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Mostra traz obras-primas da arte islâmica a Londres | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Depois de um ano de atraso, em virtude da invasão do Iraque, está sendo inaugurada em Londres uma exposição de obras-primas da arte islâmica. Com o título de Heaven on Earth (O Céu na Terra), a mostra reúne 133 objetos raros do Museu Hermitage, de São Petersburgo, e da coleção do acadêmico iraniano radicado em Londres Nasser D. Khalili, considerado o maior colecionador particular de arte islâmica do mundo. Para quem acha que a arte produzida nos países islâmicos se limita a expressões religiosas, a exposição no Centro Cultural Somerset House traz muitas surpresas. Ela inclui não só exemplares do Corão ilustrados manualmente como retratos de cortesãs seminuas que decoravam palácios iranianos do século 19. Influência muçulmana “Ela apresenta dois aspectos”, explica o curador da coleção Khalili, J.M. Rogers, “a arte que glorifica Deus e a arte a serviço dos monarcas, que eram vistos como ‘representantes de Deus na Terra’”. Livros, peças em ouro e prata, pinturas, cerâmica, tecelagem, tapeçaria e jóias cobrem um período que vai do século 8 ao 19. Vários países e regiões de cultura islâmica estão representados – desde a Espanha ao subcontinente indiano, passando pela Pérsia e Ásia Central. “Dificilmente estes objetos serão reunidos novamente”, prevê o curador. “É uma exposição muito cara, e algumas peças são muito frágeis.” Religião e secularismo A primeira galeria mostra a arte "aprovada" pelos teólogos muçulmanos – que consideravam (e, em alguns casos, ainda consideram) a arte figurativa uma blasfêmia contra a transcendência de Alá, que se revelou no Corão. Os versos do Corão aparecem inscritos em inúmeras obras – muitas de uma beleza abstrata --, como nos três azulejos do século 14 ou no painel em seda preta bordado com fios de ouro e prata. O salão seguinte faz um contraponto com objetos de arte figurativa, secular, ilustrando a maneira como a corte dos califas de Bagdá no século 9 banqueteavam com utensílios de ouro e prata; e revelando a maestria dos artistas e artesãos. “Os séculos 9 e 10 foram o apogeu do islamismo, que ia da fronteira com a China ao Norte da África”, diz J.M. Rogers. Luxo total Outra coisa que essas obras do museu Hermitage, de São Petersburgo, ilustram é a importância do papel que o islamismo e a cultura islâmica representaram para a história da Rússia.
O início dessa coleção remonta ao reinado de Pedro, o Grande; foi ampliada graças a saques e presentes diplomáticos da Turquia otomana, da Pérsia e da Índia do século 17; e continua sendo enriquecida por escavações arqueológicas nos territórios que formaram parte do império russo. “O mecanismo básico desta coleção foi o comércio de peles das florestas e estepes siberianas”, conta o curador. “Trocavam-se peles, muito admiradas no Cairo, em Bagdá e Istambul, por ouro, prata e preciosidades.” As pedras preciosas usadas em arte de luxo para a corte não perderam a capacidade de deixar a plebe de queixo caído. Diálogo de culturas O quarto salão Hermitage da Somerset House, em Londres, contém jóias famosas da dinastia Mughal enviadas como presente à princesa (mais tarde imperatriz) Elizabeth da Rússia pelo Xá, depois que ele saqueou Délhi em 1739. É um festival de ouro, pérola, esmeraldas (“da América do Sul, provavelmente Colômbia”), rubis e diamantes. Assim como a cultura islâmica influenciou países ocidentais, o inverso também ocorreu. É o que revelam os quadros na última galeria da exposição, onde a corte persa do final do século 18 e início do 19 aparecem em retratos e outras pinturas adotando vestimentas e costumes ocidentais.
Num momento em que o islamismo é discutido em debates sobre política internacional e tensões religiosas, a exposição que tem como subtítulo Arte de Terras Islâmicas tenta trazer um outro ângulo. “Arte e museus, juntos, organizam um diálogo de culturas”, diz Mikhail Piotrovsky, diretor do museu Hermitage, de São Petersburgo. “Em instituições como o Hermitage, o Museu Britânico, o Louvre, é onde a arte islâmica é colocada junto à arte cristã e à arte judaica para mostrar que não existe uma verdade única e, sim, muitas línguas e culturas diferentes que formam a humanidade.” |
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