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Atualizado às: 26 de setembro, 2008 - 20h53 GMT (17h53 Brasília)
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Cautela ajuda França a resistir à crise financeira

Estátua da Liberdade e Torre Eiffel (arquivo)
EUA e França: formas diferentes de lidar com as finanças
Ao contrário de Estados Unidos, Grã-Bretanha e vários outros países desenvolvidos, a França parece não estar vivendo grandes problemas com a crise financeira global.

Isso talvez possa se explicar pelas características do sistema financeiro francês, que poderia ser descrito como “cauteloso”.

Os bancos franceses tomam muito cuidado em relação a quem eles emprestam dinheiro e, para limitar riscos, dividem seus investimentos de maneira muito mais ampla do que as instituições nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

Só 25% da atividade bancária está ligada a investimentos e atividades de negociadores e corretoras - o resto está ligado ao atendimento direto aos clientes, ou varejo.

Isto significa que quando a crise de retração de crédito começou, os bancos franceses foram atingidos de maneira muito menos dura do que os de vários outros países.

E essa prudência não é só em relação a bancos de investimento - este país como um todo parece gostar de correr menos riscos.

Não é que tentação do consumo não exista na França. A sedução do consumo no país é tão forte quanto nos outros lugares, mas nele é muito difícil gastar dinheiro que não se tem.

Os cartões de crédito franceses são quase como cartões de débito, então não há como comprar artigos de luxo na expectativa de saldar a dívida mais tarde. Na França, se você não tem dinheiro suficiente na sua conta, o seu banco vai bloquear a transação imediatamente.

Hábitos de consumo

No abonado subúrbio parisiense de Germain-en-Laye, conversei com François Artignan, um banqueiro que viveu na Grã-Bretanha. Ele fala da diferença dos hábitos de consumo dos povos dos dois lados do Canal da Mancha.

"As pessoas aqui (na França) não acreditam que você pode simplesmente juntar suas dívidas e conseguir um refinanciamento. Mas em Londres é como se riqueza fosse algo que você consegue no banco. Parece que as pessoas acreditam em um tipo de milagre."

 Geralmente na França você gasta o que tem e nada mais
Alexander Law, economista-chefe da empresa de análise de mercado Xerfi

"Parece-me que as pessoas lá estão muito ansiosas para gastar todo o dinheiro que possuem, e isso é preocupante quando você imagina como as pessoas vão ter dinheiro para a aposentadoria, por exemplo", afirmou Artignan.

O economista-chefe da empresa de análise de mercado Xerfi, Alexander Law, comparou o padrão de gastos entre França e Grã-Bretanha.

Law acredita que os franceses são prudentes por natureza e isso os salvou do desastre.

"Geralmente na França você gasta o que tem e nada mais", explicou ele.

"Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, a economia vem sendo guiada pelo endividamento privado, o consumo é guiado pelo crédito. (Isso acontece) muito menos na França, então é por isso que quando houve períodos de expansão a França cresceu muito mais devagar do que a Grã-Bretanha e os Estados Unidos mas, da mesma forma, quando (o crescimento) está desacelerando, ele desacelera de uma forma mais moderada."

O ritmo de crescimento da França é muito lento - neste ano parece que vai ficar em torno de apenas 1%, indicando que provavelmente o país ficará longe de cumprir a meta que prometeu à União Européia de controlar o seu déficit orçamentário até 2012.

Mas, embora sua economia menos dinâmica não seja invejável para o resto do mundo, sua relutância em atrelá-la ao mercado imobiliário da mesma forma que fizeram os Estados Unidos também implica que quando o mercado subprime americano entrou em colapso, ele não arrastou consigo o mercado francês.

Há muito menos proprietários de imóveis na França do que na Grã-Bretanha - cerca de 57% dos franceses compraram imóveis, em comparação a 70% dos britânicos.

 Eu acho que nós temos de deixar esse mundo de fantasia e encarar a realidade. Tem de existir mais princípios, mais disciplina e um pouco mais de realidade.
Christine Lagarde, ministra das Finanças da França

Embora Artignan tenha uma renda alta, só aos 43 anos de idade ele conseguiu comprar pela primeira vez uma casa porque na França, se você não tiver um grande depósito, não adianta implorar aos bancos por um empréstimo grande.

Sarkozy

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, está tentando fazer com que seu país se torne uma nação de proprietários de suas residências por meio da construção de milhares de casas novas baratas.

Mas a França ainda acredita em normas e regulamentos rigorosos, disse a ministra das Finanças, Christine Lagarde.

"Espere duas condições: um depósito inicial de 20% do valor da casa e um empréstimo que não ultrapasse 30% dos rendimentos."

"Você já tem uma rede de segurança muito boa aqui e claramente nenhum financiamento de propriedade semelhante ao mercado subprime que existia nos Estados Unidos e que feriu tanto o sistema financeiro", afirmou Lagarde.

Há muito tempo a França vem se ressentindo do aumento global do preço de alimentos e combustíveis, e muitas pessoas aqui reclamam que seu poder aquisitivo está diminuindo rapidamente.

Na França, 46% das pessoas preferiram ficar em casa nas férias de verão este ano em vez de gastar dinheiro em viagens caras, e muita gente está gastando menos jantando fora - tanto que cerca de 3 mil restaurantes e cafés faliram nos primeiros três meses deste ano.

Gastos

Menos gasto significa menos crescimento - mas será que outros países deveriam seguir a receita francesa?

"Eu não estou sugerindo que eu tenho os princípios básicos corretos, eu não estou sugerindo que nós podemos ensinar lições ao mundo", disse Lagarde.

"Mas eu acho que caberá a cada categoria - reguladores, negociadores, supervisores - examinar o que eles fizeram, o que eles deveriam ter feito e o que eles deverão fazer no futuro para que o sistema tenha um pouco mais de moralidade", afirmou.

"Eu acho que nós temos de deixar esse mundo de fantasia e encarar a realidade. Tem de existir mais princípios, mais disciplina e um pouco mais de realidade", disse a ministra.

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