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Ídolo no Sudão, técnico brasileiro vê mais riscos no Brasil | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Em 2005, o técnico de futebol Ricardo Heron Ferreira se deparou com uma das decisões mais importantes de sua vida: se mudar para o Sudão para comandar a equipe do Al-Hilal, a mais popular do país. "Eu fiquei com muito medo, porque não sabia nada sobre o Sudão, apenas que era um país devastado pela guerra civil. Eu não sabia o que ia acontecer comigo e estava assustado. Ao mesmo tempo, era um desafio encarar uma nova situação", contou o técnico à BBC Brasil. Além disso, o salário prometia ser compensador: cerca de US$ 250 mil por ano (R$ 434 mil), em um lugar onde o custo de vida é maior do que no Brasil, porém muito menor do que em qualquer país europeu. Ao chegar à capital Cartum, uma supresa boa: "Quando você lê pela Internet que mais de um milhão de pessoas estão desabrigadas e mais de 200 mil foram assassinadas, você acha que vai ver corpos espalhados pela rua. Mas não é assim, em Cartum, a segurança é muito grande." Ilhado em casa Mesmo assim, houve momentos em que Ferreira sentiu medo, como em agosto de 2005, quando o vice-presidente sudanês, John Garang, morreu em um acidente de helicóptero poucas semanas após ter sido nomeado para o cargo. Ex-líder rebelde, Garang participou da assinatura de um acordo de paz que acabou com 21 anos de guerra civil entre os cristãos e animistas, do sul do país, e os islâmicos, do norte. Frustrados com a morte do líder, gangues de sudaneses do sul do país invadiram a cidade e incendiaram carros, atiraram pedras e destruíram janelas de lojas da cidade. "Eu fiquei três dias dentro de casa, ilhado, sem poder fazer nada, só olhando pela janela os grupos de 20, 30 pessoas com pedaços de pau e chicotes passando pela rua", lembrou o técnico. Os dirigentes do Al-Hilal ligaram para Ferreira e pediram para que ele não saísse de casa "de jeito nenhum" e enviaram um funcionário para atender suas necessidades, como trazer comida e outros mantimentos.
Carro aberto Ferreira também contou que, naquela época, existiam muitas barreiras policiais em Cartum. "Depois das 10h da noite, você tinha de se identificar em cada esquina. Mas, hoje, a situação já está mais calma.” O técnico disse se sentir muito mais seguro na capital sudanesa do que em sua cidade natal, o Rio de Janeiro. "Aqui em Cartum, a segurança é muito grande, muito melhor do que no Rio ou em São Paulo. Não existe este tipo de violência urbana. Não tem assalto e você pode deixar o carro aberto, com a chave na ignição que ninguém mexe", explicou Ferreira, que atribui a falta de violência ao castigo aplicado aos assaltantes. "Aqui, eles cortam a mão ou o braço dos assaltantes, então, este tipo de violência não tem. Por idealismo ou religião, aí sim pode ter algum tipo de problema." Escolta em viagens Enquanto jogos de futebol em Cartum não parecem ser muito diferentes dos no Brasil, quando a seleção do Al-Hilal joga fora da capital medidas de segurança extras são tomadas. A delegação sempre viaja acompanhada de um grupo de soldados, que vigia o hotel ou as casas onde os jogadores se alojam. "Às vezes, nós vamos para lugares onde nem existe hotel. Aí, nós ficamos nas casas de pessoas ligadas ao clube onde dormem quatro ou cinco jogadores na sala, outros quatro ou cinco no quarto, é uma acomodação bem precária", explicou Ferreira. Apesar da escolta para jogar em locais como Darfur, Ferreira acredita que, atualmente, não corre riscos em nenhum lugar do Sudão por ter virado um ídolo nacional.
Ele quebrou o recorde de tempo de permanência de um técnico em um time, já que ninguém ficou mais de um ano comandando um time. Além disso, pela primeira vez na história do futebol do Sudão, o Al-Hilal chegou à semifinal da Copa da África, após vencer de 3 a 0 um dos favoritos ao título, o time egípcio Al-Ahli. "O país vive uma histeria e onde quer que eu vá, as pessoas gritam o meu nome nas ruas. Então, acho que não corro nenhum perigo aqui." Já a mulher de Ferreira não pode dizer o mesmo do Rio de Janeiro, para onde voltou há menos de dois meses, após passar um ano com o marido no Sudão. “Na viagem, ela foi assaltada e está traumatizada, chorou muito. Rio de Janeiro não tem jeito…”, concluiu Ferreira. |
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