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Atualizado às: 15 de setembro, 2003 - 07h48 GMT (04h48 Brasília)
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O que o Ocidente pode aprender com o islamismo

Hamza Yusuf Hanson

Escrevendo no século III, o poeta árabe Mutanabbi descreve como um recipiente da generosidade de outra pessoa vai normalmente responder ou com gratidão ou com ressentimento:

'Uma alma generosa é conquistada quando ela recebe, uma alma vil responde a boas ações com doença‘.

Sua resposta à bondade do outro para com você determina sua natureza.

Se a natureza é boa, você vai responder com gratidão e respeito; se é má, com ressentimento e inveja.

Muitos de nós no Ocidente nos sentimos revolta e ressentimento em relação ao islamismo e aos muçulmanos.

Freqüentemente isso é justificado em nossas mentes pela revolta e ressentimento que os muçulmanos aparentam ter em relação ao Ocidente.

'Abstrações'

Mas o que se passa é muito o que é chamado, com propriedade, de "falácia da personificação", em que se referem a uma coisa abstrata como se ela fosse uma pessoa.

Por exemplo, no mundo muçulmano uma pessoa pode ouvir gritos de "Morte aos Estados Unidos!", mas o que são os Estados Unidos? O que é a Grã-Bretanha?

É impossível definir o conceito de Estados Unidos e Ocidente e apontar para qualquer um deles; eles são abstrações que não têm nenhuma existência real.

Seriam os Estados Unidos, que talvez muitos no mundo muçulmano gostariam de ver mortos, a professora de 63 anos da Flórida que, pouco antes do bombardeio a Bagdá contrariou as leis de seu país embarcou para o Iraque para servir de escudo humano num protesto contra o que os "Estados Unidos" estavam fazendo?

O que são ainda o Islã e os muçulmanos? Existe alguma entidade monolítica para a qual podemos apontar e dizer, "Aqui está!"? Seria esse o Islã de Muhammad Ali, um dos atletas mais amados e reconhecidos do mundo?

Pode nos ser mais conveniente aprender mais sobre essa religião e seus seguidores, especialmente levando em conta o fato de que nós estamos falando sobre a sexta parte da humanidade e um povo que ocupa uma área geográfica que vai da Ásia à África e da Rússia à África do Sul. Isso, sem sequer mencionar que há mais de 30 milhões de muçulmanos vivendo no Ocidente.

Só nos Estados Unidos, por exemplo, há mais de 15 mil médicos muçulmanos.

David Letterman, o humorista americano, pode dizer, em rede nacional de televisão: "Eu fui ao meu médico hoje e ele disse 'volte-se para Meca e comece a tossir'", porque milhões de americanos entenderiam facilmente a piada.

Interdependência

Nosso mundo está cada vez mais interdependente e pluralístico, e para garantir um futuro civilizado nós precisamos nos conhecer uns aos outros.

Uma das formas mais importantes para fazer isso é saber o que nossas diferentes culturas deram à comunidade mundial.

Todos os povos contribuíram para o progresso geral e a melhoria da vida humana.

Para estar ciente das conquistas dos outros e da gratidão que devemos a tanta gente é levar em conta e respeitar todos os membros da família humana.

Numa época em que a inimizade e o ódio estão sendo explorados por interesses pessoais e coletivos, nada é mais importante do que a eliminação de razões para o ódio, e a ignorância sempre foi o solo mais fértil para as sementes do ódio.

No caso do islamismo, isso é particularmente verdade e é importante que nós façamos diminuir o nível de ignorância que existe atualmente no Ocidente para com o islamismo como religião e os muçulmanos como um povo diferente, se nós não vamos prevenir o ódio.

Entendendo o islamismo

O povo ocidental pode melhorar seus conhecimentos sobre o islamismo e os muçulmanos de duas formas.

Primeiro, nós podemos saber mais sobre a inacreditável influência que os muçulmanos tiveram no progresso e melhoria da vida no Ocidente.

Ao fazer isso, nós não vamos apenas valorizar os muçulmanos como pessoas, mas também vamos apreciar outros povos, como o chinês. Os muçulmanos levaram muitas invenções e bens dos chineses para o Ocidente.

A segunda forma como nós podemos fomentar um melhor entendimento é aprender como o islamismo e os muçulmanos podem contribuir para resolver problemas muito reais do presente e do futuro.

O príncipe Charles, por exemplo, disse em um discurso no Centro de Estudos Islâmicos da Universidade de Oxford que o Ocidente precisa aprender do islamismo como integrar a ciência e a religião, uma área em que os muçulmanos historicamente se provaram eficazes.

Há muito que o Ocidente pode aprender da harmonia entre a ciência e a verdadeira religião mencionada com tanta freqüência no próprio Corão.

Obrigações morais

O Ocidente também pode aprender do islamismo como lidar com o problema de raça.

O historiador Arnold Toynbee menciona num ensaio escrito na década de 40 o sucesso extraordinário do islamismo em remediar o problema de raça e declarou que o Ocidente tem muito a aprender com o islamismo.

Ele achou que o risco de uma guerra de raças era iminente no mundo e, ao ver a possibilidade de que essa guerra fosse lançada em terras muçulmanas contra o Ocidente conquistador, sentiu que era importante conciliar o islamismo e admitir o imenso poder que ele teve ao libertar boa parte da população mundial da segregação e exploração ao reconhecer e afirmar a irmandade dos "filhos de Adão e Eva".

O Corão declara: "Nós os fizemos numa pluralidade de raças e tribos para que vocês conheçam uns aos outros".

Se nós refletirmos sobre as animosidades que existem hoje como resultado da ignorância e da estereotipagem de outras pessoas, é fácil reconhecer que "conhecer um ao outro" é uma das obrigações morais mais prementes que desafiam a humanidade hoje.

Martin Luther King disse: "Se nós não vivermos como irmãos, nós vamos morrer como tolos."

A família humana é grande e certamente vale a pena conhecer o ramo muçulmano.


Hamza Yusuf Hanson é um americano convertido ao islamismo. Ele é um ardente defensor de um melhor entendimento entre o mundo islâmico e o Ocidente.

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