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'Evangelho' de Pasolini enfrenta 'Paixão' de Gibson | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Com forte apoio da Igreja Católica, o filme dirigido por Mel Gibson, A Paixão de Cristo, estréia nos cinemas italianos nesta quarta-feira - com censura livre, apesar das cenas violentas. Com uma certa dose de malícia, dois dias depois também entra em cartaz o filme O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini, um dos maiores nomes do cinema italiano. O filme, que estreou em 1964, volta às telas depois de um longo trabalho de restauração e está sendo visto como contraponto à estética de Mel Gibson. "Os excessos de que se nutre A Paixão de Cristo, com toda sua carga de espetacularização, não lhe dão vantagem sobre o filme de Pasolini, que é, disparado, mais profundo e superior", comentou em entrevista à BBC Brasil o critico do jornal La Repubblica e promotor de festivais de cinema, Paolo D’Agostini. Proletário Pasolini, declaradamente ateu, comunista e homossexual, conta a história de Jesus, da anunciação do anjo a Maria até a ressurreição, baseando-se nos relatos de São Mateus. Mostra um Cristo pobre, quase proletário, usando a câmera quase sempre sem tripé. Os personagens são representados por amadores e, ao invés de filmar na Palestina, Pasolini escolheu Matera, uma das regiões mais pobres do sul da Itália, 40 anos antes de Gibson. O filme sofreu também a influência do clima cultural e político da época: o início do diálogo e da aproximação entre as duas principais forças do pós-guerra na Itália - católicos e marxistas. Na época foi acusado de blasfêmia. Trinta anos depois entrou na lista dos melhores filmes do século 20, feita pelo Pontifício Conselho das Comunicações Sociais, um órgão da Igreja Católica. "Eu vi o filme de Pasolini há muitos anos", disse à BBC Brasil o monsenhor John Patrick Foley, o americano presidente do Conselho. "Não achei nele a sensibilidade que encontrei no filme de Mel Gibson. Pasolini usou apenas as palavras do Evangelho segundo Mateus, nada mais." Curiosidade Os italianos estão atraídos pelo sucesso internacional de A Paixão de Cristo, curiosos pela polêmicas e pela violência do filme e influenciados pela campanha favorável da Igreja Católica. A busca por ingressos é tanta que alguns cinemas programaram sessões extras. Paróquias e grupos religiosos, como Opus Dei e Legionários de Cristo, compraram centenas de ingressos para distribuir entre seus seguidores. Foi a Opus Dei que enviou ao papa uma cópia do filme em dezembro de 2003. Eles apostam na capacidade de conversão do filme. "Nós estamos sempre ouvindo falar do sofrimento de Jesus mas não participamos desse sofrimento", disse à BBC Brasil monsenhor Roberto Carrara, secretário da Congregação para o Culto Divino em Roma. "Um cristão que acredita e vê aquele sofrimento na minha impressão é atraído, isso converte e mexe com o coração." Mas é justamente no conteúdo, e não apenas na estética, segundo o crítico Paolo D’Agostini, a diferença principal entre os dois filmes. "A violência no filme de Pasolini exprime a força revolucionária da mensagem cristã. Apesar do diretor não ser católico, foi o testemunho mais eficaz de profundo espiritualismo." "O filme de Gibson se expressa por meio de uma violência muito exterior que me fez pensar nos 'westerns' à italiana de Sergio Leone. Considero gratuito o excesso de entusiasmo dos ambientes católicos tradicionalistas assim como me parece infundado polemizar sobre o antisemitismo." "Não existe nada disso, não há essa densidade de valores no filme. Parece que no final, algo de inevitável torna o olhar hollywoodiano superficial, grosseiro e falso quando trata de coisas que são distantes da história americana", afirmou. |
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