Os apoiadores de Maduro que foram às ruas contra sua captura pelos EUA: 'Nosso presidente foi traído'

Mulher com uma bandeira vermelha na mão olha para a câmera e aponta o dedo.
Legenda da foto, 'Trump, está com você: entregue o nosso presidente, Nicolás Maduro', diz, efusiva, Gelen Correa, uma chavista
    • Author, Nicole Kolster
    • Role, Da BBC News Mundo em Caracas
  • Tempo de leitura: 6 min

"Uma coisa é chamar o diabo e outra é vê-lo chegar. Quando vimos aquelas explosões e tudo aquilo, uau! Foi algo muito surpreendente", diz uma mulher que pede para não ser identificada.

Caracas ainda vive uma enorme comoção após a operação militar dos Estados Unidos que levou à captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e à sua transferência para Nova York, onde será julgado por acusações de narcotráfico, entre outras.

A mulher conversa com a reportagem da BBC News Mundo (serviço de ntícias em espanhol da BBC) enquanto homens vestidos inteiramente de preto e portando armas longas circulam pelo local. Eles vão e vêm.

Essa é a cena no centro de Caracas, onde, no domingo (4/1), houve uma "marcha pela libertação" de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que foi detida na mesma operação.

Não havia uma multidão. Foi uma concentração pequena.

"O povo indignado exige seus direitos", entoa um grupo.

Estavam presentes os chamados coletivos, grupos paramilitares pró-governo.

Também participavam trabalhadores de instituições públicas.

O clima era de raiva, dor e muitas perguntas sem resposta.

'Me sinto humilhada'

Mulher segura uma bandeira venezuelana. Pessoas podem ser vistas nas ruas atrás dela
Legenda da foto, 'Penso que nosso presidente foi traído de alguma forma', disse Rosa Contreras durante a manifestação

"Honestamente, sinto-me humilhada, humilhada porque me pareceu muito fácil a forma como levaram o nosso presidente (...). Penso que nosso presidente foi traído de alguma forma", diz Rosa Contreras, de 57 anos, que participou da manifestação. Ela é líder social em Antímano, um bairro no oeste de Caracas.

A chamada "Operação Resolução Absoluta", com a qual os Estados Unidos detiveram Maduro e Flores na Venezuela, envolveu o deslocamento de 150 aeronaves que partiram de terra e do mar.

O presidente e sua esposa foram capturados pela Força Delta do Exército dos Estados Unidos, a principal unidade antiterrorismo do país, e levados para um navio em águas do mar do Caribe. De lá, foram transferidos para Nova York.

Mapa do trajeto de Maduro da Venezuela aos Estados Unidos

Na segunda-feira (5/1), Maduro compareceu a um tribunal em Nova York para enfrentar acusações de narcotráfico e narcoterrorismo. Ele afirmou ser um "prisioneiro de guerra" e declarou-se inocente.

"Ainda sou o presidente", assegurou.

Para Contreras, a imagem de Maduro acenando ao chegar aos Estados Unidos transmite uma mensagem clara às fileiras chavistas e a tranquiliza: "Pudemos ver a atitude do presidente, ele estava firme, firme em meio a esse processo, que é um processo muito delicado."

"Ele estava com uma postura que nos mandava uma mensagem: se eu estou aqui de pé, vocês também têm que estar de pé, têm que estar firmes, erguidos e seguir em frente", acrescenta.

Já Carmen Chirinos, de 63 anos, caiu no choro ao ver Maduro algemado.

"Sinto muita dor e tristeza, porque sou revolucionária (...) parte meu coração. Hoje, com outro vídeo que vi, comecei a chorar (...) um vídeo de Maduro quando o levaram", conta Chirinos.

'Armados até os dentes'

"Trump, é com você: devolva o nosso presidente, Nicolás Maduro", diz, efusiva, Gelen Correa, de 50 anos, que trabalha em programas sociais do governo.

"Este povo se respeita. Estou disposta a contra-atacar", acrescenta.

Diante da ideia de um eventual segundo ataque terrestre, Correa afirma: "Vocês vão nos encontrar armados até os dentes".

Veículo destruído em ataques dos EUA na Venezuela

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Os Estados Unidos atacaram instalações militares e governamentais venezuelanas em Caracas e em pelo menos três Estados do país
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Meses antes, o governo convocou os venezuelanos a se alistarem na milícia, e vários disseram que pegariam em um fuzil para defender com a própria vida Maduro e a revolução.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, informou que não houve mortos nem feridos entre as forças americanas durante a operação.

Do lado venezuelano, mais de 48 horas após os ataques, nenhuma autoridade apresentou um balanço de vítimas ou de danos materiais.

No domingo, o ministro da Defesa da Venezuela, o general em chefe Vladimir Padrino López, informou que a maioria dos escoltas e guarda-costas que protegiam Maduro foi "assassinada a sangue frio" pelos militares americanos que capturaram Maduro e sua esposa, sem fornecer números concretos.

O único número veio do governo cubano, que informou no domingo que 32 cidadãos cubanos morreram nos ataques.

Segundo as autoridades de Cuba, eles "cumpriam missões em representação das Forças Armadas Revolucionárias e do Ministério do Interior, a pedido de órgãos homólogos do país sul-americano".

'A defesa nacional tinha que estar ativa'

Homem usando um boné branco com a bandeira venezuelana sobre os ombros olha para a câmera.
Legenda da foto, 'O que eu senti quando vi o presidente Maduro [preso]? Muita impotência e muita raiva', diz Elin Mata durante a manifestação

Elin Mata, por sua vez, pede repetidas vezes: "Devolvam Nicolás, devolvam o presidente".

"O que senti ao ver o presidente Maduro [preso]? Muita impotência e muita raiva, porque um império quer colonizar a nossa pátria", responde.

Entre os chavistas nas ruas, são muitas as perguntas: o que aconteceu com a segurança de Maduro? O que falhou? Ele foi entregue? Houve ou não negociação?

"É preocupante como eles vêm e levam Maduro e sua esposa, isso é vergonhoso (...). Acho que houve uma grande falha, a defesa nacional tinha que estar ativa, porque se sabia que havia uma ameaça", diz um aposentado de 73 anos, alinhado ao governo, que prefere resguardar seu nome.

Por enquanto, diante da ausência de Maduro, na segunda-feira Delcy Rodríguez, a vice-presidente venezuelana, tomou posse como presidente interina por ordem do Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela.

A outra Venezuela

Filas do lado de fora de um supermercado em Caracas.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Pessoas aguardando do lado de fora de um supermercado em Caracas

Fora desse perímetro chavista em Caracas, a imagem é outra.

As pessoas tentam se abastecer de proteínas, leguminosas e qualquer outro alimento básico para os dias que virão. Fazem isso com o pouco que têm nos bolsos.

Anos de crise econômica as atingem duramente.

Ainda assim, os supermercados seguem com filas de pessoas nas entradas, aguardando para entrar. E, já no fim da tarde, algumas prateleiras estão vazias.

Os postos para abastecimento de gasolina seguem abertos.