A reação dos bolsonaristas à aproximação entre Trump e Lula: 'Confiamos na anistia'

Eduardo Bolsonaro

Crédito, Jessica Koscielniak/Reuters

Legenda da foto, Eduardo Bolsonaro enxergou a promessa de Trump como uma estratégia que mostraria a 'genialidade' do presidente americano como negociador
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    • Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
  • Tempo de leitura: 5 min

"Firmeza estratégica combinada com inteligência política."

Foi assim que bolsonaristas repercutiram o possível encontro de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na próxima semana.

Em seu discurso na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (23/9), Trump afirmou que o presidente brasileiro é "um cara legal" e disse que ambos os mandatários devem se encontrar na semana que vem.

"Nós o vimos, eu o vi. Ele me viu e nos abraçamos. E então eu disse: 'Você acredita que vou falar em apenas dois minutos?' Na verdade, combinamos de nos encontrar na semana que vem. Não tivemos muito tempo para conversar, uns vinte segundos e pouco, pensando bem", afirmou Trump.

O breve encontro entre os dois presidentes foi confirmado pela assessoria de Lula em seguida.

Segundo a BBC News Brasil apurou com uma fonte do governo brasileiro, Trump assistiu ao discurso de Lula pelo telão, e, após a fala de Lula, os dois se encontraram, se cumprimentaram e conversaram brevemente.

Apesar do otimismo expressado pelos governistas após a situação, analistas historicamente veem com cautela os movimentos do líder americano, lembrando que suas táticas de negociação não raramente têm resultados "exóticos".

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está vivendo nos Estados Unidos, enxergou a promessa de Trump como uma estratégia que mostraria a "genialidade" do presidente americano como negociador.

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"Nada do que aconteceu foi surpresa. Ele fez exatamente o que sempre praticou: elevou a tensão, aplicou pressão e, em seguida, reposicionou-se com ainda mais força à mesa de negociações", publicou no X.

"Ontem mesmo, sancionou a esposa do maior violador de direitos humanos da história do Brasil, um recado claro e direto", disse Eduardo em referência à mulher de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na segunda-feira (22/09), o Departamento de Estado americano anunciou que a advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, seria punida pela Lei Magnitsky.

Moraes, relator da ação penal que condenou por golpe de Estado e outros crimes o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — alinhado ideologicamente a Trump —, já havia sido submetido à Magnitsky no fim do julho.

A aplicação dessa lei é umas das punições mais severas disponíveis contra estrangeiros considerados pelos EUA autores de graves violações de direitos humanos e práticas de corrupção.

"Depois disso, [Trump] sorriu e mostra-se aberto a dialogar em uma posição infinitamente mais confortável, fiel àquilo que sempre defendeu: os interesses dos americanos em primeiro lugar. É a marca registrada de Trump: firmeza estratégica combinada com inteligência política", continuou Eduardo.

Também nesta segunda, a Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou nesta o deputado federal por coação no curso de processo, por ter articulado sanções contra o país e autoridades brasileiras, numa tentativa de influenciar o resultado do julgamento de Jair Bolsonaro por golpe de Estado.

"Ao final Trump ainda arrebatou que sem os EUA o Brasil vai mal. Ou seja, não há para onde correr, o Brasil precisa dos EUA, reconheça isto ou não. Entende porque confiamos na anistia ampla, geral e irrestrita?", questionou o deputado.

Trump na Assembleia Geral da ONU

Crédito, REUTERS/Al Drago

Conselho de Ética abre investigação sobre Eduardo

Nesta terça-feira, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), barrou a indicação feita pelo PL para que Eduardo fosse o líder da minoria na Casa.

O partido fez o pedido porque o cargo não exige comparecimento à Câmara para as sessões. Com a decisão de Motta, as faltas de Eduardo, fora do país desde fevereiro deste ano, seguem sendo computadas, e ele pode perder o mandato.

Um parlamentar não pode ter mais do que um terço de ausências não justificadas em sessões deliberativas. Até julho, Eduardo estava afastado do mandato por conta de uma licença, que trava a contagem de faltas.

"A ausência de comunicação prévia sobre o afastamento do território nacional, como ocorre no caso em análise, constitui, por si só, uma violação ao dever funcional do parlamentar", diz o parecer de Motta.

"Mais do que isso, essa omissão impede que a ausência à Casa seja enquadrada em qualquer hipótese de excepcionalidade que autorize o registro de presença à distância. Um afastamento não comunicado à Presidência da Câmara não pode, sob nenhuma ótica, ser considerado uma missão autorizada, pois lhe faltam os elementos essenciais de autorização, formalidade e ciência oficial."

Além da decisão de Motta, o Conselho de Ética da Câmara decidiu também hoje abrir um processo para averiguar uma acusação de que Eduardo Bolsonaro estaria agindo de forma incompatível com o decoro parlamentar com sua atuação nos EUA.

O empresário e influenciador Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo e neto do ex-ditador João Batista Figueiredo, também chamou Trump de "gênio" e ressaltou o discurso de que Trump usa o encontro como arma de negociação. Ele também foi denunciado pela PGR.

"Deixou o presidente brasileiro numa situação impossível: ter que ir para a mesa de negociação ouvir verdades e negociar algo que não tem como cumprir. Entenderam que a anistia será ampla, geral e irrestrita?", compartilhou no X com texto semelhante ao de Eduardo Bolsonaro.

No domingo (21/9), manifestações em diversas capitais brasileiras ocorreram contra o perdão dos envolvidos na tentativa de golpe de Estado e a PEC da Blindagem.

Já o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ), também filho do ex-presidente, disse que Trump expôs em seu discurso "uma verdadeira lição de soberania nacional".