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Atualizado às: 15 de janeiro, 2009 - 10h55 GMT (08h55 Brasília)
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Obama, o negro e o sonho

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão
Na hora de falar, ler e escrever, o presidente que sai é um palavrão.

O que entra é um mestre. Um dos presidentes mais educados, cultos e eloqüentes da história americana, um devorador de livros, redator de uma newsletter durante dois anos em Nova York e autor de dois livros, entre eles Dreams of My Father, um primor de texto.

Durante a campanha, Obama fez milhares de discursos, só um deles sobre a questão racial, provocado por comentários do pastor Wright da igreja de Obama em Chicago. Foi um discurso com uma abordagem ética, filosófica e social e, em nenhum deles, contou suas experiências - e da família - com discriminação racial. Algumas são fascinantes e contadas com detalhes no livro dos sonhos do pai.

A primeira que ele conta foi com a mãe, Ann, que então tinha dez anos e morava no Texas. O nome dela era Stanley Ann, porque o pai queria um filho, e, num momento pouco inspirado, deu à filha o nome dele. Este era um dos motivos de deboche e constrangimento na escola. Um dos apelidos dela era Stan the Man.

A futura mãe de Obama era uma menina retraída, em geral solitária, mas um dia voltou para casa com uma colega negra. As duas estavam brincando no jardim quando chegaram garotos e garotas brancas da vizinhança e começaram a insultar e um deles jogou uma pedra. A mãe de Ann chegou no momento exato e a meninada saiu correndo, mas o choque deixou Ann paralisada. A amiga negra saiu às carreiras.

O avô de Obama vendia móveis e o patrão disse a ele que se negros e mexicanos entrassem na loja deveriam ser avisados para voltar depois das seis e que seriam responsáveis pelo pagamento da entrega dos móveis.

Stanley, avô de Obama, disse que saiu do Texas por causa de discriminação racial, mas Obama acha que isto é revisionismo do velho. O negócio ia mal.

Esta história que o Havaí era integrado e que a cor de Obama fazia parte no cenário é fantasia. Ele e uma menina chamada Coreta eram os dois únicos negros na escola e os colegas debochavam não só do nome como do cabelo dele.

Obama dizia que era filho de um rei tribal do Quênia e que era o sucessor do pai, mas teria de lutar com um leão antes de assumir o posto de rei. Era uma luta constante de afirmação e de identidade.

Um dia entrou no elevador do prédio em que morava logo atrás de uma mulher branca. Ela saiu, chamou o síndico e disse que estava sendo seguida por Obama. Mesmo depois de explicar que ele morava no prédio ela não pediu desculpas.

Um dia Obama estava conferindo a tabela dos jogos de tênis quando o instrutor disse a ele para não tocar no papel porque podia manchá-lo com a tinta da pele.

Obama engoliu a maioria dos insultos, mas tirou sangue do nariz de um colega quando foi chamado de "coon", um insulto racial aos negros, associado ao racoon (racum, ou guaxinim).

Durante um mês, quando tinha dez anos, o pai, que tinha abandonado a mãe quando Obama tinha 2 anos, foi passar um mês com ele a família - os avós e a mãe - no Havaí. No Natal, ele deu ao filho uma bola de basquete, mas Obama só levou o esporte à sério alguns anos mais tarde, quando viu o prestígio do time da escola, na maioria negros que tinham vindo de Honolulu para reforçar a equipe.

Obama percebeu que a quadra era igualitária. Os jogadores eram posudos, confiantes, debochados. As meninas ferviam neles. Eles se impunham pelo jogo. Cor, fama, dinheiro, nem prestígio social, entravam na equação.

Tornou-se um obcecado pelo esporte. Do décimo andar, a avó observava o neto jogando sozinho até tarde da noite, apurando os arremessos e dribles. Quando entrou no time, se sentiu dono do pedaço. Os complexos foram neutralizados e aprendeu a reagir às provocações.

Um dia, o técnico do próprio time disse a ele e dois outros jogadores que o time não podia perder de um bando de niggers, se referindo ao time adversário.

Obama fez a cobrança da linguagem e o técnico explicou que “há negros e niggers e aqueles eram niggers” . Insultado, saindo da quadra, Obama disse a ele que "há gente branca e motherfuckers como você”.

Vários colegas, desde o Havaí, tentaram convencer Obama que ele era uma vítima de discriminação, mas ele sempre tentou ver a questão de ângulos diferentes. Nunca guardou ressentimento.

A única lembrança que Obama tem do pai é daquele mês com o pai no Havaí. O encontro gerou tantas angústias quanto prazeres, mas o pai, apesar de ausente, pesava, e, de vez em quando, escrevia cartas com aforismos e conselhos e um que atá hoje Obama não conseguiu decifrar.

"Um dia", escreveu ele, "como a água que encontra seu nível, você vai encontrar uma profissão adequada".

O pai não sabia de nada.

Arquivo - Lucas
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