Câmara decide cassar mandatos de Eduardo Bolsonaro e Alexandre Ramagem: o que pesa contra eles?

Eduardo Bolsonaro

Crédito, REUTERS/Jessica Koscielniak

Legenda da foto, Filho do ex-presidente, que está nos Estados Unidos desde fevereiro, perdeu cargo por faltas
Tempo de leitura: 5 min

A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados decidiu nesta quinta-feira (18/12) cassar os mandatos dos deputados federais Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ).

A medida foi tomada por maioria dos integrantes do colegiado, incluindo Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Casa — que já havia indicado pretender resolver a situação dos dois deputados antes do recesso parlamentar, que começa nessa sexta (19).

Eduardo, que está nos EUA desde fevereiro, foi cassado por excesso de faltas às sessões da Câmara neste ano. Ele se ausentou de 63 das 78 sessões deliberativas.

A decisão foi assinada por Motta e outros quatro membros da Mesa. O prazo para apresentação da defesa de Eduardo se encerrou na quarta-feira (17/12).

Na rede social X, Eduardo Bolsonaro postou um vídeo nesta quinta-feira agradecendo aos seus eleitores e afirmando que "ainda haverá muitos capítulos dessa linda história que a gente escreve juntos".

"Acabaram de cassar o meu mandato, não por corrupção, por ter encontrado dinheiro na minha cueca ou por envolvimento com tráfico de drogas. Aliás, muito pelo contrário. Cassaram o meu mandato por eu fazer exatamente aquilo que os meus eleitores esperam de mim", afirmou o filho de Jair Bolsonaro no vídeo.

O agora ex-deputado afirmou que sua ida aos EUA "valeu a pena" por ter conseguido levar "consequências reais" para supostos "ditadores" — em uma aparente referência a autoridades brasileiras que foram punidas por decisões variadas do governo de Donald Trump, embora recentemente tenha havido recuos por parte da Casa Branca (leia mais abaixo).

O mandato de Ramagem também foi cassado, com a perspectiva de que ele também terá excesso de faltas no ano que vem, segundo informou o site da Câmara dos Deputados.

Ex-delegado da Polícia Federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Ramagem foi condenado pelo STF, que determinou a perda do cargo e a pena de 16 anos e um mês de prisão por participação em tentativa de golpe de Estado.

Ele também está nos Estados Unidos, para onde fugiu em setembro — mesmo mês em que a ação penal que o condenou foi julgada.

Segundo o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, o deputado saiu do Brasil de forma clandestina, pela fronteira com a Guiana, e usou passaporte diplomático para entrar nos EUA.

Em novembro, o ministro do STF Alexandre de Moraes decretou a prisão preventiva de Ramagem. Na segunda-feira (15/12), o magistrado pediu aos EUA a extradição dele.

Ramagem de perfil, sorrindo

Crédito, NurPhoto via Getty Images

Legenda da foto, Deputado federal e ex-diretor da Abin saiu do Brasil em setembro de forma clandestina, segundo diretor da PF
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Já Eduardo decidiu se licenciar do cargo parlamentar em março, alegando sofrer perseguição política e jurídica no Brasil.

Ele tentou exercer o mandato à distância e buscou alternativas para evitar o registro de ausências, mas as iniciativas foram rejeitadas pela Câmara.

Em novembro, a Primeira Turma do STF decidiu tornar Eduardo Bolsonaro réu pela acusação de coação no curso do processo — quando alguém tenta intimidar, pressionar ou interferir em investigações ou ações judiciais.

A decisão do STF acatou uma denúncia feita pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

O procurador-geral Paulo Gonet solicitou que o deputado, um dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), fosse investigado por sua atuação nos Estados Unidos contra autoridades brasileiras.

Na denúncia, a PGR disse que, desde o início do ano, Eduardo afirma publicamente que está á se dedicando a conseguir do governo dos Estados Unidos a imposição de sanções contra integrantes do Supremo, da PGR e da Polícia Federal, "pelo que considera ser uma perseguição política a si mesmo e a seu pai".

Segundo a PGR, essas manifestações do deputado licenciado se tornaram mais intensas à medida que avançavam as investigações sobre a acusação de uma tentativa de golpe por parte de Jair Bolsonaro e aliados.

"Há um manifesto tom intimidatório para os que atuam como agentes públicos", diz o documento assinado por Gonet.

A denúncia da PGR mencionou postagens de Eduardo Bolsonaro com as ameaças às autoridades brasileiras e as declarações do governo americano em concordância com o deputado do PL-SP.

Em julho, alegando que Jair Bolsonaro estaria sofrendo uma "caça às bruxas" na Justiça brasileira, o presidente americano Donald Trump anunciou mais tarifas contra o Brasil, elevando a taxa de importação a 50%.

Além disso, naquele mês, Alexandre de Moraes teve seu visto revogado e foi submetido à Lei Magnitsky, uma das mais severas disponíveis para Washington punir estrangeiros que considera autores de graves violações de direitos humanos e práticas de corrupção.

Na época, essas medidas foram atribuídas em parte à atuação de Eduardo Bolsonaro nos EUA.

Mas, a partir do fim de setembro, a relação Brasil-EUA começou a desescalar após um breve encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Trump na ONU e uma reunião entre os dois na Malásia.

Desde então, várias tarifas contra o Brasil foram retiradas, assim como nome de Moraes na lista da Magnitsky.

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, lamentou nesta quinta-feira a decisão da Mesa Diretora — que classificou como "grave" — de cassar os mandatos de Ramagem e Eduardo Bolsonaro.

"É uma decisão política que retira do plenário o direito de deliberar e transforma a Mesa em instrumento de validação automática de pressões externas", escreveu Sóstenes Cavalcante em suas redes sociais.

"Milhões de brasileiros que confiaram seus votos a Eduardo Bolsonaro e ao Delegado Ramagem ficam, hoje, sem representação."

O deputado José Olimpio (PL-SP) assumirá a vaga de Eduardo Bolsonaro, enquanto Dr. Flávio (PL-RJ) ocupará a vaga de Ramagem.