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É fogo | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Parafraseando mal, muito mal, o grande Noel Rosa, “quando eu morrer não quero vela nem choração, quero um DVD com minha cremação.” Minto. Na verdade, quero que me despachem daqui da forma mais barata e rápida possível, com o mínimo de frescuras. Se for enterro, tudo bem. Cremação, idem. Neste último caso, passo adiante o que catei, como um sem-teto, nas folhas locais. Comentando o mínimo possível, já que estamos em abril, mês dos mortos. Aliás, pensando bem, todo mês é mês dos mortos. Eles ganham longe, longe dos vivos. Cremação Pay-per-view É isso aí. Precisamente o que esse subtítulo indica. Enterros e funerais pagos para serem vistos. É que a vida hodierna é muito complicada, há um mundo de coisas a fazer, pessoas a ver, negócios a fechar, pororó pão-duro coisa e tal, e nem sempre se pode comparecer para se dar o último adeus a um amigo ou parente. Principalmente no caso das cremações. O problema acaba de ser resolvido aqui no Reino Unido. Quem não pôde dar às caras no crematório é só abrir o computador e aí então render os devidos respeitos ao ente querido, que acaba de bater ou as botas ou com as dez, pegou o boné, vestiu o paletó de madeira, todos esses parangolés graciosamente eufemísticos com que se procura evitar o verbo “morrer”. Um distanciamento brechtiano, querem alguns. Uma história de gosto dúbio, querem outros. Muita gente achou que o esquema não só beirava mas se despencava pelo abismo do macabro. Mas, a partir de primeiro de abril, segundo um jornal de 31 de março, o Guardian, a cidade de Southampton, no sul da Inglaterra, deu início a um serviço crematório a 75 libras, ou por volta dos 150 dólares, por família. Sim, começando a primeiro de abril, eu, que não sou de jogar fora um lugar-comum, fiquei, como você aí, distinto, com a pulga atrás da orelha. Estariam querendo pegar um bobo na casca do ovo? Deixo a decisão à minha legião de leitores. Preguiçoso, algo deprimido, vou nas águas do jornal. Como a coisa funciona Trevor Mathieson, diretor do crematório inovador, declarou que estava doido para se ver livre do rótulo “pay-per-view”, não por ser um brasileirismo vulgar, mas por que ele não considera os serviços que presta algo comparável a jogos de futebol, eventos esportivos especiais, ou filmes do arromba. Não. Mathieson diz que as cremações virtuais são uma tentativa de facilitar a vida das pessoas sem botar em risco a segurança e a privacidade daqueles que continuam (palavras minhas e não dele) a “trilhar este vale de lágrimas”. Os enlutados têm todo direito a um serviço melhorzinho e mais na base do particular. Mathieson explicou que, num determinado canto do crematório, no lado leste da capela, foi colocada uma câmera digital afim de urubuservar discretamente toda a fogosa cerimônia de último adeus. Tem mais Por 50 libras, ou uns 100 dólares, o crematório oferece DVDs de qualidade garantida. Quem for mais antigão, e preferir apenas o áudio, leva por 25 libras, ou 50 dólares (façam o câmbio sempre multiplicando por dois, até segunda ordem), um CD ou tape. Com os pés no chão Trevor Mathieson tem, pelo menos até o momento em que digito estas linhas, os pés firmemente plantados no chão. Sua horizontal ainda está, esperemos, num futuro distante. Mathieson admite que o esquema não é a gosto de todo mundo (not everyone's cup of tea) mas lembra que vivemos num mundo em que as famílias se globalizaram e se mandaram para a Nova Zelândia, Espanha, França e outros países exóticos, não podendo, assim, comparecer para dar o seu respeito e suas despedidas. Justamente nestes casos é que a transmissão virtual, ou o DVD, viria a calhar, seria uma mão na roda, quebraria um tremendo galho, por assim dizer. Pés no chão têm também o reverendo Gary Philbrick, deão da região de Southampton. Segundo ele, “há aspectos positivos na iniciativa, mas, pessoalmente, tenho minhas reservas. Não creio que a filmagem numa hora crucial dessas seja de todo aceitável”. Mathieson é rápido no gatilho. Disse, e adapto para nosso linguajar, mais ou menos o seguinte: “Não estamos fazendo aqui desses filmes arrasa-quarteirão (blockbusters, no original). Temos bom gosto.” David Powell, um dos diretores da agência funerária Henry Powell e Filhos, disse que, nos testes do novo sistema, funerais foram transmitidos por webcast (vocês sabem o que é) para o Canadá e a Austrália. Acrescentou que a reação, até agora, foi das mais positivas. John Childs, que recentemente perdeu (quer dizer, ela morreu) a mulher, Joan, mostrou-se jubiloso quando participou de uma das primeiras experiências de transmissão e gravação. Calma, John Childs, calma. Fique satisfeito. Jubiloso é exagero. |
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