Incêndios no Pantanal: as extraordinárias imagens dos animais queimados tratados com pele de tilápia

Crédito, Felipe Rocha/Divulgação
- Author, Juliana Gragnani - @julianagragnani
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
- Tempo de leitura: 5 min
Esta reportagem tem imagens de animais feridos que podem ser incômodas para algumas pessoas.
Parece uma cena futurista: um tamanduá-bandeira, com seus grossos pelos marrons, estende as patas estampadas com... pele de tilápia.
O híbrido, no entanto, é de 2020. No ano em que o Pantanal ardeu em chamas e teve diversos de seus animais feridos e queimados, pesquisadores e veterinários se uniram para ajudar esses bichos por meio de uma técnica inovadora e totalmente brasileira. O bioma brasileiro rico em biodiversidade teve 27% do seu território consumido pelo fogo até 11 de outubro deste ano, segundo dados do Lasa-UFRJ (Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro), e essas queimadas são consideradas as piores em décadas.
Até agora, um filhote de veado-catingueiro, duas antas adultas, uma anta filhote, um tamanduá-bandeira adulto e uma cobra sucuri já receberam a pele de tilápia. E um tuiuiú, a ave-símbolo do Pantanal, está na fila para o tratamento.

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A técnica, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e do Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ), funciona assim: os pesquisadores recebem peles do peixe de água doce - que normalmente são descartadas pela indústria - de uma piscicultura. As peles são então desidratadas e esterilizadas, e ficam armazenadas em temperatura ambiente.
Depois, são aplicadas em pessoas ou animais com ferimentos de queimadura, funcionando como um curativo para a região queimada e ajudando sua cicatrização.

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"A pele da tilápia tem uma camada muito grande de colágeno, que é importante no processo de cicatrização da queimadura", explica o biólogo Felipe Rocha, coordenador da Missão Ajuda Pantanal e pesquisador do projeto Pele de Tilápia.

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Rocha viajou a Cuiabá, capital matogrossense, ao lado da veterinária Behatriz Odebrecht e do enfermeiro Silva Júnior, especialista em manejo e aplicação do curativo de pele de tilápia - todos do projeto Pele de Tilápia.
Quando viram as trágicas imagens de animais afetados pelo fogo no Pantanal, os pesquisadores da UFC entraram em contato com a ONG Ampara, que dá apoio à operação de resgate e reabilitação dos animais no Pantanal.

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A ONG aceitou a ajuda, e colocou o grupo em contato com o Hospital Veterinário da Universidade Federal do Mato Grosso, em Cuiabá, onde a aplicação das peles de tilápia seria feita. Ali, o pessoal do Ceará começou a treinar, nesta semana, a equipe do Mato Grosso, explicando como se faz a aplicação do produto na pele dos bichos.

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O grupo levou 130 curativos biológicos da pele de tilápia, o que, segundo seus cálculos, deve servir para cerca de 40 animais feridos.
No Brasil, é a primeira vez que essa técnica é usada em animais silvestres. O grupo da UFC já havia testado a pele em cavalos. Também ensinou veterinários da Universidade Davis, na Califórnia, a aplicar a pele em ursos que foram machucados nos incêndios de 2018 no Estado americano.

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Tratamento dos animais
A imagem futurista do tamanduá-tilápia é passageira. Logo, a parte clara, que é o colágeno, ficará incorporado na ferida. A parte escura descascará, como se fosse a casca de uma ferida, explica Rocha. E a pele do tamanduá e dos outros animais voltará a ter sua aparência original.
O pesquisador explica como é feito o tratamento: "Você limpa a ferida, coloca a pele de tilápia e fecha com gaze e atadura por cima. A pele da tilápia adere à queimadura e deve ficar em contato de 10 a 15 dias na pele do animal sem troca curativa", diz.

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O processo convencional seria aplicar pomada de sulfadiazina de prata, que um cicatrizante tópico na terapia de queimaduras, com trocas diárias de curativo. É preciso sedar os animais selvagens toda vez para fazer isso.
"Se a cicatrização do animal demora de 15 a 20 dias, você tem que fazer 15 a 20 curativos durante todo o processo. Com a pele de tilápia, você reduz o custo de fazer essas trocas diárias, reduz a dor do animal e reduz a carga de trabalho da equipe", diz Rocha.
Além disso, destaca ele, o animal ou a pessoa queimada perde muito líquido com a queimadura. A pele da tilápia barra esse processo. Sua parte escura é como se fosse uma película impermeável que impede a perda de líquido. E ainda cria uma barreira para que microorganismos não proliferem na ferida.

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Com isso, a cicatrização acelera porque não se manipula tanto a ferida - além da grande ajuda do colágeno. Para Rocha, é "emocionante" ver os animais se recuperando.
O grupo começou a aplicação das peles de tilápia nos animais na terça-feira (06/10). O primeiro animal a receber os curativos foi um filhote de veado-catingueiro. Suas quatro patas estavam queimadas, e os curativos foram colocados ali.
Depois, foi a vez de duas antas grandes adultas e uma anta filhote. Uma das antas, diz Rocha, estava muito mal, sem se alimentar, apática, sem ir para a água. Sua parte traseira estava bastante afetada. "Aplicamos nessa anta, e no outro dia ela estava dentro da água. Depois saiu correndo e foi para a água de novo. Não vimos o processo de cicatrização, mas vimos que o animal já reagiu em termos de comportamento", conta. "A pele de tilápia diminui a dor do paciente."

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Depois, um tamanduá-bandeira recebeu a pele de tilápia em suas patas.
"Nas quatro patas do veado-catingueira, não usamos nem meia pele de tilápia", diz Rocha. Já em uma das antas, que tinham uma lesão grande, foram usadas 15 peles.

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A cobra sucuri, que recebeu a pele de tilápia , estava bastante queimada, diz ele, com exposição muscular, e por isso a aplicação foi um grande desafio. "Mas acreditamos que vai funcionar." No tuiuiú, é a asa que está queimada.

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Para Rocha, ajudar os animais que estão sofrendo "é uma enorme satisfação". "Ficamos felizes e emocionados por ajudar nesse momento triste do país", afirma.
O Pantanal vive a pior seca dos últimos 60 anos, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o principal fator para os incêndios em níveis alarmantes neste ano. Além disso, analistas dizem que parte do fogo é causada também por ação humana. E entidades ambientais criticam o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) e os governos estaduais pela demora em agir para controlar o fogo. Em discurso na ONU, o presidente disse que o fogo no Pantanal foi provocado pela temperatura alta em 2020 e pelo "acúmulo de massa orgânica em decomposição".

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