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Atualizado às: 14 de abril, 2008 - 10h11 GMT (07h11 Brasília)
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Conversão e conversa de Salman Rushdie

Ivan Lessa
“Santo Alá! Pelas barbas do profeta! Onde é que eu estava com a cabeça! Essa mesmo, a que foi a prêmio!”

Foi o que esclareceu finalmente o laureado ficcionista (e botemos ficção nisso) sir Salman Rushdie.

Custou mas veio a explicação. Seria, adaptando o que andam dizendo no Brasil, uma espécie de Bolsa-Fatwah.

Logo após a publicação de seu controvertido (e botemos controvérsia nisso) romance, Os versículos Satânicos, Salman, que ainda não era Cavaleiro do Reino, converteu-se, ao menos no papel, ao Islamismo, numa tentativa de jogar água fria naqueles que, além de queimarem seu malfadado romance, ainda queriam aproveitar a fogueirinha e nela tacar o laureado escritor anglo-indiano.

Isso foi em 1990. Salman distribuiu para a imprensa, e fanáticos alfabetizados, uma profissão de fé em que afirmava ter resolvido “abraçar o Islamismo”. Talvez até, pinçando nas entrelinhas, abraçar, dar uns tapinhas nas costas e dar dois beijinhos, um em cada lado do rosto da popular religião.

Salman alegava, então, ter renovado sua fé muçulmana e, juntando a fome com a vontade de comer alguém, repudiou os ataques e deboches contidos no satânico romance e jurou por Alá que, daquela data em diante (continuamos em 1990), passaria a dedicar todo seu tempo no sentido de trabalhar por uma melhor compreensão da religião em todas as partes do globo.

Foi uma beleza. Teve gente que ficou impressionadíssima. Católicos, protestantes e judeus pararam, coçaram a cabeça e disseram para seus amigos padres, reverendos e rabinos: “Não é que esse cara é bom mesmo? Muito gente.”

***

Uma pequena pausa para explicar por que me refiro ao livro como Os versículos satânicos e não Os versos satânicos.

Simples. Porque ele, o bem sucedido ficcionista, no volume em questão, referia-se aos “versículos” do Corão e não aos versos, que versos o Corão não tem.

Corão é feito a Bíblia: tem versículos, ou seja, versos pequenos.

Não me queiram mal só por causa disso. Não me queimem nem a mim nem à minha efígie. Cessam nos versículos todas as semelhanças, ou um bom bocado delas.

Também nunca é demais lembrar que o Brasil foi um dos últimos países, ditos civilizados, se não o último, a publicar o livro (e com o nome de “versos” no título) em questão.

Claro que, para variar, botando os pés pelas mãos e chamando de “Versos”.

Em 1990, nós vivíamos sob o tacão militar. Os militares estavam atentos a tudo. Não perdoavam nada. Queriam distância de qualquer confusão.

Confere? Não, não confere.

Nós estávamos serenamente sendo os inconsequentes de sempre. De terninho e gravata ou camisa aberta ao peito. Os de verde-oliva já haviam saído de campo e limitavam-se a criar as condições necessárias para a instauração de gordas e gostosas indenizações indevidas.

***

Ao que interessa: sir (agora sim) Salman Rushdie, gravou uma entrevista que será transmitida em maio pelo More 4, um canal de televisão britânico, dentro do programa Shrink Rap (Papo com Analista).

No rap, ou papo, sir Salman faz a espantosa revelação: foi tudo um embuste. Sir Salman estava apenas fingindo que se convertera. Era tudo de mentirinha.

Segundo as fontes vazantes de sempre, seguras e firmes, o romancista se explicando a mais não poder: pressão, mecanismo de sobrevivência, o pororó e o pão duro habituais.

Carece de fundamento a notícia de que ele irá pedir indenização por esses anos todos de aporrinhação para o novo e esclarecidérrimo governo do Irã, agora que o responsável, pelo fatuá (abrasileiremos essa jogada), o falecido aiatolá Khomeini, cognominado “o bom velhinho”, partiu desta para uma muito, mas muito melhor mesmo.

Ou talvez não careça. Em matéria de indenização para humoristas (e claro que sir Salman é um humorista) nunca se sabe.

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