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Inquérito sobre morte de David Kelly vira peça em Londres
Chegou aos palcos de Londres um dos mais recentes dramas da política britânica, o inquérito Hutton. A peça de teatro Justifying War (Justificando a Guerra, em tradução literal) trata da investigação sobre as circunstâncias da morte do especialista em armas do governo britânico David Kelly, que aparentemente se matou em julho deste ano. Richard Norton-Taylor, editor de assuntos de segurança do jornal britânico The Guardian, é o responsável pela transposição para o palco do inquérito, cujos últimos depoimentos ocorreram em setembro. Norton-Taylor selecionou e editou trechos do inquérito Hutton, adaptando-os para o teatro. O juiz Brian Hutton, que presidiu o inquérito, ainda não divulgou as suas conclusões. Dossiê Especialista em controle de armas, Kelly trabalhou como inspetor no Iraque de 1991 a 1998. Ele era a fonte da reportagem de Andrew Gilligan, jornalista da BBC que afirmou que o governo havia "maquiado" um dossiê sobre o programa de armas do Iraque antes da guerra, para convencer os britânicos da necessidade de atacar o país. Kelly não era identificado na reportagem, mas o nome do cientista acabou se tornando público em meio a uma polêmica entre a BBC e o governo. No inquérito Hutton, as circunstâncias em que Kelly foi identificado foram tema de várias perguntas feitas aos representantes do Ministério da Defesa e da equipe de Comunicação do gabinete do primeiro-ministro Tony Blair. Um dos pontos mais controversos do dossiê foi a alegação de que o Iraque poderia mobilizar armas de destruição em massa em apenas 45 minutos depois de tomada a decisão pelo regime de Saddam Hussein. Segundo a polícia, Kelly cometeu suicídio dias após ter deposto perante uma Comissão Parlamentar de Inquérito que avaliava se o governo havia exagerado ou não em trechos do dossiê. Kelly foi convocado como testemunha depois que seu nome vazou para a imprensa britânica. 'Objetividade' Norton-Taylor disse que tentou ser objetivo ao fazer a edição dos depoimentos. "Queria evitar que a peça se transformasse num manifesto antiguerra. Ao fazer isso, acho que a peça apresenta um interesse mais amplo." O inquérito ouviu 75 testemunhas ao longo de 25 dias. A peça contém parte das informações coletadas junto a 12 dessas testemunhas. Entre elas, a mulher do especialista em armas, Janice; Alastair Campbell, então diretor do gabinete de Comunicação do primeiro-ministro Tony Blair; o secretário de Defesa, Geoff Hoon; e o presidente do Conselho Administrativo da BBC, Gavyn Davies. Norton-Taylor disse que não incluiu o depoimento do primeiro-ministro britânico porque a contribuição de Blair "não foi muito esclarecedora". O jornalista do Guardian disse ainda que a dramatização do depoimento de Blair poderia se tornar caricatural, tirando a atenção dos outros personagens. O testemunho de Blair foi o ponto alto do inquérito, não só pelo impacto causado pela presença do primeiro-ministro no tribunal, mas também porque a credibilidade do seu governo também estava em xeque. Inquéritos célebres Justifying War não é a primeira peça em cartaz no mesmo teatro, o Tricycle, sobre casos de tribunal, como os depoimentos sobre o massacre de Srebrenica (Bósnia). O próprio Norton-Taylor editou trechos dos julgamentos de Nurembergue (nazistas). Há dez anos, o Tricycle apresentou ainda a peça Half the Picture (Metade do Quadro, em tradução literal), baseada no inquérito que investigou as vendas de armas da Grã-Bretanha para o Iraque. O advogado Jonathan Davies elogiou a peça e disse que a representação de trechos do inquérito, que não foi transmitido pelas redes de TV britânicas, fez com que a história ganhasse vida. "Estamos, no entanto, num momento curioso, já que nada é novo, pois lemos tudo nos jornais, e ainda não sabemos o que lorde Hutton vai dizer (no seu relatório). Por isso, esse é o melhor momento para que dramaturgos tomem o melhor proveito da história e aproveitem para atrair o público." Apesar de o conteúdo do inquérito já ser conhecido, o aposentado Ross Anderson disse que isso não tira o interesse da peça. "Porque algum tempo já se passou, é interessante ouvir parte do que se passou de novo." "Muito sucinto e revelador e faz a gente pensar, mas não responde a muito mais perguntas do que as que já foram respondidas. Mas a peça cumpriu o seu papel, e o tempo passou rápido, levando em consideração o tema difícil", disse a estudante Liz Churnell. A peça fica em cartaz até o dia 29 de novembro. |
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