tem atuado como intermediário entre Irã e EUA, transmitindo mensagens entre os dois lados. O país mantém uma relação histórica com o Irã, com quem compartilha fronteira, e frequentemente descreve o vínculo como "fraterno".
Em relação aos EUA, o presidente americano, Donald Trump, já se referiu ao chefe das Forças Armadas do Paquistão, marechal Asim Munir, como seu "marechal favorito", que conhece o Irã "melhor do que a maioria".
Um acordo ainda estava longe de estar acertado. Em discurso no Parlamento na noite de terça-feira (7/4), o ministro das Relações Exteriores paquistanês, Ishaq Dar, afirmou: "Até ontem, estávamos muito otimistas de que as coisas avançavam em uma direção positiva", antes de Israel lançar um ataque contra o Irã na segunda-feira (6/4) e de o Irã atacar a Arábia Saudita.
Segundo ele, o Paquistão "ainda tentava administrar a situação da melhor forma possível".
O marechal de campo Asim Munir foi ainda mais crítico. Em declaração a autoridades militares na terça-feira, afirmou que o ataque à Arábia Saudita "prejudica esforços sinceros para resolver o conflito por meios pacíficos".
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Foi uma das declarações mais duras feitas pelo Paquistão em relação ao Irã desde o início do conflito.
Alguns analistas sugerem que isso pôde aumentar a pressão sobre o Irã. O Paquistão mantém um acordo de defesa mútua com a Arábia Saudita — que determina que uma agressão a um dos dois deve ser visto como ataque contra ambos — , que ainda não foi acionado, apesar dos ataques repetidos contra o país.
Após a meia-noite de terça no Paquistão, o primeiro-ministro do país, Shehbaz Sharif, publicou na rede social X que os "esforços diplomáticos […] avançam de forma constante, firme e consistente, com potencial de gerar resultados concretos no curto prazo" e pediu ao presidente Donald Trump que estendesse o prazo por duas semanas, além de solicitar que o Irã reabrisse o estreito de Ormuz pelo mesmo período.
O embaixador do Irã no Paquistão, Reza Amiri Moghadam, escreveu na rede X por volta das 03h (horário local) que houve "um avanço em relação a uma fase crítica e sensível".
Pouco antes das 05h, o primeiro-ministro paquistanês anunciou que um cessar-fogo havia sido acordado e convidou as duas partes a se reunirem na capital paquistanesa, Islamabad, na sexta-feira (10/04) para "prosseguir nas negociações em busca de um acordo definitivo".
"Continuamos sendo muito cautelosos", disse a fonte paquistanesa à BBC, acrescentando que a situação segue "frágil". Ainda não há confiança entre os dois lados, cada um se mostrando irredutível nas suas posições.
Embora o Paquistão possa vir a reunir as partes à mesa, a questão é o que elas conseguirão, de fato, acordar.
Por que o Paquistão se envolveu nas negociações?
O Paquistão depende fortemente de petróleo importado, grande parte dele transportado pelo estreito de Ormuz.
"O Paquistão, eu diria, mais do que quase qualquer outro país fora do Oriente Médio, tem muito em jogo aqui", afirmou Michael Kugelman, pesquisador sênior para o Sul da Ásia no centro de pesquisas e debates Atlantic Council, nos EUA, em entrevista à BBC.
"Ele tem um interesse muito claro em fazer o que puder para contribuir com esforços de desescalada (da crise)."
O governo paquistanês aumentou os preços da gasolina e do diesel em cerca de 20% no início de março e já adotou medidas como a semana de trabalho de quatro dias para os servidores públicos, na tentativa de economizar combustível.
"Se a guerra continuar, as pressões econômicas no Paquistão vão aumentar enormemente", afirma Farhan Siddiqi, professor de ciência política no Institute of Business Administration, em Karachi, no Paquistão.
Também há temor sobre o que uma escalada pode provocar.
Após o fechamento do acordo de defesa com a Arábia Saudita em setembro passado, surgiram dúvidas sobre como o Paquistão reagiria caso o país árabe entrasse na guerra e acionasse o acordo.
"O problema para nós é que, se formos chamados a entrar no conflito ao lado da Arábia Saudita, toda a nossa fronteira oeste (com o Irã) ficará em grande parte vulnerável", afirma Siddiqi, do Institute of Business Administration.
Por outro lado, também está em jogo a posição internacional do Paquistão.
"O Paquistão é muito sensível a críticas de que não tem influência no cenário global", afirmou Kugelman, do Atlantic Council. "Não acho que essa seja a principal motivação para a postura que adotou, mas isso também pesa."
"É uma diplomacia de alto risco, sem dúvida", acrescenta Lodhi, ex-embaixadora paquistanesa. "Há muito a perder e a ganhar. Se der certo, coloca o Paquistão no topo do jogo diplomático global."
Como o Paquistão se aproximou dos EUA?
Ao longo do conflito, o Paquistão foi rápido em capitalizar sua relação com Trump.
Lodhi, ex-embaixadora paquistanesa, cita a indicação de Trump ao Prêmio Nobel da Paz pelo Paquistão, "em reconhecimento à sua intervenção diplomática decisiva" durante a crise entre Paquistão e Índia em 2025.
Kugelman, do Atlantic Council, acrescenta que o Paquistão "está disposto a adotar estratégias diplomáticas não convencionais, ao contrário da Índia. [...] O fato de líderes paquistaneses terem se esforçado para elogiar o presidente (americano) ajudou sua posição no governo dos EUA e tornou o Paquistão um facilitador e mediador mais atraente aos olhos do governo".
"O país percebeu que o melhor caminho na diplomacia regional é a neutralidade", afirmou Siddiqi, do Institute of Business Administration. "O mundo atual é um cenário em que os países — especialmente as potências médias — estão mais confortáveis com uma política de múltiplos alinhamentos."
"Acho que o Paquistão está bem posicionado para dialogar com o Irã porque não carrega a imagem de ser pró-Israel nem fortemente pró-EUA", acrescentou Siddiqi.



























