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Atualizado às: 05 de março, 2008 - 08h22 GMT (05h22 Brasília)
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Brasil dá exemplo

Ivan Lessa
Mais uma vez a Europa, ou pelo menos o Reino Unido, se curva diante do Brasil. Não juro que tenha sido influência nossa, feito uns jogadores de futebol ou o açaí, mas fato é que, dos A-levels serão sumariamente executados alguns grandes nomes da literatura mundial.

Vamos por partes.

Primeiro, o que vem a ser o A-level? Trata-se, para traduzir literalmente, do “nível avançado” de ensino. Um Certificado Geral de Instrução (aqui chamado pela sigla GCE) que os estudantes recebem ou não (se levarem bomba) ao final dos dois últimos anos – por sinal, opcionais – de ensino secundário.

Mais ou menos, aí por volta do que já foram nossos cursos científico ou clássico. O certificado é mundialmente reconhecido, embora seja apenas compulsório na Escócia, que é um país cheio de 9, 10 e 11 horas.

Minha filha, há tempos, fez os A-levels dela. Passou. Não me lembro exatamente quais as matérias que escolheu. Se não me falha a memória, estas podem ser num mínimo de dois e um máximo de quatro. O importante é que ela passou.

E foi útil a ela. Uma das matérias que escolheu, disso me lembro, foi literatura. Deram-lhe alguns textos clássicos e modernos e sobre eles ela foi examinada, ou melhor, sobre eles escreveu outros textos. Num país bastante alfabetizado, como o Reino Unido, faz sentido.

Minha filha está com dois livros publicados (tá bom, vá lá que seja: são livros infanto-juvenis) e prepara o terceiro, este para adultos. Quer dizer, a leitura, que ela já procurava por prazer, foi útil quando exigida pelo colégio, ou universidade.

Assim eram as coisas.

O Século Contra-ataca

Lá estava, neste começo de março, nas folhas, quase todas ligeiramente escandalizadas, mesmo as que publicam moças em trajes menores na terceira página: mestres da literatura estão sendo retirados do currículo. Assim, sem mais nem menos. As juntas de exame britânicas determinaram.

A partir de setembro, em vez de dissertar sobre este ou aquele outro autor estudado, o aluno terá apenas que escrever um pequeno texto sobre um assunto de sua escolha. Atenção: não necessariamente assunto literário. Isto é besteira e besteira da grossa.

Podia ser pior, bem sei. Mal sei, ou fui mal informado, de que no Brasil os currículos estão cada vez mais sobre a moleza. O importante é formar gente, inchar estatísticas. Analfabetos? Não é aqui, não “sinhor”.

Lembro-me quando retiraram o latim do currículo. Ninguém reclamou. Língua por língua foi retirada. Neste passo, chegará a vez do português do Brasil. Li algures que, mesmo no lendário exame exigentérrimo do Itamaraty, sequer o estudo de línguas seria exigido. Só falta agora, pensei um dia e disse em voz alta para alguém no dia seguinte, só falta agora tirarem redação dos currículos todos. Antes de tirarem os currículos dos currículos.

Alguém me garantiu que não havia mais necessidade de redação. Quem quisesse aprender alguma coisa de português era só ligar a televisão numa telenovela ou nas estações estatais. O português seria, então, uma língua apenas falada. Mal falada, mas não mais que falada.

Volta ao Reino Unido

Ora, pois, pois, conforme se diz nos meios da uniformização dos países de língua portuguesa. Os britânicos mandaram para o chuveiro os seguintes craques: Molière, Thomas Mann, Tchecov, Dante, Garcia Lorca, Pirandello, Pushkin, Brecht, Kafka, Proust, Voltaire, Albert Camus e até mesmo – o único cartão vermelho com que concordo – a Françoise Sagan, daquele Bonjour Tristesse.

Tem gente reclamando. Gente formada. Os em formação, isto é, os estudantes, que eu saiba, não foram ouvidos. Que é a nova tendência pedagógica: mandar os estudantes se roçarem nas ostras.

Não restou sequer uma dessas besteiras de que certos educadores tanto gostam, feito discorrer sobre a imagética de Bob Dylan em sua obra. Tudo para o beleléu.

Conclusão

Par délicatesse, j´ai perdu ma vie.” (Arthur Rimbaud)

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