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Autonomia de províncias na China complica saída para soja | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Negociar diretamente com o governo central da China, em Pequim, pode não ser suficiente para o Brasil resolver a crise da soja "contaminada", que já levou a suspensão de importações e proibição de 23 exportadores brasileiros de vender para o país. Na teoria, os relatórios dos encarregados de controle de qualidade nas regiões são enviados a Pequim. No entanto, geralmente, os documentos ficam nas províncias, onde comerciantes chineses locais e lobistas têm mais poder de ação. "É mais fácil pedir a amigos no Departamento de Quarentena (nas províncias) que encontrem grãos vermelhos em um carregamento", contou à BBC Brasil uma fonte que preferiu não se identificar. A pressão externa, como a da delegação brasileira que está visitando o país, não muda a situação. Se o assunto não é importante a nível local, Pequim tem pouco a fazer. 'Quebra de confiança' Mas o governo central chinês está relutante em reconhecer essa impotência diante do problema com a soja brasileira. Jim Liu, do departamento de comércio da Embaixada do Brasil em Pequim, disse estar preocupado com a situação. "Acho que é uma questão séria, que envolve 23 empresas, e que só piorou desde abril. Parece que os exportadores envolvidos não estão familiarizados com os padrões de distribuição internacional", diz. Para Liu, a qualidade do carregamento de soja do primeiro navio que foi proibido de descarregar na China era inaceitável, "o nível de mistura era muito alto". Segundo ele, o episódio ofendeu as autoridades chinesas e é por isso que a China está com controles de qualidade e de quarentena rígidos contra o produto brasileiro. "Foi uma quebra de confiança entre Brasil e China", diz Liu. Novas medidas Na última sexta-feira, o Ministério da Agricultura brasileiro tomou uma série de medidas mais rígidas para tentar controlar o nível de produtos tóxicos presentes na soja. De acordo com a instrução divulgada pelo Ministério da Agricultura, a soja será considerada boa para exportação se tiver até um grão contaminado por quilo do produto. Segundo Liu, os pontos chaves do documento já foram traduzidos pela embaixada e enviados ao governo chinês. Apesar das dificuldades, Liu acredita que a disputa deve ser resolvida logo, porque a China tem muita necessidade de soja. Para o assessor da embaixada brasileira, a China sabe que não é possível garantir a inexistência total de mistura de produtos nos grãos importados. "Não existe tolerância zero. A China compra gãos para processamento e ninguém pode efetivamente garantir que só existem grãos puros", diz Liu. Richard Herzfelder, consultor de uma companhia de serviços alimentícios da China, discorda. "Da forma como está agora, a China é um dos países que nunca fixou limites de tolerância, por tanto, mesmo um único grão vermelho em 50 mil toneladas pode ser demais e eles podem protestar", avalia Herzfelder. Para o consultor, o mercado internacional pode ganhar com esse "conflito comercial" entre China e Brasil. "Se novas medidas e novas regras forem introduzidas, isso só trará benefícios. É extremamente importante melhorar a qualidade dos produtos, saber a origem dos grãos e criar regras de tolerância." A China é o maior importador de soja do mundo e deve importar entre 19 e 19,5 milhões de toneladas do produto neste ano - menos do que os 20,7 milhões do ano passado. O Brasil é o segundo maior exportador do produto, atrás apenas dos Estados Unidos. No ano passado, os produtos agrícolas contribuíram com 38,9% das exportações brasileiras para a China. Soja e seus derivados representaram 80% das vendas de produtos agrícolas do Brasil para o mercado chinês. |
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