Brasileira dança em papel principal no balé de Londres: 'Sonhei com esse momento'

Mayara Magri
Legenda da foto, Mayara Magri recebeu a equipe da BBC News Brasil na Royal Opera House, em Londres
  • Tempo de leitura: 6 min

Aos 31 anos, a carioca Mayara Magri ocupa um dos postos mais cobiçados da dança clássica mundial: é bailarina principal do Royal Ballet, companhia residente da Royal Opera House, em Londres.

No palco, ela interpreta alguns dos papéis mais emblemáticos do repertório, como Giselle — balé romântico do século 19, com música do francês Adolphe Adam, conhecido pelo contraste entre a doçura do primeiro ato e a dramaticidade sobrenatural do segundo.

A brasileira estreou como Giselle no último dia 28 de fevereiro.

Nascida no Rio de Janeiro, ela começou a dançar aos oito anos, quase por acaso. Uma amiga frequentava uma escola de balé e a convidou para conhecer o estúdio.

"Foi bem natural para mim estar ali. Lembro de ter curtido o espaço, o movimento e a música. Foi mais instintivo do que qualquer outra coisa", recorda. Não houve pressão familiar. Pelo contrário: o incentivo veio de professores que identificaram talento e ajudaram a moldar a futura bailarina.

Aos 14 anos, Mayara começou a perceber que aquilo que parecia apenas uma atividade da infância poderia, sim, se transformar em carreira.

"Meus professores me levavam para concursos regionais e eu comecei a me dar muito bem, ganhar medalha e a me destacar", diz.

O passo seguinte foi intensificar a rotina: mais horas de treino, dedicação diária e a mira em competições internacionais.

Pule Whatsapp! e continue lendo
No WhatsApp

Agora você pode receber as notícias da BBC News Brasil no seu celular.

Clique para se inscrever

Fim do Whatsapp!

Em 2011, ela foi treinada por seis meses para disputar o Prix de Lausanne, um dos concursos mais conhecidos do mundo para jovens bailarinos, na Suíça. "Foi o que realmente mudou tudo para mim", afirma.

Filha de um taxista e de uma secretária que até hoje trabalha na escola de dança onde a filha começou, Mayara olha para o começo da carreira com gratidão à coragem e ao incentivo que recebeu dos pais.

"Eles foram muito corajosos por acreditar que eu conseguiria uma carreira com algo que eles não tinham nem noção que era possível."

Aos 16 anos, mudou-se sozinha para Londres para estudar na Royal Ballet School. Os pais nunca tinham saído do Brasil. Ainda assim, permitiram que a filha atravessasse o oceano em busca de um sonho.

"Eu acho que, por ser brasileira, eu trago comigo uma força espiritual muito, muito forte. Uma determinação de correr atrás daquilo que eu quero seguir", afirma.

Para Mayara, essa persistência — a ideia de "não se tranquilizar com o conquistado, de sempre querer mais" — foi um diferencial dentro da companhia britânica.

"Essa determinação de fazer melhor, de encontrar uma nuance diferente para cada dia, para cada apresentação, para cada papel."

Além da persistência, ela também acredita que outra característica brasileira foi um diferencial na carreira: a capacidade de se conectar com as próprias emoções.

"Eu sinto que sempre tento trazer algo diferente, e acho que isso vem muito do lado de ser brasileira, ser bem emocional, de se permitir sentir."

"Acho que sou, em relação aos meus outros amigos aqui da Europa, bem mais aberta à emoção e a me deixar levar pelo que eu estou sentindo."

Há 14 anos vivendo fora do país, Mayara leva uma rotina que combina arte e alto desempenho físico. Ainda que o balé seja uma arte, a preparação para cada espetáculo mais se assemelha à de atletas de alta performance.

Antes de cada estreia, são semanas de treino e ensaios intensos.

"O trabalho físico vem antes e durante o treino de três, quatro semanas antes de uma apresentação, para que quando você esteja no palco, você esteja aberta para curtir a emoção do momento e tentar se conectar com o público."

Assista
Legenda do vídeo, A brasileira que dança em papel principal no balé de Londres

No Royal Ballet, ela diz, a exigência vai além da virtuosidade em um único tipo de movimento.

"Você tem essa divisão… de você ser completo e tentar trazer os dois para tudo o que você faz", afirma, ao descrever a combinação entre o refinamento dos detalhes — "uma expressão, um olhar" — e a força física necessária para coreografias que empurram o corpo ao limite.

"Nós temos que cuidar do nosso corpo como um atleta, nós temos que puxar os nossos extremos", diz. E dá um exemplo: "Um bailarino, se ele não consegue saltar, ele tem que trabalhar no salto dele. Mas também tem que trabalhar na parte dos movimentos mais lentos e saber fazer as coisas rápidas também."

No palco, o objetivo vai além da execução impecável dos passos.

"O mais importante é tentar fazer o público sentir algo, levar para casa, se sentir tocado, transformado de alguma forma."

Em tempos de notícias duras e incertezas globais, ela vê o teatro como um espaço de suspensão da realidade. "Que eles venham ao teatro e esqueçam das barbaridades que veem no mundo."

Para sustentar essa entrega, Mayara diz que conta com uma estrutura de suporte dentro da companhia, com equipe dedicada à preparação física e ao cuidado do corpo: "Temos sala de pilates, fisioterapeutas e massagistas que realmente trabalham para ajudar a gente nessa trajetória que não é fácil, de corpo e alma, praticamente."

Mayara como Giselle

Essa busca por conexão ganha intensidade em papéis dramáticos como o de Giselle. Mayara diz que continua descobrindo aspectos novos da personagem, mesmo após diversas apresentações.

"É um balé que eu sempre sonhei muito em dançar aqui nessa companhia."

O vínculo com a história vem de longe: ela conta que, ainda adolescente, aos 14 anos, foi escolhida por professores para interpretar Giselle em uma apresentação de fim de ano no Brasil.

"Foi lá que comecei a assistir vídeos da produção, a entender a história", lembra.

Na época, diz, faltava maturidade. Agora, no papel em Londres, ela afirma que reaproveita aquele estudo antigo como uma espécie de fio emocional que atravessa os anos e desemboca no presente.

Para ela, interpretar Giselle exige abertura emocional e disponibilidade para viver o drama em cena.

"O que eu busco como bailarina é realmente sentir a história e me abrir para o público, para que eles também possam sentir esse vínculo de troca de emoções."

Ela descreve Giselle como um desafio duplo: narrativo e físico.

No primeiro ato, a personagem é "uma menina ingênua do vilarejo que está amando pela primeira vez" — até sofrer uma decepção amorosa. A partir daí, a trama muda de plano.

"Ela morre e vai para esse mundo das Willis", diz, citando o mito que, na história, ronda o imaginário do vilarejo.

"É um contraste incrível entre um ato e o outro, o real e o espiritual. E eu adoro porque adoro um desafio."

O segundo ato, afirma, tem a dificuldade da "técnica clássica pura".

Ela descreve o paradoxo do que o público vê — leveza e suspensão — e do que o corpo precisa entregar para produzir essa sensação.

"Você salta bem alto, mas parece que você não está nem aterrissando. Usar os braços de uma forma que parece que você não está se ajudando a saltar", diz.

"Mas o corpo está ali, a musculatura está toda impulsionada para você conseguir dar o maior salto que você consegue. Mas aterrissar com calma."

Mesmo no topo da hierarquia da companhia, ela descreve a carreira como um processo contínuo de testes e reinvenção.

Mayara entrou no Royal Ballet no corpo de baile e foi avançando "nível" a "nível", de acordo com oportunidades e avaliações que medem técnica e interpretação.

"Se fosse um teste, uma prova, eu diria que passei em todos os testes para estar fazendo o que eu estou fazendo hoje."

Ainda assim, diz, a sensação de aprendizado não termina.

"Eu sinto que eu nunca vou parar de aprender, porque cada balé é diferente. Eu tento sempre servir o propósito do balé, o que é necessário de mim."

Ela descreve esse processo como um lugar de vulnerabilidade: mudar a cada produção, arriscar escolhas artísticas sem ter certeza imediata do resultado.

Ao falar sobre o que vem pela frente, Mayara não descreve o posto de bailarina principal como linha de chegada, mas como acúmulo — de experiência, repertório e responsabilidade. "Nada muda muito. Eu acho que só acrescenta", afirma.

Ela diz que tem consciência de que onde chegou é o sonho de muitas meninas — e que, quando o corpo começar a pedir menos, quer transformar o que viveu em passagem de bastão.

"Que eu possa passar toda essa informação para a próxima geração, que seja ensinando, que seja conversando, que seja mostrando que é possível viver disso."