Em Madri, Lula critica ONU e volta a condenar Rússia, mas não menciona Putin

Crédito, Ricardo Stuckert/PR
- Author, Luís Barrucho
- Role, Enviado especial da BBC News Brasil a Madri
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou nesta quarta-feira (26/4) em Madri, na Espanha, o papel da ONU na guerra entre Rússia e Ucrânia e voltou a condenar a Rússia, defendendo uma solução de paz para o conflito.
Apesar disso, em nenhum momento mencionou o presidente da Rússia, Vladimir Putin, ao contrário do presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, que chamou o russo de "agressor".
Lula está em Madri para uma curta visita oficial (pouco mais de 24 horas) em que um dos objetivos é conseguir o apoio da Espanha para a finalização e assinatura do acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul. Em junho, a Espamnha assume a presidência rotativa da União Europeia. O acordo ainda está em fase de revisão e terá que ser ratificado pelos 27 países membros do grupo.
Lula também disse que não cabe a ele dizer a quem pertence Crimeia ou Donbas, territórios ucranianos ocupados pela Rússia.
Nos últimos dias, o petista vem amenizando o tom em relação à Ucrânia após falas polêmicas, em que equiparou Rússia e Ucrânia e acusou Estados Unidos e União Europeia de contribuir para prolongar o conflito.
"Ninguém pode ter dúvida de que nós, brasileiros, condenamos a violação territorial que a Rússia fez com a Ucrânia", disse Lula ao lado de Sánchez, no Palácio Moncloa, sede do governo espanhol e residência oficial do presidente do governo.
Já, em sua fala, Sánchez afirmou considerar que existe "um agressor e um agredido — e o agressor é Putin e o agredido é um povo", disse, em alusão ao presidente da Rússia.
"Se queremos que a paz seja justa e duradora, é fundamental que a voz do país agredido seja levada em conta", acrescentou.
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Lula voltou a cobrar uma solução pacífica para o fim da guerra e defendeu um posicionamento mais firme da ONU na mediação do conflito, para que a paz seja alcançada.
Segundo o presidente, "não tem ninguém falando em paz, é como se eu estivesse isolado no deserto. É preciso encontrar um grupo de pessoas dispostas para parar a guerra. Por enquanto, você tem dois países em conflito e falando 'eu não abro mão'", disse.
Neste momento, Lula fez uma alusão ao seu passado como líder sindical comandando greves no ABC e insinuou que concessões seriam necessárias.
"Sei que não é correto mostrar esse exemplo. Já fiz greve dizendo 80% ou nada. Ficava com nada".
"O problema é que a guerra começou sem que houvesse muitas negociações. Vou continuar tentando e continuar falando. O Celso Amorim (ex-chanceler e atual assessor especial da presidência) esteve falando com o Putin e vai à Ucrânia para falar com o Zelensky (Volodymyr Zelensky). Vamos parar de guerrear, porque é mais barato, mais tranquilo e melhor para os seres humanos que moram na Ucrânia", disse.
Na semana passada, Lula determinou que o ex-chanceler Celso Amorim, assessor especial da Presidência, se encontre com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, após convites do governo ucraniano para visitar o país.
O presidente também voltou a defender a reforma do Conselho de Segurança (CS) da ONU, e dessa vez acusou seus membros permanentes de ser "os maiores produtores de armas" do mundo.
O Conselho é composto por 15 membros, sendo 5 membros permanentes com poder de veto: Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e China. Os demais dez membros são eleitos pela Assembleia Geral para mandatos de dois anos.
"Não adianta ficar dizendo quem está certo e quem está errado; é preciso fazer a guerra parar. É assim nesta guerra e sempre foi. Os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU são os maiores produtores de armas do mundo", disse.

Crédito, Ricardo Stuckert/PR
Lula também disse entender a preocupação da Europa, mas que esta é "diferente da do Brasil".
"A preocupação da Europa é diferente da do Brasil. E por isso que eu tenho a comodidade (para falar em paz). Todos nós somos contra a guerra, mas a guerra já começou. Espero que a gente possa concluir esta paz. E vamos continuar trabalhando. O Brasil não quer entrar na guerra. O Brasil quer ajudar. Essa é a condição do Brasil", afirmou.
Questionado por um jornalista espanhol se acredita que Crimeia e Donbas são territórios ucranianos ou russos, Lula se esquivou, dizendo que "acho que, quando sentar na mesa de negociação, pode discutir qualquer coisa. Até a Crimeia. Mas não sou eu que vou discutir. Quem tem que discutir isso são os russos e ucranianos. Primeiro para a guerra, depois vamos conversar. O dado concreto é que o povo está morrendo".
A Crimeia foi anexada pela Rússia após guerra com a Ucrânia em 2014. Já Donbas teve a maior parte de seu território ocupada pelos russos desde a invasão no ano passado.
Zelenski exige que os dois territórios sejam desocupados para iniciar quaisquer negociações de paz.
Segundo Lula, se a paz não for alcançada o mais rapidamente possível, a guerra vai demorar para ter fim.
"E não sei o que pode acontecer com o prolongar dessa guerra. Pode acontecer tudo, até uma desgraça maior", disse.
Lula se encontrou com o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, na manhã desta quarta-feira (26/4) no Palácio de Moncloa, onde assinou memorandos de entendimento e uma carta de intenções.
Na sequência, ele seguiu para um almoço com o rei espanhol Felipe 6º. Seu retorno ao Brasil está previsto para a tarde desta quarta-feira.















