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Atualizado às: 08 de dezembro, 2008 - 10h48 GMT (08h48 Brasília)
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Ainda os blogs

Ivan Lessa (ilustração de Baptistão)
Para que eu fui falar mal da proliferação desenfreada de blogs? Choveram mais de 4 emails reclamando de mim. Reclamando é os tinflas. Me xingando, isso sim.

Isso é recorde para mim. Dois deles me assaltaram com porrada verbal.

Curiosamente, com as vírgulas e até mesmo um ou outro ponto e vírgula, tudo certinho em seus lugares. Um pediu minha cabeça à alta direção desta honrada casa para onde colaboro. Tradicional hábito auri-verde. Outro não fazia o menor sentido. Também coisa nossa, nossa coisa. Coisa, enfim, de blogueiro em potencial ou começo de carreira blogal.

Por coincidência, na quarta-feira, 3 de dezembro, no programa The Daily Show, do comediante Jon Stewart, visto aqui 24 horas depois de televisado nos Estados Unidos, lá estava como convidada para os habituais cinco minutos de entrevista, no finzinho dos 30 minutos do programa, Arianna Huffington (née Stassinopoulos), que já pernoitou anos e anos a fio em Londres até acertar os ponteiros de sua vida nos Estados Unidos casando-se com o milionário Michael Huffington, homem ligado também, e parece que em primeiro lugar, ao petróleo.

Arianna é popularíssima no outro lado do Atlântico. Não só devido à publicação de duas controvertidas biografias, de Maria Callas e Picasso. A primeira delas, por sinal, andou pintando nos tribunais em meio a acusações de plágio. Não deu em nada. Acertaram as contas no escritório dos advogados. Lembro muito de Arianna e seus anos de Londres. Aqui viveu entre 1971 e 1980, tendo inclusive, dado um jeito de se mestrar em economia na Universidade Cambridge.

Arianna pegou muito bem o espírito econômico que se encontro por trás do aparecimento desenfreado na mídia. Arianna ia de tudo. Doidíssima para aparecer. Onde desse (sem segundo sentido) e onde quem a quisesse. Televisão, rádio, jornal, história em quadrinhos. Bobeou e lá estava a grande (e ela é biguana) grega. Ao que tudo indica, sua mudança para o outro lado do Atlântico, além de fazer todo o sentido do mundo, não deixou saudades por cá, para ser franco e maldoso como um blogueador em início de carreira.

Mas ao que interessa. Arianna fôra convidada pelo programa do excelente Jon Stewart para promover três coisas. Primeiro, ela mesmo, que hábito não se muda de uma década para outra. Segundo, seu livro, que logo no título diz de que trata: como criar seu próprio blog. Segundo, para reforçar o sucesso do blog que comanda como uma brava, ou enfezada, Leônidas (guerreiro grego, gente; aquele do “melhor, lutaremos à sombra”), The Huffington Post.

Cabe aqui uma confissão. Eu dou uma passada de olhos no THP. Ocasionalmente. Me registrei e tudo. E parece que estou certo. Não entendo nada, não me interesso por duas linhas que leio. Arianna, no decorrer de sua mini-entrevista, explicou que blog era um rascunho, era a história vista de relance e anotada em cima da perna, nas coxas, por assim dizer – e a alegoria é minha. Arianna falou, alto sempre, sorriu, distribuiu sotaque grego e esquerdismos da moda e aí me deu o dado que me pegou como um soco na boca do estômago.

Segundo Arianna, surgem por dia 50 mil blogs novos. Creio – e espero – que ela estivesse apenas se referindo ao país por ela adotado, os EUA ainda de Bush, logo mais de Obama. Caso positivo, não foi só soco. Veio com uma combinação digna de Muhammad Ali e me botou a beijar a lona da sala lá de casa. Nocaute dos mais puros.

Se são 50 mil por dia só lá nas terras que Arianna resolveu contemplar com sua nacionalidade, que dizer do mundo? Esse mesmo mundo onde jazem, ou melhor, ficam andando pra lá e pra cá, matutando e murmurando coisas, gente inquieta feito brasileiros, franceses, ingleses, nigerianos, italianos e por aí afora? Tudo mais ou menos alfabetizado. Tudo bastante dogmático e teimoso. Tudo doido para aparecer, feito a Arianna (há uma grande escassez de milionários americanos petroleiros no mercado). O negócio é sair correndo na frente e ir passando a perna na possível concorrente.

Do jeito que as coisas vão, dia virá em que, como não (e sublinho o não) disse o cientista político Francis Fukuyama, a história e a História terminarão para valer mesmo, sem firulas filosóficas, e só sobrarão gentes se blogueando umas às outras, sempre nas coxas, como sugeriu Arianna Huffington. Ao fundo, nuvens e mais nuvens em forma de cogumelo.

Só os não-informatizados sobreviverão à “catastre”, como a chamavam os técnicos de futebol de praia.

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