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Atualizado às: 15 de outubro, 2003 - 18h11 GMT (15h11 Brasília)
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Brasil deve impor limites para assinar acordo com FMI, diz Stiglitz

O economista Joseph Stiglitz
Prêmio Nobel diz que Bush herdou de Clinton problemas econômicos

Ganhador do prêmio Nobel de economia de 2001, o americano Joseph Stiglitz disse acreditar que o Brasil não deve assinar nenhum acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional) caso a instituição insista em metas fiscais e superávits primários excessivamente altos.

Em entrevista à BBC Brasil, Stiglitz, conhecido pelo grande público pelas críticas que tem feito ao Fundo, ao Banco Mundial e à maneira como a globalização é conduzida pelos países desenvolvidos, afirmou, no entanto, acreditar que o governo brasileiro poderá negociar um acordo em que estabeleça a própria política econômica.

O economista acaba de lançar um novo livro, Os exuberantes Anos 90, em que revisita o governo Clinton, do qual fez parte como chefe da equipe de conselheiros econômicos da Casa Branca.

No livro, ele critica a excessiva desregulamentação da economia americana nos anos 90, que viria a alimentar a bolha do mercado de ações. O estouro da bolha, por sua vez, causaria a maior desaceleração econômica mundial desde a Grande Depressão, na década de 1930.

O livro, a ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras no próximo dia 30, chegou às livrarias americanas na segunda-feira. Stiglitz falou com exclusividade sobre Os Exuberantes Anos 90 à BBC Brasil.

BBC Brasil – O que o levou a escrever este livro e de que maneira ele se difere de A Globalização e seus Malefícios?

Joseph Stiglitz – Minha intenção neste livro foi não apenas apresentar uma nova interpretação para a história econômica dos anos 90, mas também analisar o papel que nossas instituições econômicas, como o FED (Banco Central americano) e o Departamento do Tesouro, tiveram naquele período.

Existem similaridades e diferenças entre este livro e A Globalização e Seus Malefícios. Enquanto no primeiro eu abordo aquele período de uma maneira mais ampla, em Os Exuberantes Anos 90 eu me concentro no que se passou nos Estados Unidos e na minha experiência como um integrante da equipe econômica do governo Clinton.

Nos anos 90, a economia americana estava florescendo e a globalização no estilo americano despontava como um processo tão bem-sucedido que parecia estar tomando conta de todo o mundo.

O fluxo internacional de capitais cresceu seis vezes em seis anos. E havia um tremendo senso de excitação a respeito, em que todos pareciam estar ganhando.

Mas de repente, tudo pareceu virar de cabeça para baixo na virada da década: nos Estados Unidos, a bolha dos mercados de ações estourou, causando a mais séria retração da economia mundial desde os anos 30.

Paralelamente, os protestos contra a globalização ganharam as ruas de forma violenta em lugares tão diversos quanto Seattle ou Gênova.

No cenário internacional, países que haviam seguido a receita imposta pelo FMI, como a Argentina e o Brasil passaram por dolorosas crises cambiais.

E nos Estados Unidos, os ataques terroristas de 2001 nos mostraram um lado até então desconhecido da globalização: o terrorismo também poderia cruzar fronteiras facilmente.

BBC Brasil – De que maneira aquilo que o senhor chama de “sementes da destruição”, como a desregulamentação da economia americana, foram plantadas durante o governo Clinton?

Stiglitz – Durante os exeburantes anos 90, nós do governo Clinton lançamos as “sementes da destruição” tanto para a economia americana quanto para o processo de globalização.

Seria fácil culpar o governo Bush por tudo o que aconteceu de negativo à economia americana nos últimos anos. É verdade que o governo Bush cometeu uma série de erros graves e que tais erros agravaram a recessão que veio depois do furo da bolha do mercado de ações. Mas o fato é que, como procurei demonstrar no livro, a economia americana já estava escorregando para a recessão antes da posse de Bush, da mesma forma que os escândalos corporativos que viriam a sacudir os Estados Unidos também começaram a acontecer muito antes.

Um dos problemas a que eu chamo de “semente da destruição” é que nós (do governo Clinton) não conseguimos obter o equilíbrio ideal entre a intervenção do governo e a ação dos mercados.

Nós perdemos aquele equilíbrio e tal perda veio a ser a raiz dos males que apareceriam nos anos subseqüentes. Se você olhar os setores que faziam o lobby contra a regulação da economia – e que se provaram os mais problemáticos depois do estouro da bolha – verá que eles são o setor bancário, de eletricidade e telecomunicações.

Não se trata de mera coincidência o fato de que tais setores estarem no centro dos maiores escândalos corporativos dos últimos anos. Foram justamente eles que gastaram milhões de dólares promovendo lobbies contra a regulamentação do governo, para que tivessem maior liberdade de ação no mercado.

Infelizmente, eles acabaram conquistando essa liberdade durante o governo Clinton, através de medidas de desregulamentação da economia.

Alguns de nós tentamos fazer com que o governo tivesse uma regulamentação mais forte em áreas como contabilidade e governança corporativa, mas nós acabamos perdendo essa batalha para o lobby de Wall Street.

BBC Brasil – Que lições o estouro da bolha tecnológica ensina a economistas e políticos, uma vez que o seu livro diz que foi a ideologia de Wall Street que gerou e alimentou a bolha?

 Nós aprendemos a lição errada: de que todas as regulamentações eram más – e que por isso todas elas deveriam ir para o lixo.

Joseph Stiglitz

Hoje é claro que eles estavam promovendo aquele lobby para ter lucros muito mais altos – e lucros altos são um claro sinal de uma competição fraca ou de competição zero.

BBC Brasil – E que lições o povo americano e de outros países podem tirar do mesmo episódio?

Stiglitz – Uma das principais lições tem a ver com a existência de uma visão. O fim da Guerra Fria nos deu uma chance sem precedentes – a de que nós poderíamos forjar uma nova ordem internacional, não mais baseada nos poderes conflitantes de duas superportências.

Ao fim da Guerra Fria, os Estados Unidos eram a única superpotência do planeta, tanto do ponto de vista econômico quanto militar, mas nós não tivemos a visão de como essa nova ordem internacional, que beneficiasse a todos, pudesse ser atingida.

Mas as grandes corporações econômicas tinham essa visão e eles usaram o governo americano para forçar negociações internacionais nas quais os interesses das multinacionais americanas tivessem o papel dominante.

Isso explica, por exemplo, acordos comerciais como a Rodada do Uruguai (que criou a Organização Mundial do Comércio), em que os Estados Unidos ganharam, mas em que, por outro lado, os países mais pobres do mundo, como a região da África Subsaariana perderam muito, o que contribuiu ainda mais para a desigualdade econômica.

BBC Brasil – Qual a sua definição para o equilíbrio ideal entre a atuação dos mercados e a intervenção do governo?

Stiglitz – Acredito que em primeiro lugar esse equilíbrio deva ser dinâmico. Ele vai depender, por exemplo, se a economia crescer e novas tecnologias forem desenvolvidas.

Uma das coisas que ficaram claras no começo dos anos 90 é que algumas das medidas que foram usadas pelo governo nos anos 30 não faziam mais sentido e estavam travando a economia americana. Tais medidas, portanto, tinham que ser abolidas.

Mas nós aprendemos a lição errada: de que todas as regulamentações eram más – e que por isso todas elas deveriam ir para o lixo. O certo teria sido reconhecer que a nova moldura econômica americana merecia novas regulamentações, que resolvessem, por exemplo, as questões criadas pelo surgimento da tecnologia da informação.

O mesmo se aplica às questões de auditoria e contabilidade das empresas, à medida em que empresários e executivos desonestos tinham aprendido novas formas de esconder seus ganhos, escapando de suas obrigações para com o governo.

O mesmo pode ser dito sobre o surgimento dos mercados de derivativos; era preciso criar mecanismos legais para proteger os investidores. Nos dois últimos anos, o governo americano passou a reconhecer a importância de uma maior regulamentação na economia, mas estamos longe de atingir a sofisticação necessária para lidar com os desafios contemporâneos.

BBC Brasil – Seu livro também sustenta que, em parte, a pujança econômica dos anos Clinton se deveu a uma série de “erros felizes”, como a ênfase do governo em reduzir o déficit público americano. Como foi que isso aconteceu?

Stiglitz – Tradicionalmente, políticas de contenção do déficit público incluem a elevação dos juros pelo governo, que por sua vez provocam o desaquecimento da economia. Isto aconteceu de maneira dramática em várias partes do mundo, da Indonésia à Argentina, por meio de políticas exigidas pelo FMI.

Clinton
Para o economista, Bill Clinton cometeu 'erro feliz'

Nos Estados Unidos, ao assumir a Casa Branca, o presidente Clinton também resolveu priorizar a contenção do déficit americano, que em 2001 quase batia em 5% do PIB (americano).

Curiosamente, em função daquilo a que eu chamo de um “erro feliz”, ou um erro de cálculo na política macroeconômica, a contenção do déficit público acabou propiciando uma queda nas taxas de juros.

Isto aconteceu porque, inadvertidamente, ao diminuir o déficit, o governo americano acabou recapitalizando os bancos, que por sua vez tinham investido pesadamente em títulos de longo prazo do governo americano. E ao se recapitalizarem, os bancos puderam aumentar o crédito, reaquecendo a economia.

BBC Brasil – Qual a sua avaliação sobre a performance do diretor-geral do FED, Alan Greenspan?

Stiglitz – É interessante ver como durante os anos 90 ele e o (Departamento do) Tesouro receberam um enorme crédito pela performance econômica americana.

 Depois que a bolha estourou, muita gente se pergunta, se eles ganharam tanto crédito pelo sucesso, também não seria justo agora culpá-los pela recessão?

Joseph Stiglitz

Depois que a bolha estourou, muita gente se pergunta: se eles ganharam tanto crédito pelo sucesso, também não seria justo agora culpá-los pela recessão?

Hoje é claro que eles foram incapazes de interromper o declínio e igualmente incapazes de reverter a desaceleração econômica num novo período de prosperidade.

O descompasso entre o potencial da economia americana e a atual desaceleração é enorme. Se examinarmos de perto o que aconteceu é preciso reexaminar tanto o crédito quanto a culpa que o Banco Central americano merece levar.

Nós sabemos agora que o Greenspan reconheceu que havia uma bolha, durante aquele seu famoso discurso sobre a “exuberância irracional”. Mas quando aquelas palavras deixaram de ter o efeito que ele esperava, ele mudou de idéia e se tornou um “chefe de torcida” da bolha, inflando-a ainda mais com suas afirmações, falando de uma nova era.

Ele tinha instrumentos aos quais poderia recorrer, como aumentar as exigências de margem de tesouraria, limitando os riscos do sistema financeiro no mercado acionário. Mas ele não fez nada disso.

Outro grave erro de Greenspan foi apoiar o plano de corte de impostos do governo Bush, que veio a favorecer justamente os mais ricos, aqueles que mais se beneficiaram do boom dos anos 90. Esse corte de impostos gerou um déficit enorme, mas foi incapaz de reestimular a economia. Acredito que tais erros põem em questão o papel de um Banco Central independente.

BBC Brasil – E o que é que o governo George W. Bush poderia ter feito para reverter ou minimizar a recessão que se seguiu ao estouro da bolha do mercado de ações?

Stiglitz – Todo presidente chega à Casa Branca com um legado econômico de seu antecessor, que pode ser tanto negativo ou positivo. No caso de Clinton, esse legado era claramente negativo, com um sério déficit e recessão.

Já Bush chegou à Casa Branca com um imenso superávit e uma economia que caminhava para a recessão. Ele poderia ter planejado uma política econômica que tivesse tirado o país rapidamente da recessão. Ele poderia ter estimulado a economia, com um plano adequado de corte de imposto e poderia ter sido duro com a questão da governança corporativa.

Mas ele escolheu justamente o caminho oposto. Eu culpo o Bush por tudo isso. Houve uma ocasião em que eu estive com ele na Casa Branca, logo no começo de seu governo na primavera de 2001, e o alertei sobre os problemas da economia americana.

Economista diz que Bush poderia ter planejado uma política para tirar o país da recessão

 Eu culpo Bush por tudo isso. Estive com ele na Casa Branca e o alertei sobre os problemas da economia americana. (...) Ele, em tom de piada, disse que nós deveríamos mudar de assunto.

Joseph Stiglitz

Ao invés de perguntar o que poderia ser feito, ele, em tom de piada, disse que nós deveríamos mudar de assunto. Ele não levou a sério a retração da economia americana quando era possível revertê-la e agora, mesmo com a economia dando sinais de recuperação, em função de descasos como esse, os empregos americanos continuam sendo destruídos.

BBC Brasil – O senhor acha que executivos que cometeram crimes, como Ken Lay, ex-CEO da Enron, irão para a cadeia?

Stiglitz – Tenho quase certeza de que não, porque os crimes de colarinho branco nunca são punidos em comparação com crimes menores.

Essas pessoas estavam roubando seus milhões de acionistas, levando centenas de milhões de dólares, como um ladrão que entra na sua casa quando você não está lá e quando você volta, percebe que suas jóias foram roubadas. Esses caras fizeram o mesmo. Eles fizeram o mesmo com as corporações para as quais trabalhavam.

BBC Brasil – O Brasil deve renovar seu acordo com o FMI?

Stiglitz – Parto do princípio de que um mau acordo é pior do que nenhum acordo. Mas o Brasil pode negociar um acordo, paralelo ao da Argentina, em que estabeleça sua própria política econômica. Isso será bom.

Mas se o FMI insistir em metas fiscais e superávits primários excessivamente altos, que inviabilizem a recuperação econômica brasileira, acho que o Brasil não deve assinar.

O Brasil se encontra numa situação de urgente necessidade de estímulo econômico e precisa dar a volta por cima. Mas se um entendimento com o FMI permitir que o Brasil cresça, o melhor é ter um novo acordo, particularmente se houver novos fundos que ajudem a estimular a economia.

Essa é uma lição importante: todo o dinheiro que o FMI emprestou para a Argentina voltou para Washington (na forma de repagamento da dívida). Ele ficou em Washington e não ajudou o povo argentino. O dinheiro em Washington não ajuda necessariamente o povo do Brasil. É preciso saber se este dinheiro vai para o povo do Brasil.

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