'Slow living': por que 'não fazer nada' é bom para a saúde
- Author, Holly Williams
- Role, BBC Culture
- Tempo de leitura: 11 min
Que tal não fazer nada por um ano inteiro? Ficar sem trabalhar, sem receber e-mails, sem progresso na carreira, sem esforços, sem conquistas, nem produtividade.
Para muitos de nós, este mero pensamento, por si só, já podia causar um ataque de ansiedade. Afinal, trabalhar é status, ganhar dinheiro é uma conquista e ficar ocupado é motivo de orgulho, certo?
Mas hoje em dia, a ideia de passar um ano sem fazer nada é bem mais aceitável, é até uma aspiração – e que mostra que houve, como dizem os mais jovens, uma mudança de vibe.

Crédito, Alamy
Millennials (as pessoas nascidas entre 1981 e 1995) estão adotando o conceito de #SlowLiving ("viver lentamente").
Esta hashtag já foi usada mais de seis milhões de vezes no Instagram — embora postar conteúdo nas redes sociais seja uma contradição dos princípios de um estilo de vida consciente e sustentável, em que o tempo em frente às telas é consideravelmente reduzido.
Já a Geração Z (os nascidos entre 1995 e 2010) é pioneira nos conceitos de "demissão silenciosa" e "lazy girls jobs", "empregos de meninas preguiçosas" expressão que bombou no TikTok e se refere a empregos remotos que causam pouco estresse.
Nestes casos, as pessoas fazem o mínimo possível no trabalho, preservando sua energia para outras atividades, como hobbies, relacionamentos ou autocuidado.
E o desejo de trabalhar menos parece atrair pessoas de todas as gerações. No Reino Unido, por exemplo, vem ganhando muita força a ideia da semana de trabalho de quatro dias.
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Emma Gannon conhece bem este assunto. Escritora prolífica, podcaster e ativa na plataforma Substack, ela publicou recentemente o livro A Year of Nothing ("Um ano de nada", em tradução literal), que é o seu relato de 12 meses completos de descanso.
A obra esgotou rapidamente e já ganhou uma segunda edição.
Gannon foi obrigada a optar pelo período de descanso, não por uma escolha de vida, mas por ter sofrido um burnout no trabalho.
A Year of Nothing acompanha sua jornada para recuperar a saúde apostando em atividades tranquilas, como escrever um diário, assistir à TV matinal, observar pássaros e nadar.
A autora já havia se confrontado com as armadilhas da luta implacável pelo sucesso como mulher empreendedora dos anos 2010, no livro, "The Success Myth: Letting Go of Having It All" ("O mito do sucesso: desistindo de ter tudo", em tradução literal).
Mas foi a experiência do completo burnout que a forçou a realmente confrontar a importância do repouso.
"Olhando para trás, surgiram muitos alertas", relembra ela. "Eu me sentia muito confusa, tinha dores de cabeça latejantes, não conseguia me concentrar nas coisas, eram sinais muito assustadores. Mas eu os ignorava, [pensando]: 'estou ocupada, preciso continuar'."
Até que, em 2022, seu corpo entrou em modo de desligamento forçado.
"Eu não conseguia olhar para o celular, não conseguia olhar para a tela, não conseguia andar pela rua, de tão fraca", ela conta. "Eu vi que não dava para seguir desse jeito, tinha que parar."
"Muitas pessoas com burnout crônico precisam chegar a esse ponto para se desligarem [do trabalho], pois estamos muito condicionados a avançar a todo custo nesta sociedade."
Mas, na verdade, "somos projetados para tirar cochilos e [caminhar no] parque", prossegue Gannon. "Ir nadar, olhar para o céu. Isso é muito importante."
Hoje, ela está decidida a transformar as lições do seu burnout e sua recuperação em uma vida mais lenta e confortável. "Nada vale mais que sua saúde."

Crédito, Paul Storrie
Desacelerar está na moda
Gannon certamente não está sozinha. Uma rápida busca nas prateleiras de autoajuda ou filosofia popular de sua biblioteca ou livraria preferida revela uma abundante safra florescente de livros incentivando as pessoas a desacelerar.
Um exemplo é o livro Resista: Não Faça Nada: A Batalha pela Economia da Atenção (Ed. Latitude, 2021), de Jenny Odell, uma das sensações de 2019.
Ele mostra aos nossos cérebros esgotados como a tecnologia sedenta por lucros e as redes sociais consomem nossa atenção e nos distraem. A autora defende reconfigurar a nossa consciência sobre o mundo natural à nossa volta e sobre o nosso próprio interior.
Odell também faz parte da onda de autores que incentivam a resistência à ideia de que vivemos "em um mundo em que o nosso valor é determinado pela nossa produtividade", em que cada hora e cada minuto do nosso tempo devem ser aproveitados — se não no trabalho, em alguma forma de automelhoramento.
Essa resistência à pressão pela otimização permanente também se encontra no surpreendente e reconfortante livro de Oliver Burkeman "Quatro Mil Semanas: Gestão de Tempo para Mortais" (Ed. Objetiva, 2022).
Publicado originalmente em 2021, ele nos relembra que a vida é breve e nunca conseguiremos cumprir todos os itens da nossa lista de coisas a fazer.
E, em vez de procurarmos ser cada vez mais eficientes, o autor defende que devemos nos concentrar no que realmente importa, rejeitando o perfeccionismo e o completismo para vivermos mais plenamente no presente.

Crédito, Alamy
Parece que a ideia de não fazer nada está se espalhando. Talvez você já tenha observado a recente proliferação de livros sobre niksen, termo holandês que significa "não fazer nada, intencionalmente".
O livro "Niksen: Abraçando a Arte Holandesa de Não Fazer Nada", de Olga Mecking (Ed. Rocco, 2021), certamente chamou a atenção de muita gente quando foi publicado, durante a pandemia. Ele foi seguido por outros nessa linha, como Hygge: O Segredo Dinamarquês para Viver Bem (Ed. Sextante, 2023).
Parece que nós adoramos receber conselhos práticos sobre o estilo de vida de países do norte da Europa.
A própria palavra "descanso" agora está na moda. Publicado em 2022, o livro Pause, Rest, Be ("Pare, descanse, seja", em tradução livre), da professora de ioga Octavia Raheem, ajuda os leitores a atravessar grandes mudanças ou períodos de incerteza, desacelerando e se voltando para o seu interior.
The Art of Rest ("A arte do descanso"), de Claudia Hammond, também traz um lado prático. Seus capítulos descrevem as 10 atividades mais relaxantes identificadas em pesquisas globais.
O livro também defende a importância da desaceleração intencional, seja relaxando na banheira, lendo um livro ou passando algum tempo junto à natureza. Para a autora, "o descanso não é um luxo; é uma necessidade".
Já Inverno da Alma, de Katherine May (Ed. Darkside, 2023), conta de forma lírica como a autora aprendeu a aceitar a sazonalidade da ociosidade - como se fosse uma estação do ano necessária.
"Desacelerar, aumentar seu tempo livre, dormir o suficiente... descansar, agora, [é considerado] um ato radical, mas é essencial", escreve a autora.
É verdade que, até pouco tempo atrás, muitos defendiam o repouso em nome da produtividade, como no livro Rest: Why You Get More Done When You Work Less ("Descanso: por que você consegue fazer mais quando trabalha menos", em tradução literal), lançado em 2016.
Hoje, estamos mais dispostos a defender o tempo de descanso para benefício da nossa saúde mental, nosso bem-estar espiritual, do senso de equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho e até, simplesmente, para nos divertirmos.
Estes livros não são todos iguais. Na verdade, existe um mundo de distância entre as teorias radicais e muitas vezes acadêmicas de Jenny Odell — explícitas no seu anticapitalismo — e os agradáveis livros em tons pastéis que nos incentivam a relaxar na banheira ou brincar com lápis de cor.
Mas essa variedade por si só já mostra que o assunto interessa;. não é à toa que virou tendência no TikTok e gera tanto ensaios acadêmicos como livros de autoajuda de leitura mais simples.
Descanso radical

Crédito, Chani Bockwinkel/ Penguin
O que levou a esta reviravolta no mundo ocidental?
O motivo é simples: todos nós estamos apenas muito cansados.
Esta é a teoria de Gannon: "Todos estão extremamente cansados. Estamos todos lutando de alguma forma para não deixar a peteca cair", conta ela à BBC. "Temos um corpo e uma mente que precisam de cuidados e acho que, na verdade, não estamos fazendo [isso]."
A tecnologia é um fator importante. O fato é que poder responder e-mails no nosso celular não nos torna mais eficientes — apenas nos faz trabalhar mais.
A onipresença das redes sociais nos incentiva a documentar cada centímetro das nossas vidas, buscar conteúdo nelas e trabalhar continuamente para fortalecer nossa própria marca individual.
E o crescimento dos aplicativos de monitoramento também transforma as atividades de lazer, os exercícios e até as necessidades mais básicas da vida, como comer e dormir, em dados que podem ser comparados e aprimorados. Você pode monitorar seu sono, registrar seu café da manhã, cronometrar sua corrida, catalogar o filme a que você assistiu e acompanhar seu ciclo menstrual, por exemplo.
Para as muitas pessoas que começavam a se voltar contra a cultura do trabalho implacável, a pandemia foi uma revolução.
É claro que foi uma época terrível, sem oportunidade de descanso para muitas pessoas. Mas, para outras, o trabalho teve uma pausa ou, pela primeira vez, foi levado para casa.
Com isso, sem o deslocamento diário para o trabalho, muitos não tiveram outra escolha senão desacelerar - ou ficaram mesmo sem fazer nada. E assim, muita gente percebeu que não queria mais voltar ao ritmo de antes.
Pode também ser uma mudança geracional. Os millennials ficaram conhecidos como a geração do burnout. Eles foram criados para trabalhar duro para serem bem sucedidos e se formaram com uma montanha de dívidas, em um mundo instável após a crise financeira de 2007-2008. Esta combinação, como é bem documentado, representou um sério desafio para muitas pessoas.
Os livros que abordam explicitamente o burnout também se tornaram um grande negócio nos últimos anos. Eles incluem, por exemplo, obras que investigaram suas razões sociopolíticas, como Não Aguento Mais Não Aguentar Mais: Como os Millennials se Tornaram a Geração do Burnout , de Anne Helen Petersen (Ed. HarperCollins, 2021). O livro mostra como o capitalismo e a busca pelo lucro e a produtividade levaram aquela geração à exaustão.
Houve também guias práticos para superar a situação com repouso e reavaliação — como Burnout: O Segredo para Romper com o Ciclo de Estresse, de Emily e Amelia Nagoski (Ed. BestSeller, 2020), ou Burnt Out: The Exhausted Person's Six-Step Guide to Thriving in a Fast-Paced World ("Esgotado: o guia da pessoa exausta em seis etapas para ter sucesso em um mundo acelerado", sem edição em português), de Selina Barker.
Detalhe: todos estes livros foram publicados em 2020.
Gannon culpa os pais por este fenômeno geracional.
"Os baby boomers [nascidos entre cerca de 1946 e 1964] são muito consumistas", destaca ela. "Estatisticamente, eles compram a maior parte da tecnologia, detêm a maior parte dos imóveis e adoram coisas como dinheiro e sucesso, enquanto geração."
"Acho que os filhos dos baby boomers, os millennials, quiseram basicamente impressioná-los. Eles ouviram: 'vá, conquiste, tenha sucesso e [seus pais] poderão então ter orgulho de você'. É muito difícil nos livrarmos disso."
Para Gannon, o burnout crônico é, em sua origem, o resultado de viver no capitalismo global. E decidir viver em ritmo mais lento é uma reação contra a mentalidade aquisitiva, que nunca está satisfeita, promovida pelo capitalismo.
A autora espera que o movimento atual que nos faz deixar de sempre buscar mais coisas ou status, em favor de termos mais tempo, possa ser um sinal saudável para a nossa sociedade.
"As pessoas realmente estão começando a entender que, se você tiver um teto sobre a cabeça e puder pagar suas contas, do que mais você precisa?", destaca ela.

Crédito, Alamy
É claro que esta questão traz um ponto importante. Todas as pessoas que escrevem sobre passar menos tempo trabalhando e mais tempo descansando parecem ser — como direi? — muito privilegiadas.
Emma Gannon publicou diversos livros que se tornaram best-sellers. Ela escreveu sobre como ganhar centenas de milhares de dólares anuais em sua newsletter The Hyphen — que, na verdade, continuou mantendo durante o ano em que passou "sem fazer nada".
Jenny Odell era professora na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, quando escreveu em favor de não fazer nada. E Katherine May, de alguma forma, conseguiu simplesmente sair do emprego e educar sua filha em casa, enquanto vivia o seu inverno ocioso.
Por outro lado, o slow living foi acusado de se concentrar muito em uma estética de estilo de vida pouco acessível para muitos. Por alguma razão, no Instagram, a hashtag conduz você para inúmeras fotos de casas de fazenda, lindas mulheres brancas arrumando flores e muitas roupas de cama em tons neutros e quentes.
Será que reduzir as atividades acaba se tornando apenas mais uma forma de contar vantagem sobre seu estilo de vida? Afinal, muitas das atividades de cura descritas por Gannon custam dinheiro: retiros, reflexologia, coachers de vida, inúmeros feriados, viagens e estadias.
Por isso, eu perguntei a ela o que fazer se você tem burnout porque está trabalhando em dois empregos apenas para pagar as contas e não consegue tirar um tempo para descansar.
Gannon reconhece rapidamente como ela teve sorte por poder parar de trabalhar. Mas ela insiste que se trata de uma mentalidade - e que simplesmente se permitir tirar um dia ou uma semana de descanso pode ajudar.
Ela diz que vale a pena relembrar o velho ditado: as melhores coisas da vida são de graça.
Gannon relembra um dia em que enfrentou muitas dificuldades com o burnout. Tudo o que ela conseguiu foi caminhar e comprar um buquê de narcisos por uma libra (cerca de R$ 7). O simples ato de esticar as pernas e colocar as belas flores amarelas em um vaso foi suficiente para que ela conseguisse vencer o dia.
"Realmente, não é questão de para onde você vai ou o que você vê", orienta ela. "É simplesmente [dizer] 'eu quero fazer algo que irá levantar meu ânimo'. E todos nós sabemos que isso não custa dinheiro."
A Year of Nothing foi publicado pela editora The Pound Project e estará à venda em novembro. "What Time is Love?", de Holly Williams (autora desta reportagem), foi publicado pela editora Orion.
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.













