Como o naufrágio mais profundo do mundo foi detectado

Crédito, Caladan Oceanic
- Author, Stephen Dowling
- Role, BBC Future
- Tempo de leitura: 16 min
Em 23 de outubro de 1944, começaram os primeiros combates de uma gigantesca batalha naval — a maior da história humana moderna — no Golfo de Leyte, parte do Mar das Filipinas.
Nos três dias que se seguiram, mais de 300 navios de guerra dos EUA enfrentaram cerca de 70 navios japoneses.
Os americanos contavam com nada menos que 34 porta-aviões — apenas um pouco menos do que todos os porta-aviões em operação ao redor do mundo hoje — e cerca de 1,5 mil aeronaves. A frota aérea deles excedia a dos japoneses numa proporção de cinco contra um.
A batalha teve dois efeitos principais — impediu que os japoneses interferissem na invasão americana das Filipinas (que havia sido tomada pelos japoneses quase quatro anos antes) e deixou efetivamente a Marinha Imperial Japonesa (IJN, na sigla em inglês) fora de ação durante o resto da Segunda Guerra Mundial.
Quase 30 navios japoneses foram afundados, e muitos dos que restaram — incluindo o maior navio de guerra já construído, o Yamato — saíram tão avariados que ficariam confinados ao porto pelo resto da guerra.
Embora os EUA superassem de longe em número a frota japonesa, uma ação crucial na batalha foi diferente.
Uma pequena esquadra — Task Force 77, composta sobretudo por destróieres e porta-aviões não blindados — se viu combatendo uma formação japonesa muito maior.
A batalha aconteceu na ilha de Samar. Em ampla desvantagem, a pequena frota americana lutou contra todas as adversidades, desferindo ataques contra os navios japoneses muito maiores e mais bem armados.
A resistência americana foi tão feroz que levou o comandante japonês, vice-almirante Takeo Kurita, a dar meia volta com sua frota, acreditando que estava enfrentando a maior parte das forças dos EUA.
Os pequenos destróieres americanos relativamente sem blindagem chegaram o mais perto possível dos navios de guerra japoneses, impedindo-os de usar suas poderosas armas de longo alcance.
A reduzida força americana evitou um possível massacre, mas sua resistência teve um preço alto. Cinco dos 13 navios dos EUA foram afundados, incluindo um destróier chamado USS Johnston.
Pouco depois das 7h, Johnston foi atingido por projéteis do Yamato, mas lutou por mais duas horas, salpicando navios inimigos muito maiores com projéteis e assustando uma pequena frota de destróieres da IJN que tentava atacar os porta-aviões americanos levemente armados.
Somente após duas horas de combate, com os sobreviventes agarrados à popa do navio, alvejado por dezenas de projéteis, que o Johnston finalmente afundou, levando consigo 186 de seus 327 tripulantes.
Sobreviventes contaram que um dos capitães dos destróieres japoneses bateu continência enquanto a embarcação desaparecia embaixo das ondas.
Mas a história do USS Johnston não acabou por aí.
***
A maioria dos naufrágios do mundo são encontrados em águas costeiras rasas.

Crédito, Joemill Fordelis/Getty Images
Os navios seguem rotas comerciais para os portos, e as águas costeiras oferecem uma oportunidade de refúgio se o tempo ficar ruim. Então é onde a maioria dos navios afunda.
Mas as águas em que Johnston afundou são muito diferentes. No lugar de uma queda suave, é uma queda vertiginosa em grandes profundidades.
A Ilha de Samar fica à beira de um vasto cânion marinho conhecido como Fossa das Filipinas, que se estende por cerca de 1.320 km ao longo da costa das Filipinas e da Indonésia. Contorna o lado leste da Ilha de Samar, virada para o mar do Golfo de Leyte.
É muito, muito profundo.
Se você soltasse o Monte Everest no ponto mais profundo da Fossa das Filipinas, chamado Galathea, seu cume ainda estaria a mais de 1,6 km debaixo d'água.
Ninguém sabe ao certo quanto tempo levou para o USS Johnston chegar ao fundo do oceano.
Ele afundou passando por cada camada do Mar das Filipinas, estágios distintos que se tornam cada vez mais escuros, mais frios e inóspitos.
Depois de 100 m, a luz solar teria começado a desaparecer. Passados 200 m, Johnston teria entrado na zona crepuscular, uma vasta camada de quase um quilômetro de profundidade que marca o fim do efeito da luz do Sol no oceano.
A temperatura teria despencado à medida que afundava. A 1.000 m, o casco avariado de Johnston teria mergulhado em águas apenas alguns graus acima de zero, no que os oceanógrafos chamam de zona batial, também conhecida como zona da meia-noite.
Nenhuma planta ou fitoplâncton cresce aqui, pois a luz do Sol não é capaz de penetrar tão fundo. A água é congelante — e esta zona sombria é escassamente habitada por vida.
Os animais que vivem aqui evoluíram para sobreviver no frio e na escuridão implacável.
Os olhos são inúteis, assim como as fibras musculares de contração rápida, com as quais as presas podem contar para escapar de predadores em outros lugares. Mas aqui embaixo consomem muita energia para valer a pena.
Os peixes que vivem aqui se parecem pouco com os que nadam perto da superfície. São macios e escorregadios ao toque. Alguns são cegos, e outros quase transparentes.
De que servem as escamas de camuflagem quando seus predadores — criaturas aterrorizantes que ficam suspensas no escuro — não têm olhos?
A profundidade média dos oceanos do mundo é de 3.688 m, mais de duas milhas de profundidade.
Foi em águas tão profundas como esta que o RMS Titanic afundou em sua malfadada viagem inaugural em 1912. Mas o mergulho mortal de Johnston foi muito, muito além.
Passados 4.000 m, está a zona abissal, com a temperatura da água pairando um pouco acima do congelamento e o oxigênio dissolvido a apenas cerca de três quartos do da superfície do oceano.
A pressão é tão intensa que a maioria das criaturas não é capaz de viver aqui.
Aquelas que conseguem diferem de seus primos de águas rasas em quase todos os aspectos — os peixes possuem anticongelante no sangue para mantê-lo fluindo no frio intenso, enquanto suas células contêm proteínas especiais que os ajudam a resistir à intensa pressão da água que de outro modo os esmagaria.
Mas o oceano é ainda mais profundo.
Descendo ainda mais, está a zona hadal, outra camada encontrada a 6.000 m abaixo da superfície.
A zona hadal é encontrada nas fossas oceânicas mais profundas, sobretudo no Oceano Pacífico, onde placas tectônicas gigantes convergem muito abaixo das ondas.
O oceanógrafo dinamarquês Anton Frederik Bruun cunhou o termo na década de 1950, quando a tecnologia avançou o suficiente para permitir a primeira exploração cautelosa destes abismos submarinos.
O termo hadal vem de Hades, o antigo deus grego do submundo.
A escuridão é total, as temperaturas são quase congelantes e a pressão é cerca de 1.000 vezes maior do que a nível do mar.
Finalmente, é aqui que emerge a base da Fossa das Filipinas.
Muitos dos pontos medidos ao longo de seu comprimento têm cerca de 10.000 m de profundidade — e, em seu ponto mais baixo, atinge 10.540 m abaixo do nível do mar.
Em algum lugar dentro desta vasta trincheira submarina, o USS Johnston finalmente pousou. Mas a localização exata era muito difícil de prever.

Crédito, Xavier Desmier/Gamma-Rapho via Getty Images
A superfície do oceano não é de forma alguma inexpressiva, mas seu anonimato pode tornar a localização exata das batalhas navais uma tarefa desafiadora.
Não há monumentos, tampouco características topográficas que ajudem na identificação.
Sob as ondas, as correntes e o padrão das marés podem levar os naufrágios para longe do local onde afundaram.
Passariam 75 anos até que os seres humanos vissem o USS Johnston novamente. O primeiro foi Victor Vescovo.
Vescovo, de 54 anos, é um ex-oficial de inteligência da Marinha americana, que se tornou gestor de capital privado com paixão por exploração e oceanografia.
Ele já escalou o Monte Everest e visitou os polos Norte e Sul.
"Sou um alpinista hardcore há 20-25 anos, e quando eu já havia feito muitas das coisas que queria fazer nesta área, eu estava procurando um desafio diferente, e vi isso como uma boa coisa simétrica a fazer: ir para as profundezas dos oceanos", disse ele à BBC Future de sua casa no Texas.
"E acabou que ninguém tinha estado no fundo de todos os cinco oceanos do mundo. Nunca haviam estado no fundo de quatro deles."
Ele, que diz ser uma pessoa de exatas, acreditava que a questão não era de tecnologia, mas de financiamento.
"Seria muito caro — mas era factível", diz ele.
"Então eu assinei o cheque, reuni a equipe e, nos três anos seguintes, projetamos e construímos o submersível de mergulho mais profundo da história que é capaz de fazer isso repetidamente, o que não existia antes, e então o levamos ao redor do mundo."
Vescovo testou seu novo submarino, chamado Limiting Factor, mergulhando sozinho no fundo da Fossa de Porto Rico — o ponto mais profundo do Oceano Atlântico, com dois terços da profundidade do ponto mais profundo dos oceanos no mundo.
No início de 2020, Vescovo participou de uma missão científica com um oceanógrafo filipino. Eles se tornaram as primeiras pessoas a mergulhar até o fundo da Fossa das Filipinas.
"E aconteceu que a um dia ao norte dali está o campo de batalha de Samar", afirma.

Crédito, Mike Marsland/Getty Images
"Sou 'historiador militar' desde criança e também servi a Marinha dos EUA por 20 anos, então sabia muito sobre a batalha. Achei que seria uma tentativa interessante tentar encontrar o naufrágio."
A tentativa de Vescovo não foi a primeira — a história do USS Johnston cativou muitos exploradores e oceanógrafos ao longo das décadas.
"A Vulcan Organization percorreu o mundo procurando naufrágios da Segunda Guerra Mundial por muitos anos. Mas estavam limitados à sua capacidade de ir mais fundo do que 6.000 m, porque usam apenas veículos operados remotamente. Então, eles realmente encontraram destroços do Johnston — estavam tentando encontrar o naufrágio mais profundo também —, mas encontraram apenas uma parte, e não era muito reconhecível."
Encontrar o Johnston se tornou mais desafiador porque um destróier semelhante, o USS Hoel, também afundou no mesmo combate.
"Eles não conseguiram identificar com certeza que era o Johnston", conta Vescovo.
"E não podiam ir mais fundo. O limite do veículo operado remotamente deles era de 6.000 m. Eles conseguiam ver que havia mais detritos mais abaixo, então desceram mais 200 m, arriscando implodir, mas não foram capazes de ver a maior parte do naufrágio."
A missão da Vulcan quase provou onde o USS Johnston estava, mas a pressão esmagadora do oceano Pacífico profundo os impediu de ter certeza.
Vescovo acreditava que seu submarino recém-projetado poderia confirmar a informação.
Embora a equipe da Vulcan não tenha compartilhado a localização, Vescovo diz que "havia pistas suficientes no código aberto".
"Botei meu chapéu de oficial de inteligência e fomos capazes de concluir onde provavelmente estava."
Vescovo e o historiador naval Parks Stephenson se aventuraram no submarino sob as ondas na esperança de encontrar o naufrágio.
"Ele nunca havia mergulhado em um submarino antes", conta Vescovo.
"Eu disse a ele: 'Coisas estranhas acontecem lá embaixo'. A visibilidade é terrível, é muito confuso quando você desce abaixo de 500 m ou 1.000 m, quanto mais 6.000 m. E tudo fica mais difícil. Ele falava: 'Não, não, não, eu estou 99% convencido de que vamos encontrá-lo, está aqui'. Claro, em nosso primeiro mergulho, ficamos lá por quatro horas e não encontramos nada."
Um segundo mergulho também não revelou nenhum sinal do naufrágio. Eles se dirigiram então para outro local para o terceiro mergulho.
Desta vez, foi mais bem-sucedido — eles redescobriram o campo de detritos que o submersível da Vulcan havia encontrado anteriormente.
"Com meu submarino, consegui seguir o rastro de onde o navio havia cavado um V na encosta debaixo d'água, e seguimos por mais 500m de profundidade. E foi aí que encontramos os dois terços da frente do navio de forma intacta e excelente, com o número [de identificação naval] ali mesmo — 557. Identificação confirmada."
A última morada do USS Johnston era a mais de 6 km de profundidade.
"É mais profundo do que onde o Titanic está — e que é muito profundo, são 4.000 m", diz Vescovo.
"O que era tão interessante sobre este naufrágio, é que era cerca de um vigésimo do tamanho do Titanic, então é muito menor."
O trabalho necessário para encontrar naufrágios nestas profundidades é deliberado e meticuloso.

Crédito, Getty Images
"Trata-se de encontrar o chamado 'rastro de sangue', encontrar uma parte dos destroços, depois encontrar outra e enfim localizá-lo", explica Vescovo.
"Porque o oceano é muito, muito, muito grande, e os destroços são muito, muito, muito pequenos."
Apenas uma pequena fração dos oceanos do mundo chega a ter uma profundidade de 6.000 m, então há pouco incentivo para financiar tecnologia para explorá-los.
Mas Vescovo pensa diferente:
"Como eu quero ir mais fundo e procurar coisas no fundo, estamos desenvolvendo agora um sonar de varredura lateral que pode operar a 10.000 m, que nunca foi desenvolvido antes."
Se der tudo certo, o novo equipamento permitirá que o submarino de Vescovo faça um mapa do fundo do oceano em faixas de até 1,5 km de largura "para que possamos realmente fazer buscas oceânicas profundas por naufrágios ou qualquer outra coisa que esteja no fundo do oceano", diz o explorador.
Os primeiros testes usando este novo sonar de varredura lateral serão feitos na primavera de 2022 — na costa da Ilha de Samar.
"Vamos usar o Johnston", explica Vescovo.
"Vamos usar o Johnston como uma forma de testar o sonar para ter certeza de que funciona corretamente, e então vamos descer ainda mais, onde temos certeza de que o Gambier Bay, o Hoel e alguns dos naufrágios japoneses estão, em uma profundidade ainda maior. Eles podem estar a 8.000 m, mas ninguém tem ideia de onde estão, e esperamos que vamos encontrá-los."
***
Se você jogasse uma pedra para fora de um barco acima da Depressão Challenger, na Fossa das Marianas — o ponto mais profundo dos lugares mais profundos do oceano —, levaria mais de uma hora para que ela finalmente chegasse ao fundo.
"Levamos quatro e meia", diz Vescovo.
"E o submarino foi projetado para subir e descer rápido! É um longo, longo caminho para baixo, e o ambiente lá é inacreditavelmente hostil. Quando você vai do nível do mar para o espaço sideral, você sai de uma pressão atmosférica de 1 (atm) para zero, é um vácuo. Quando você vai para o fundo da Fossa das Marianas, você sai de 1 atm para 1.100, imerso em água salgada, e faz muito frio. É simplesmente uma tortura para qualquer coisa física."
***
Um dos maiores desafios de Vescovo era garantir que tudo — desde baterias até sistemas de propulsão do submarino —, continuasse funcionando em profundidades tão avassaladoras, mergulho após mergulho.

Crédito, Caladan Oceanic
As missões da Limiting Factor neste inóspito mundo secreto ajudaram, pouco a pouco, a aumentar o pequeno clube de seres humanos que viu o ponto mais profundo do oceano.
"Antes de iniciarmos nossa empreitada, há três anos, apenas três pessoas haviam estado no fundo da Fossa das Marianas e cerca de 12 pessoas haviam caminhado na superfície da Lua", diz ele.
"Nós mudamos isso agora — consegui levar 15 pessoas para o fundo da Depressão Challenger. Agora, mais gente esteve no espaço do que no fundo da Challenger, mas estamos tentando compensar."
Uma vez que a embarcação mergulha abaixo das águas agitadas da superfície, "é notavelmente pacífico", observa Vescovo.
"Na superfície, você fica chacoalhando, mas quando você mergulha debaixo d'água fica muito silencioso, você ouve apenas o zumbido dos ventiladores e escurece muito rápido — a 500m, na verdade, não há luz solar. Não há nem sequer sensação de movimento, o submarino pode estar girando suavemente e você nem percebe. E as criaturas ficam longe do submarino, ou você simplesmente não as vê porque as janelas são tão pequenas, então é como se você estivesse em uma pequena máquina do tempo, apenas sentado lá."
"Estou monitorando tudo, me certificando de que as coisas estão indo bem, mas os passageiros esperam até chegarmos ao fundo. A piada que a gente faz é que quando você está descendo, um minuto parece cinco minutos porque você quer chegar lá e está ansioso. Quando você chega ao fundo, um minuto parece um segundo porque tem tanta coisa acontecendo, você está olhando para fora, está empolgado, e então um minuto subindo é como uma hora, porque você só quer chegar à superfície."
As missões de Vescovo em busca de navios de guerra há muito tempo perdidos, como o USS Johnston, seguem uma regra muito simples: olhe, mas não toque.
"Qualquer naufrágio militar continua sendo propriedade do país de origem, independentemente de onde esteja, então você não pode tirar nada deles, a menos que tenha permissão. O mesmo vale para o Johnston. Então fomos muito respeitosos, não tocamos no naufrágio, não levamos nada. Mas as pessoas também não percebem se é o Titanic ou o Johnston, esses naufrágios são tão profundos, e a água salgada tão corrosiva, que não há corpos, não há roupas, (tudo) se desintegra. É um mausoléu vazio que é mais um símbolo das pessoas que morreram lá."
Mas nem todos os descendentes daqueles que morreram querem que a última morada de seus entes queridos seja perturbada.
Os naufrágios podem ser invisíveis, muito abaixo da superfície do oceano, mas os familiares das vítimas às vezes têm sentimentos fortes.
Vescovo encontrou resistência antes, quando planejava inspecionar outro naufrágio, o famoso USS Indianapolis.
Enviado em uma missão secreta para entregar a primeira bomba atômica a uma base de bombardeiros nas Ilhas Marianas do Norte, o Indianapolis foi torpedeado por um submarino japonês. Os 900 tripulantes sobreviventes foram deixados à deriva por quatro dias — aproximadamente 600 morreram de desidratação, exposição ou ataque de tubarão.
"Pensei em mergulhar nele no ano passado, mas houve um clamor das famílias dos veteranos. Disseram que não queriam que eu mergulhasse, e eu falei: 'Ok, tudo bem, não vou mergulhar'", conta Vescovo.

Crédito, Caladan Oceanic
"Eles foram muito eloquentes sobre não quererem que eu perturbasse o naufrágio."
"Os grupos associados a todos os naufrágios parecem ser diferentes. Por exemplo, as pessoas apoiaram muito meu mergulho no Johnston, talvez porque não tivesse sido identificado, e o Indianapolis havia sido identificado... mas você simplesmente tem que respeitar a vontade deles, foram os familiares deles que morreram. Eu não vou ser um intruso e fazer o que der na telha e ignorar a vontade de todo mundo."
As missões de Vescovo dependem de um conjunto bastante especializado de habilidades.
"Tenho certificado de piloto de teste de submarino, que é algo que eu não acho que você realmente queira ter, mas quando estávamos desenvolvendo e construindo (o submarino), tivemos algumas situações em que equipamentos eletrônicos falharam ou houve uma nuvem de fumaça na cápsula — o que decididamente não é legal —, mas mesmo nesse caso tínhamos sistemas de backup e planos de ação de emergência. Nunca senti que minha vida estava em perigo."
"O mergulho mais perigoso que já fiz foi no Titanic, e isso porque o Titanic é muito, muito grande, há fios, cordas, cabos. O maior perigo para um submersível é o emaranhamento, e isso acontece perto de naufrágios. Diferentemente de quando James Cameron mergulhou no Titanic — ele mergulhou com dois submersíveis —, eu mergulhei sozinho em um. Se eu ficasse preso, teria que usar meus próprios recursos para sair. Isso pode ser um pouco complicado. E ninguém pode vir te buscar."
Sem luz natural, as ameaças só aparecem quando estão ao alcance das luzes do submarino.
"O Johnston, na verdade, me deu um pequeno susto", relembra Vescovo.
"Nós o contornamos e bem na parte de trás dele, havia um pedaço de metal bem grande com cerca de 15 pés de comprimento, se projetando para fora em um ângulo reto, e quando você está em um submersível você não é capaz de ver tão bem. Nós estávamos dando uma volta, e eu pensava: 'F****'. Você não sabe o quão afiado é ou qual o ângulo, e é possível que possa prender o submarino. Seria um dia péssimo. Tenho certeza que conseguiríamos sair, temos muita potência no submarino e podemos ejetar coisas. Mas você nunca, nunca quer estar em uma situação em que realmente precise descobrir uma maneira de sair de algo em um submersível quando está a 6.000m de profundidade."
A descoberta mostrou que Johnston afundou relativamente intacto, apesar dos enormes danos causados pelas armas dos navios de guerra japoneses.
"O Johnston estava muito profundo, ainda mais profundo que o Titanic, havia menos corrosão, menos vida nele, então parecia mais intocado do que o Titanic, não tinha todas aquelas estalactites penduradas, a ferrugem. Você podia ver as cicatrizes de batalha no navio, onde os projéteis entraram e o atingiram, as armas ainda estavam apontadas para a direita, o navio ainda parecia estar lutando."

Crédito, Getty Images
Visitar naufrágios profundos, como o USS Johnston, oferece muito mais do que apenas o direito de se gabar. Também pode ajudar a reunir informações que podem estar faltando sobre a batalha.
"Somos historiadores amadores, e embora a gente leia as histórias e as pessoas pensem que sabem o que aconteceu na batalha, é tudo muito confuso na batalha, e o que dizemos é que o aço não mente", afirma Vescovo.
"Ao investigar de perto os buracos dos projéteis, até mesmo o ângulo dos projéteis, podemos fazer com que os naufrágios nos contem a história do que aconteceu. É mais um ponto de vista da batalha. É bastante irrefutável em comparação com a memória humana, que pode ficar bastante confusa. A partir do naufrágio, descobrimos coisas que as pessoas não se deram conta sobre a batalha."
As investigações de Vescovo, ele acredita, reforçam a ideia de que Johnston foi atingido pelo Yamato, o maior navio de guerra já construído.
"Foi o Yamato que realmente deu os primeiros golpes mortais nele... por que alguém se importa? Este foi o maior navio de guerra já construído pelo homem, e foi enfrentado por um pequeno destróier americano. Era David e Golias. E o Yamato realmente foi embora — (o Johnston) o afugentou."
As batalhas navais travadas nos oceanos do mundo no século 20 são um mundo rico a ser descoberto por exploradores como Vescovo.
"Adoraria encontrar os naufrágios japoneses (da Batalha) de Midway", diz ele, fazendo referência aos quatro porta-aviões japoneses afundados em uma batalha naval crucial em 1942.
"Seria extraordinário encontrá-los porque são navios icônicos da marinha japonesa, são fonte de muito orgulho para o povo japonês, seria bom identificá-los."
Há outro navio na lista de Vescovo: o próprio encouraçado Yamato.
Em abril de 1945, o gigantesco navio foi enviado em uma missão para interromper os desembarques americanos na Ilha de Okinawa.
O comandante do Yamato foi instruído a encalhar o navio na costa e usá-lo para bombardear a invasão dos EUA.
Surpreendido por uma enorme frota de aviões americanos, ele foi afundado, provocando a morte de mais de 3 mil pessoas.
"Na verdade, ele está a apenas cerca de 300m ou 350m debaixo d'água", diz Vescovo.
"Foi visitado, pelo menos por um robô, mas não sei se já foi visitado por humanos antes. Agora, eu seria extremamente sensível em relação a isso, porque é um naufrágio muito importante para o povo japonês. Nunca tentaria mergulhar neste naufrágio sem o consentimento deles, sem o envolvimento deles."
A exploradora oceânica Sylvia Earle tem sido uma proeminente defensora de uma maior exploração do mundo submarino oculto. "Não fizemos o investimento para entender o que está lá. Apenas cerca de 5% foi visto, muito menos explorado", disse ela em entrevista à NPR em 2012.
Vescovo também é entusiasta da causa, especialmente em relação àqueles lugares tão profundos que permanecem fora do alcance dos olhos humanos.
"Isso tem enormes implicações para a biologia marinha, virologia marinha, mas também para a geologia, para analisar as rochas e placas tectônicas e tudo isso", diz ele.
"E ainda tem o mapeamento — 80% do fundo do mar oceânico não está mapeado, e queremos andar por aí e mapear isso somente porque é algo que deve ser feito."
"A beleza do oceano é que é tão inexplorado, é como uma tragédia de tesouros. Onde você quer ir agora? Qualquer lugar que você vá, será novo. Por onde você começa?"
* Stephen Dowling (@kosmofoto) é subeditor da BBC Future.
Leia a íntegra desta reportagem (em inglês) no site BBC Future.

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