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Atualizado às: 28 de março, 2008 - 11h25 GMT (08h25 Brasília)
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Mineiro é dono de pizzaria e dá cursos em Cabul

cliente comprando pizza na Pizzaria Brasil
Pizza Brasil faz entregas por toda Cabul
Em meio ao conflito que se arrasta há oito anos no Afeganistão, o brasileiro Sérgio* encontrou formas de realizar seu sonho: ajudar na reconstrução do país e ser um homem de negócios.

O mineiro, de 38 anos, que não quis revelar seu nome por questões de segurança, mudou-se com a mulher e os dois filhos para Cabul em outubro de 2005 e, hoje, é dono de um centro educacional que oferece cursos profissionalizantes e de uma pizzaria, que ganhou o nome de Pizza Brasil.

"Viemos para cá ajudar na reconstrução do país e, ao mesmo tempo, estamos ganhando dinheiro”, disse Sérgio à BBC Brasil.

Ele conta que os estrangeiros são "muito visados" no Afeganistão e que sua semelhança com americanos – ele é loiro e tem olhos azuis – lhe obriga a tomar todas as precauções possíveis.

Sérgio contou que só anda de carro com um motorista afegão, não viaja pelas cidades do país, e tem empregados para fazer todas as compras da casa, de nove quartos e localizada perto do Parlamento, em um bairro nobre da capital afegã.

O brasileiro disse "não viver com medo", mas lembrou já ter escapado de atentados só porque chegou "minutos" depois.

"Tentamos viver sem medo porque, se pensar nisso o tempo todo, não se vive."

Vida normal

Enquanto tenta levar uma vida normal, o brasileiro disse estar feliz com o resultado dos negócios.

"A pizzaria atrai uma clientela estrangeira muito boa porque, aqui em Cabul, só tem pizzas feitas por afegãos, que não agradam aos estrangeiros. Não têm mozzarela e muito pouco tomate", disse o mineiro, acrescentando que a pizza mais pedida é a Tropical, com frango e abacaxi.

Sergio acredita ser o único estrangeiro a ter uma pizzaria na capital afegã. Por razões de segurança, ele prefere não ter espaço para receber os clientes e faz apenas entregas em casa.

pizzaiolo afegão
Pizzaiolo afegão coloca a mão na massa

Para isso, conta com três entregadores afegãos que percorrem toda Cabul de moto entregando as pizzas.

"É um ótimo negócio porque as pessoas têm medo de sair à noite e não têm um lugar para ligar e encomendar uma pizza", disse o brasileiro, que cobra de 600 a 800 afegani (R$ 25 a 30) por uma pizza tamanho gigante.

"Eu já ensinei dois pizzaiolos afegãos que trabalham pra mim. Hoje, eu já não ponho mais a mão na massa", disse ele.

Sérgio divide a jornada de trabalho entre a Pizza Brasil e um centro educacional criado por ele e pela mulher, que oferece cursos profissionalizantes para afegãos de várias faixas etárias.

Ele contou que, com parte dos lucros da pizzaria, é possível bancar os estudos de 50% dos alunos. Entre os cursos oferecidos estão carpintaria, inglês, costura, bordado, crochê, pintura e informática.

Os cursos duram, em média, seis meses e contam, atualmente, com 100 alunos afegãos matriculados.

À frente da escola está a mulher de Sérgio que, por ser pedagoga, conseguiu a autorização do governo afegão para abrir o centro educacional.

Espírito aventureiro

Sérgio contou que a paixão por conhecer outros países foi o que o levou ao Afeganistão.

Antes de chegar ao país asiático, ele morou com a família nos Estados Unidos e na Escócia. O espírito aventureiro, lembrou ele, vem da infância, quando o pai, gerente de banco, se mudava de cidade a cada três anos.

A idéia de tentar a vida no Afeganistão partiu de conversas com uma amiga brasileira que trabalhava em uma agência humanitária em Cabul.

 A segurança aqui não existe. Se no Brasil ela é um problema, aqui é muito pior. No Brasil tem muita criança de rua, mas aqui é muito mais, é uma coisa louca.
Sergio

"Sempre gostei de sair pelo mundo, conhecer outras culturas. É fascinante poder conhecer o mundo islâmico que, apesar de pouca liberdade, tem um povo muito alegre e acolhedor, parecido com o brasileiro", comparou.

No Brasil, ele trabalhava como representante comercial e morou com a família em várias cidades, sempre em busca de "explorar, conhecer o mundo".

Sua vocação para ser nômade, no entanto, não parece ter sido herdada pelos filhos. Ele conta que os meninos, de 15 e 11 anos, não gostam de morar no Afeganistão e querem voltar para a Escócia.

"A vida aqui não tem lazer nenhum. A gente faz tudo em casa. A casa é nosso shopping, nosso tudo", disse. "Saímos na rua o mínimo possível, temos um motorista e empregados para fazer as compras."

Contraste fascinante

Ele explicou que as regras para se viver em um país em guerra vão além dos cuidados com a segurança e impõem também a adoção de hábitos culturais completamente diferentes dos brasileiros.

O que mais estranhou, disse, foi ter de se habituar a ver a mulher usando o véu para cobrir os cabelos e as "dificuldades para conseguir comprar a cervejinha".

Ainda segundo o brasileiro, não há como se comparar a situação da segurança no Brasil e no Afeganistão.

"A segurança aqui não existe. Se no Brasil ela é um problema, aqui é muito pior. No Brasil, tem muita criança de rua, mas, aqui, é muito mais, é uma coisa louca."

Com os negócios indo bem, a família não tem planos de voltar para o Brasil.

"Vivo falando para os meus amigos brasileiros que, aqui, há muitas oportunidades. Se viessem pra cá e abrissem uma padaria, iam fazer o maior sucesso." Até agora, não conseguiu convencer nenhum.

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