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Atualizado às: 28 de janeiro, 2004 - 16h53 GMT (14h53 Brasília)
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Teatro onde Chaplin atuava reabre suas portas

Griff Rhys-Jones
O humorista Griff Rhys-Jones é um dos mentores da reforma do teatro

Londres ganha, a partir desta quarta-feira, 28, um teatro como nenhum outro na capital.

Depois de três anos de reformas, o Hackney Empire rola o tapete vermelho para receber em noite de gala uma platéia de convidados vips – gente como o artista plástico Damien Hirst, o fundador da Amstrad, Alan Sugar, e o dramaturgo Harold Pinter – que com doações ajudaram a tornar possível o sonho de restauração e modernização dessa casa de espetáculos centenária.

Ela nasceu – e renasce – como um teatro de variedades. "O teatro na Grã-Bretanha é burguês demais. Aqui, acabamos com isso", avisa o diretor-artístico do Empire, Roland Muldoon.

Ali, se apresentaram lendas como os humoristas Charles Chaplin e Stan Laurel – este mais conhecido como o Magro, da dupla Gordo e o Magro –, músicos como Liberace e Louis Armstrong, e até o cineasta Orson Welles, que rodou no prédio seu filme cult F for Fake.

Tradição será mantida

A programação para os próximos meses revela que estarão em cartaz desde um festival de música turca a uma montagem da ópera Tosca, de Puccini; da exibição de A Noviça Rebelde em que a platéia canta junto a um concerto de Michael Nyman em comemoração de seus 60 anos; de Mozart a balé africano.

Isso, sem falar nas dezenas de noites dedicadas à nata dos comediantes britânicos.

Esta diversidade tem sido a vocação histórica do Hackney Empire.

 Podemos dizer que somos um dos teatros mais modernos de Londres.

Roland Muldoon, diretor artístico do Hackney Empire

Construído em 1901, numa época em que o teatro era a forma de entretenimento que mais crescia na Grã-Bretanha, o Empire, com seus 1500 lugares, tornou-se um dos mais vibrantes da capital, com atrações variadas que atendiam a todas as camadas sociais.

Luzes da ribalta

Sua fachada reluzia com os nomes das grandes estrelas do Café Concerto.

"Eu nasci perto do Hackney Empire. Ele foi o primeiro teatro que freqüentei, era maravilhoso", recorda o dramaturgo e patrono Harold Pinter.

O West End, a área onde atualmente bate o coração da vida noturna de Londres, não tinha este perfil no início do século 20.

O bairro escolhido para a construção do Empire foi Hackney, na Zona Leste. Mas a região sofreu um declínio vertiginoso no pós-guerra.

"Além da área ter entrado em decadência, a chegada do cinema acabou com os teatros de variedades", conta o diretor artístico Roland Muldoon.

Fim de uma era

O Hackney Empire teve destino semelhante a muitas outras casas na década de 50: virou estúdio de televisão, cinema e, em 1963, bingo.

Como dava prejuízo também como bingo, foi se deteriorando até que os proprietários venderam o prédio para o empresário e diretor artístico Roland Muldoon.

Resgatando a sua vocação, o teatro começou a programar tanto ópera quanto noites de calouros; shows de hip-hop e Hamlet com o ator Ralph Fiennes.

" No que diz respeito ao público freqüentador, nós rompemos uma barreira", diz Muldoon.

Bairro da moda

Recentemenre, o Empire chegou a ser votado pelos leitores da revista Time Out (o principal guia de entrenimento de Londres) como a melhor casa de shows da cidade.

Apesar do sucesso, ainda se deparava com um problemão: o péssimo estado de conservação do prédio.

Charlie Chaplin
Charlie Chaplin também atuou no Empire

Enquanto isso, Hackney foi, aos poucos, entrando na moda – passou a concentrar uma comunidade de artistas plásticos, jovens designers, bares e clubes moderninhos.

Junto com o humorista Griff Rhys-Jones, Roland Muldoon embarcou numa campanha ferrenha para arrecadar os 15 millhões de libras esterlinas (cerca de R$ 75 milhões) necessários para restauração e modernização do Empire.

Jóia arquitetônica

"Agora, podemos dizer que somos um dos teatros mais modernos de Londres", garante Roland Muldoon.

O Empire é uma pérola projetada pelo grande arquiteto de teatros na Grã-Bretanha, Frank Matcham, responsável por cerca de 150 casas de espetáculos no país, entre eles os londrinos Coliseum e o Criterion.

Um dos poucos sobreviventes do período, o Hackney Empire revela o cuidado que Matcham tinha com a acústica e visibilidade.

O interior, em vermelho e dourado, é uma miscelânia de estilos: é inspirado nas casas de ópera italianas, mas também tem detalhes de salões de baile vienenses e influências hindus e islâmicas (elementos decorativos que eram pré-fabricados em massa).

O resultado poderia ser desastroso, mas é curiosamente harmonioso.

Convite ao turista

O Empire, agora, se prepara para expansão. Os proprietários estão erguendo no prédio ao lado um bar e um centro educativo que atenderá mais de 5 mil crianças carentes por ano.

Enquanto não se concluem as obras nesse anexo, os tapumes estão cobertos por um trabalho em neon da badalada artista plástica inglesa Tracey Emin.

O Hackney Empire reabre orgulhoso suas portas com um espetáculo do mímico e palhaço russo Slava e uma programação que é uma verdadeira caverna de Aladim teatral.

Mas como convencer o turista habituado a associar o teatro londrino ao West End a se despencar para um lugar meio contramão, na Zona Leste da cidade? O que Roland Muldoon diria a esse turista imaginário?

"Se você quer se sentir parte da vida em Londres, venha ao Hackney Empire". Sobe o pano.

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