Flávio Bolsonaro mantém vigília em Brasília e acusa Moraes: 'Se meu pai morrer, a culpa é sua'

Jair Bolsonaro em imagem desfocada, com seu filho, Flávio, aparecendo atrás

Crédito, Adriano Machado/Reuters

Legenda da foto, Convocação de vigília por Flávio Bolsonaro foi considerada por Alexandre de Moraes como tentativa de tumultuar cumprimento de decisões da Justiça
  • Tempo de leitura: 5 min

Em transmissão ao vivo em seu canal no YouTube, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) criticou a prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pela Polícia Federal (PF) na manhã deste sábado (22/11).

A medida foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que revogou a prisão domiciliar de Bolsonaro, em vigor desde agosto, e atendeu a um pedido da PF, que apontou risco concreto e iminente de fuga.

Na ordem, Moraes descreve que o risco foi identificado após Flávio Bolsonaro convocar uma "vigília" em apoio ao pai nas proximidades da residência do ex-presidente e ser detectada uma tentativa de violação da tornozeleira que ele usava.

Em resposta, Flávio disse que decisão do ministro do STF "criminaliza o livre exercício da crença".

"O que está escrito aqui nessa sentença é que eu não posso orar pelo meu pai, que eu não posso orar pelo meu país, que eu não posso pedir a um padre para rezar um pai nosso em cima de um carro de som, porque isso seria um subterfúgio e uma fuga do Bolsonaro", disse Flávio.

"Se o Bolsonaro quisesse fugir, ele nem voltado pro Brasil tinha."

O senador fez referência ao tempo em que Bolsonaro passou nos Estados Unidos após perder as eleições de 2022.

O senador disse ainda que Moraes fez "perseguição religiosa" por "criminalizar um ato religioso". Flávio afirmou que a vigília convocada por ele seria para pedir saúde para o pai.

"Se acontecer alguma coisa com o meu pai, Alexandre de Moraes, a culpa é sua. Se meu pai morrer lá dentro, a culpa é sua. Você quer matar o Bolsonaro, Alexandre de Moraes?"

Flávio também disse que o pedido de prisão do pai foi "pré-fabricado" e feito para ocorrer no dia 22 para provocar, porque é o número do PL, sigla atual do ex-presidente.

"Queria humilhar o Bolsonaro, no dia 22, que é o líder do partido. Isso aqui não tem nada de jurídico. Isso é uma perseguição a direita brasileira, um partido político, o maior partido político desse país."

O senador criticou o que considera ser uma perseguição da direita e declarou que vai manter a vigília.

"Eu quero convidar todo mundo para estar hoje às 19h, onde a gente vai fazer esse grande ato religioso, essa vigília pela saúde do meu pai, por justiça nesse Brasil."

Ele também leu um trecho da Bíblia, puxou um salmo de provérbios e chorou no final.

Flávio tentou reeditar acampamentos nos quartéis com vigília, segundo Moraes

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Alexandre de Moraes destacou na ordem de prisão de Bolsonaro que a convocação de vigília por Flávio poderia gerar aglomerações capazes de dificultar a fiscalização policial e a aplicação de decisões judiciais.

De acordo com a decisão, a convocação da vigília foi interpretada como parte de uma estratégia para "prejudicar o cumprimento de eventuais medidas judiciais" e "dificultar a aplicação da lei penal" nas horas que antecedem o possível trânsito em julgado da condenação.

O ministro também afirma no despacho que a mobilização convocada por Flávio Bolsonaro se assemelha a estratégias já utilizadas por apoiadores do ex-presidente em outros momentos, inclusive os acampamentos em frente a quartéis após as eleições de 2022.

Segundo o ministro, haveria tentativa de reeditar esse tipo de mobilização, que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023.

A decisão descreve em detalhes o vídeo publicado por Flávio Bolsonaro na rede social X, no qual ele convoca apoiadores a se deslocarem para as proximidades da residência do ex-presidente.

Como aponta o documento, Flávio afirmou: "Você vai lutar pelo seu país ou assistir tudo do celular aí do sofá da sua casa? Eu te convido para lutar com a gente".

"Com a sua força, a força do povo, a gente vai reagir e resgatar o Brasil desse cativeiro que ele se encontra hoje", prosseguiu.

A postagem, diz o texto, já acumulava dezenas de milhares de visualizações e milhares de compartilhamentos.

Além disso, ainda segundo a decisão, a ocorrência de violação da tornozeleira eletrônica usada por Bolsonaro reforçou o entendimento de que havia risco iminente de evasão.

Para Moraes, o registro "constata a intenção do condenado de romper a tornozeleira eletrônica para garantir êxito em sua fuga", supostamente facilitada pela confusão causada pela manifestação convocada.

Moraes diz também que o ex-presidente poderia se abrigar na embaixada dos EUA para evitar sua prisão. O local fica a cerca de 15 minutos de carro da residência de Bolsonaro, destaca o ministro.

Bolsonaro é um aliado do presidente americano, Donald Trump, e, em 2024, enquanto ainda era investigado, chegou a ir à embaixada da Hungria, país governado por outro aliado, Viktor Orbán, e passou duas noites no local. A atitude do ex-presidente na época levantou suspeitas de que poderia pedir asilo para evitar uma prisão preventiva, o que ele negou.

O que acontece agora?

Jair Bolsonaro foi transferido para a Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal, onde deve permanecer em uma Sala de Estado, local de detenção especial reservado para autoridades.

A decisão ainda será submetida ao referendo da Primeira Turma do STF, que deve realizar uma sessão virtual extraordinária na segunda-feira, das 8h às 20h.

Moraes também rejeitou o pedido da defesa de Bolsonaro para que ele fique em prisão domiciliar por motivo humanitário. Seus advogados argumentam que, pelas condições de saúde dele, a cadeia pode representar um "risco à vida" do ex-presidente — que, segundo eles, sofre de "doença grave de natureza múltipla (cardiológica, pulmonar, gastrointestinal, neurológica e oncológica)".

O ex-presidente foi considerado pelo STF como líder de uma organização criminosa, com militares, policiais e aliados, que atuou para impedir a transição de poder após as eleições de 2022, vencidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A investigação também levou à imposição de uma série de medidas cautelares ao longo do processo, à medida que o tribunal entendeu haver risco concreto à ordem institucional e à aplicação da lei penal.

Bolsonaro foi declarado culpado de cinco crimes: organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado.

As condenações resultaram em um endurecimento progressivo de sua situação jurídica, com restrições cada vez mais severas de liberdade.