'Cada dia parece um mês': iranianos descrevem rotina sob constante bombardeio dos EUA e de Israel

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- Author, Faren Taghizadeh
- Role, BBC Persian
- Tempo de leitura: 7 min
"O número de explosões, a destruição, o que está acontecendo... é inacreditável", diz Salar, cujo nome foi alterado por questões de segurança.
A capital do Irã, Teerã, está sob forte ataque desde que os bombardeios começaram no sábado (28/2), enquanto Estados Unidos e Israel miram instalações militares e ligadas ao poder político em uma tentativa de enfraquecer o regime islâmico.
Apesar de os alvos serem inicialmente dessa natureza, outras áreas foram atingidas como consequência dos ataques. Autoridades iranianas afirmaram que mais de 160 pessoas, incluindo crianças, morreram quando uma escola para meninas foi atingida na cidade de Minab no sábado. A Casa Branca afirma que os EUA investigam o incidente, mas dizem que não têm civis como alvo.
"O que estamos vivendo agora vai além do que vivemos durante a Guerra de 12 Dias", disse um morador de Teerã à BBC News Persa, se referindo ao conflito entre Israel e Irã em junho de 2025.
Enquanto alguns iranianos dizem que os ataques em curso os deixaram temendo por suas famílias, outros descrevem o regime iraniano como temeroso e expressam esperança para o futuro do país.
A primeira onda de ataques matou o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, mas desde então os ataques aéreos mostraram poucos sinais de que vão diminuir.
"Cada dia pareceu um mês", conta Salar. "O volume de ataques é tão alto."
Segundo ele, um ataque aéreo recente fez toda a sua casa tremer e descreveu ter precisado deixar as janelas abertas para que o vidro não se quebrasse.
Organizações internacionais de notícias frequentemente têm vistos negados para entrar no Irã, o que limita severamente sua capacidade de reunir informações sobre o que está acontecendo dentro do país. Apagões no acesso à internet tornam a situação ainda mais difícil.

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A maioria das pessoas tem ficado em casa e sai apenas para buscar suprimentos. O regime iraniano parece ter aumentado a sua presença de segurança nas ruas, o que os iranianos veem como uma resposta à dissidência demonstrada após a morte do aiatolá.
"Há postos de controle por todos os lados. Eles estão com medo da própria sombra", diz um estudante de 25 anos em Teerã. "Estamos esperando o grande momento, o momento final, quando todos sairemos e seremos vitoriosos."
O preço de itens básicos como ovos e batatas também disparou, disse ele, e as filas por gasolina e pão "são inacreditáveis".
Uma moradora da capital disse à BBC que a maioria das lojas está fechada e alguns caixas eletrônicos estão fora de serviço, embora supermercados e padarias permaneçam abertos.
Teerã parece "vazia" e qualquer pessoa que saia de casa precisa ter um "motivo urgente", diz ela. "No primeiro dia, as pessoas estavam cantando palavras de ordem e todos pareciam felizes. Mas agora há forças policiais por todos os lados."
Salar descreveu ameaças das forças de segurança contra quem critica o regime do país.
Embora seja difícil obter acesso a informações independentes, Salar diz que as forças de segurança iranianas têm deixado suas exigências claras.
"Todos os dias eles enviam mensagens de texto alertando que, se sairmos de casa, vão nos tratar com dureza", diz. "Uma mensagem dizia que, 'se algum de vocês sair e protestar, nós consideraremos vocês colaboradores de Israel'."
Ele acredita que o tom da mensagem sugeria que qualquer pessoa que desobedecesse seria tratada com uso de força, ou até morta.

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A BBC News Persa também falou com Kaveh, que também teve o nome alterado por questões de segurança. Ele vive em Zanjan, uma cidade a cerca de 275 km a nordeste de Teerã, que também foi alvo de ataques.
"Nos três primeiros dias, nossa cidade foi fortemente bombardeada", diz. "Vivemos em uma área onde caças passam constantemente sobre as nossas cabeças."
Ele acrescenta que, após o início da guerra, o céu ficou constantemente encoberto pelas colunas de fumaça que se elevavam dos locais dos ataques aéreos — uma imagem que descreve como "simultaneamente bela e aterrorizante".
Salar diz que enviou seus pais para o norte do país, embora não exista certeza de quais cidades estariam seguras. A casa deles fica no bairro de Shariati, em Teerã, onde muitas instalações militares foram alvo de ataques.
"Minha mãe estava em péssimo estado, ela estava muito assustada", conta, acrescentando que os ataques atuais são piores do que qualquer coisa que ela tenha vivido durante a guerra entre Irã e Iraque, que durou oito anos, na década de 1980.
Mais pessoas continuam deixando Teerã a cada dia que passa, acrescenta ele, mas isso não é uma opção para todos. "A avó de um amigo meu está doente e eles não podem levá-la."
Os apagões de acesso à internet também tornaram extremamente difícil para os iranianos entrar em contato com seus familiares.
Kaveh explica que, além da sobrevivência, as suas maiores preocupações têm sido tentar manter algum contato com familiares e amigos e obter acesso a notícias confiáveis.
Ele diz que sua conexão com a internet foi interrompida por volta do meio-dia no primeiro dia dos ataques e que passou dois dias sem conseguir voltar a ficar online.
Tanto Kaveh quanto Salar estão usando VPNs, redes privadas virtuais que permitem "enganar" os controles do governo ao ocultar o local de onde a pessoa faz o acesso. O uso de VPNs permite acessar sites bloqueados pelo governo iraniano, mas essa não é uma tarefa fácil.
Quando ele consegue se conectar, Kaveh tenta ajudar "amigos fora do Irã que não têm notícias de suas famílias, a obter atualizações ou repassar mensagens".

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Devido à rígida situação de segurança no Irã, não é possível medir a reação geral à morte do líder supremo.
Enquanto alguns foram às ruas para comemorar, outros participaram de manifestações públicas de luto lideradas por autoridades do governo.
Kaveh disse que, no início, teve dificuldade em acreditar na notícia da morte de Khamenei. "Eu sempre imaginei que esse momento traria felicidade, mas não trouxe", diz.
"Quase todos os anos da minha vida e das vidas de milhões de pessoas como eu foram destruídos e milhares perderam a vida e, ainda assim, ele próprio foi retirado de cena em um único momento, [o que] me deixou realmente com raiva."
Salar diz que não esperava as comemorações nas ruas após a notícia da morte do líder supremo. "A atmosfera da cidade depois do ataque era de segurança reforçada. E ainda é."
Nenhum dos dois homens sabe o que a guerra significará para eles, suas famílias ou seu país.
"Duvido que qualquer um de nós volte a ser o mesmo de antes", diz Salar, acrescentando que muitas pessoas estão sob forte estresse.
"Aqueles que estão no exterior, especialmente os monarquistas", afirma ele, se referindo aos apoiadores do filho da antiga família real do Irã que apoiaram a ação militar dos EUA e de Israel — "realmente não sabem o que estamos vivendo".
E acrescenta: "Espero que nunca tenham de passar por isso."
Kaveh diz que sente que a guerra "não vai terminar tão rapidamente quanto pensamos". "Mas, mesmo assim, minha esperança não diminuiu. Pelo contrário, fica mais forte a cada dia."
"Não sei o que vai acontecer depois dessa 'operação'", diz, mas acrescenta que, sem ela, "algo pior certamente teria acontecido".
"Assim, pelo menos ainda há uma chance para a vida e para o amanhã."
Reportagem adicional de Alex Boyd, Ghoncheh Habibiazad, Caroline Hawley e Tom McArthur


























