'Vidas negras importam': o que é o Juneteenth e o que tem a ver com os protestos após a morte de George Floyd?

Miss Juneteenth em carro aberto em Denver.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Juneteenth é comemorado nos EUA há mais de 150 anos
Tempo de leitura: 5 min

Juneteenth é uma das celebrações mais antigas dos Estados Unidos, que marca o fim de mais de dois séculos de escravidão no país.

Ela é comemorada no dia 19 de junho desde 1866 e organizações de direitos civis dos EUA, como a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês), há muito tempo fazem lobby para tornar a Juneteenth um feriado nacional oficial. Agora, a luta por esse reconhecimento está perto de terminar.

Um projeto de lei para tornar o Juneteenth um feriado federal foi aprovado no Senado dos Estados Unidos (por unanimidade) e na Câmara dos Deputados (415 votos a favor, 14 contra).

Nesta quarta-feira (17/6), o presidente americano Joe Biden transformou a proposta em lei, durante um evento da Casa Branca na tarde desta quinta-feira (17/06).

"Só sou presidente há vários meses, mas acho que isso será considerado, para mim, uma das maiores honrarias que terei como presidente", disse Biden na cerimônia de assinatura.

Embora o Texas tenha se tornado o primeiro Estado a tornar o Juneteenth um feriado oficial em 1980, levou mais de quatro décadas para que isso fosse replicado em nível nacional.

A luta por essa medida ganhou força após a morte de George Floyd, com o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em português) e a eleição de Joe Biden como presidente.

Floyd, um homem negro de 46 anos, foi sufocado até a morte por um policial branco, filmado ajoelhado sobre seu pescoço, enquanto ele agonizava. O episódio provocou uma onda de protestos globais contra o racismo e a violência policial, inclusive no Brasil.

Mas o que é Juneteenth?

Um desenho do século 18 mostra escravizados a bordo de um navio negreiro.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Escravidão durou mais de dois séculos nos Estados Unidos

O nome vem de uma combinação, em inglês, de 'junho' e 'décimo nono', em referência à data em que finalmente foi declarado o fim da escravidão nos EUA. Também é conhecido como Dia da Emancipação e Dia da Liberdade.

O presidente Abraham Lincoln havia emitido a Proclamação de Emancipação - que formalmente libertou todos os escravos - mais de dois anos antes. Mas precisou de tempo, e do fim da guerra civil americana (1861-1865), até isso virar uma realidade para todos.

O Texas era um dos Estados confederados - um grupo de Estados que defendiam a escravidão e que lutaram contra a União na guerra civil.

Foi o último Estado a se render ao Exército da União, e também o último onde os negros escravizados foram libertos.

Quando o general da União Gordon Granger leu o documento na cidade de Galveston, a guerra havia terminado e Lincoln havia sido assassinado por um simpatizante confederado em um teatro.

Por que Juneteenth não é um feriado nacional?

Crianças participando de uma comemoração 'Juneteenth' em 2019.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Apesar de ser uma das celebrações mais antigas dos EUA, o Juneteenth não é oficialmente reconhecido como um feriado nacional

Atualmente, 46 dos 50 Estados e o Distrito de Columbia observam ou comemoram oficialmente o Juneteenth. Mas a data não é um feriado nacional, apesar dos anos de lobby das organizações de direitos civis.

Nos últimos dias, várias empresas - incluindo Apple, Nike e Twitter - anunciaram que a data será um feriado remunerado para seus funcionários a partir de agora.

Também nessa lista está o corpo diretor do futebol americano, a Liga Nacional de Futebol (NFL, em inglês). A NFL foi criticada nos últimos anos por excluir o ex-jogador do San Francisco 49ers Colin Kaepernick, que ajoelhou durante o hino nacional em apoio ao movimento Black Lives Matter.

Nikola Hannah-Jones, jornalista do New York Times e autora de uma série premiada sobre a história da escravidão nos EUA, é uma das vozes que defendem o feriado nacional.

"O fato de os EUA não terem um Dia de Emancipação para marcar a abolição de uma instituição contrária aos nossos ideais fundadores de liberdade demonstra uma negação contínua e nossa incapacidade de reconhecer o que fizemos e quem somos. Deveria ser um feriado nacional", escreveu ela em sua conta no Twitter em 11 de junho.

Juneteenth: como Trump causou controvérsia?

Trump

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Trump causou alvoroço ao agendar inicialmente um comício de campanha em Tulsa

Em 11 de junho, enquanto manifestantes contra o racismo estavam nas ruas de um grande número de cidades dos EUA, Trump anunciou que realizaria um comício de campanha, o primeiro desde março (devido a restrições relativas ao coronavírus), na cidade de Tulsa, em Oklahoma, em 19 de junho.

Além da data em si, a escolha do local por Trump também causou furor: Tulsa é o local onde ocorreu um dos piores massacres de negros na história dos EUA, em 1921.

Trump mudou de ideia alguns dias depois e mudou o evento para 20 de junho. Ele disse que a data não foi intencionalmente escolhida e que ele adiaria o evento "por respeito a este feriado".

Mas o local foi mantido - Tulsa é uma das maiores cidades de Oklahoma, um Estado em que Trump conquistou mais de 65% dos votos nas eleições presidenciais de 2016.

Como o Juneteenth se relaciona com o movimento Black Lives Matter?

O elenco de Black-ish durante as filmagens de um episódio com o tema Juneteenth em 2017.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Lobby para status oficial do Juneteenth foi endossado pela série de TV "Black-ish"

Ativistas têm se empenhado pela conscientização em relação à data nos últimos anos, inclusive com eventos nacionais promovidos pelo movimento Black Lives Matter (Vidas negras importam).

A campanha incluiu um episódio de Black-ish, uma série de comédia que mostra a vida de uma família americana negra de classe média alta, com o tema Juneteenth.

O episódio, transmitido originalmente em outubro de 2017 e exibido novamente este ano, pede abertamente que Juneteenth seja reconhecido como feriado nacional.

Os protestos em andamento e a crescente conscientização sobre o racismo sistêmico deram ao Juneteenth um novo destaque. Há eventos públicos planejados nos EUA na sexta-feira e no fim de semana.

O governo dos EUA já se desculpou pela escravidão?

Clinton no Senegal em 1998

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Presidente Clinton pediu desculpas pelo comércio de escravizados nos EUA em uma visita à África em 1998

Durante uma viagem à África em 1998, o então presidente democrata Bill Clinton pediu desculpas pelo tráfico de escravizados.

Dez anos depois, a Câmara dos Deputados dos EUA emitiu um pedido de desculpas pela escravidão e segregação.

O movimento foi seguido no ano seguinte pelo Senado dos EUA.

Mas, para muitos, essas desculpas não são suficientes. Há pedidos nos EUA por reparações a descendentes de escravizados, mas a questão divide opiniões: em uma pesquisa realizada no ano passado, 74% dos negros americanos mostraram apoio a esse tipo de indenização, enquanto 85% dos brancos se opuseram a eles.

Este texto foi publicado originalmente no dia 18 de junho de 2020 e atualizado às 10h do dia 18 de junho de 2021.

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