O que descoberta de taverna de 5 mil anos revelou

Escavação de sítio arqueológico no Iraque, 2022

Crédito, Lagash Archaeological Project

Legenda da foto, A taverna foi descoberta na antiga cidade de Lagash, no atual Iraque
    • Author, Petra Zivic
    • Role, Journalista da BBC

A apenas meio metro abaixo do solo, arqueólogos encontraram os restos de uma taverna que se acredita datar de 2.700 a.C.

O espaço público foi encontrado na antiga cidade de Lagash, no atual Iraque.

"Consistia de uma grande área comum que provavelmente era o lugar onde a comida era consumida", diz Sara Pizzimenti, da Universidade de Pisa, na Itália, à BBC.

Ela é uma das pesquisadoras que vem estudando a cidade antiga há cinco anos como parte do Projeto Arqueológico de Lagash.

Lagash foi uma das maiores e mais antigas cidades do sul da Mesopotâmia e um dos primeiros centros urbanos do mundo.

Fazia parte da civilização suméria, formada por uma série de cidades-estado às margens dos rios Tigre e Eufrates, que durou do final do Período Neolítico até o início da Idade do Bronze.

Bancos, um forno e uma geladeira de 5 mil anos

Refrigerador de pote de barro

Crédito, Lagash Archaeological Project

Legenda da foto, Um dispositivo de resfriamento foi encontrado no local

Por meio de novas técnicas, como imagens de drones e análises de magnetometria — método que permite aos arqueólogos "ver" o solo sem escavar —, a equipe conseguiu cavar com mais precisão.

Ao chegarem à taverna, eles descobriram bancos, uma espécie de geladeira de barro, um forno e restos de recipientes para armazenar alimentos, muitos dos quais ainda continham comida.

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"Graças ao tipo de cerâmica encontrada no local e à arte glíptica (de talhar ou gravar em pedras preciosas), não há dúvida de que a taverna tenha quase 5 mil anos", diz Holly Pittman, diretora do projeto, à BBC.

Mas como um dispositivo de resfriamento funcionava sem eletricidade?

Um refrigerador de pote de barro depende da evaporação — e consiste de dois potes de tamanhos diferentes (um dentro do outro).

O pote externo, forrado com areia molhada, continha um pote interno, que era esmaltado para evitar a entrada de líquido — e a comida era colocada nele. A evaporação do líquido externo extraía o calor do pote interno. Qualquer coisa podia ser resfriada nesses potes.

Localizada às margens do Rio Tigre, ao norte de onde ele encontra o Eufrates, Lagash foi um movimentado centro comercial durante o início do Período Dinástico, que durou de 3.200 a 2.900 a.C., quando foram fundadas algumas das primeiras cidades do mundo.

"Estamos tentando entender como esta cidade se desenvolveu do sítio arqueológico menor que caracterizava a área em períodos anteriores para uma rede muito maior e muito mais integrada", diz o arqueólogo Reed Goodman, da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, à BBC.

Sobras de comida de 5 mil anos

Arqueólogos desenterrando tigelas de comida

Crédito, Lagash Archaeological Project

Legenda da foto, Os arqueólogos desenterraram 100 tigelas contendo restos de comida

Próximo ao forno e à geladeira de barro, os arqueólogos encontraram outro cômodo com tigelas de comida, frascos e potes.

E não estavam vazios.

“Encontramos mais de 100 tigelas com restos de comida, o que nos faz acreditar que este era um lugar em que as pessoas da época passavam e pegavam algo para comer ou beber”, diz Pizzimenti.

O local não poderia ser uma cozinha doméstica, segundo ela, "pela quantidade enorme de comida que era preparada".

Os vestígios de comida revelam que a taverna servia peixe aos clientes que a visitavam há 5 mil anos.

“Dentro de cada um desses recipientes encontramos uma quantidade enorme de espinhas de peixes, muito bem preservadas”, conta Pittman.

O que intriga os arqueólogos é por que a comida não foi consumida.

"Todas as coisas que encontramos foram simplesmente deixadas lá, então algo provavelmente aconteceu, mas não sabemos o quê — e isso é algo que queremos descobrir", afirma Pizzimenti.

Falta uma peça do quebra-cabeça

Vista panorâmica do sítio arqueológico

Crédito, Lagash Archaeological Project

Legenda da foto, Vista panorâmica do sítio arqueológico

Eles também querem descobrir quem eram os visitantes da taverna e qual era seu status social.

Escavações anteriores no sítio arqueológico revelaram que a cidade de Lagash abrigava três complexos de templos, onde as classes altas viviam.

Mas os arqueólogos acham que a taverna não estava localizada em uma área nobre da cidade.

"A vizinhança onde a taverna foi encontrada não parece ser uma área nobre. Parece que era um lugar frequentado por pessoas comuns", diz Pizzimenti.

Eles acreditam que a taverna era um lugar em que as pessoas que trabalhavam fora de casa podiam fazer suas refeições diárias.

"O que precisamos descobrir é se essas pessoas trabalhavam na produção de cerâmica", afirma Pittman.

A equipe está ansiosa para descobrir mais sobre a vida das pessoas comuns em Lagash.

"Esperamos fornecer um bom contraponto a esse tipo de narrativa que há muito tempo defende esses lugares como espaços apenas para ricos e pobres, com muito pouca diversidade no meio", diz Goodman.