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Ivan Lessa: Amando o amor | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Há uns tempinhos escrevi aqui neste meu canto uma croniqueta cujo título era o nome de uma assessora de imprensa – do e no Brasil – que me atormentava todos os dias. Convidava-me para os mais variados acontecimentos – do e no Brasil – sem a menor justificativa. Acabei me cansando de tentar todos os filtros eletrônicos que me deram: o assédio informático continuava. Teve dia em que recebi mais de 10 daquilo que nós, como os ingleses e americanos, passamos a chamar de “spam”. Ia tudo para o “junk” – é, lixo mesmo – e, dia seguinte, lá estava a moça de novo me convidando para lançamento de livro, disco ou filme. Após minhas rudes, ou melhor dizendo, sarcásticas palavras, a assessora me deixou em paz. Que bom!, disse eu para minhas teclas. Uma leitora ao menos tenho. E educada. Isso não significa que o “spam” geral tenha parado. Capaz até de eu ser poupado dos horrores que leio e de que ouço falar. Tenho meu “junk” (em português soa muito pesado. Ainda tenho modos) diário. Inclusive da Assessoria da Presidência da República que deixei há – fez agora neste fim-de-semana que passou – 29 anos. Isto muito me honra. Me chateia e me honra. Um misto quente. Eu preferia, no entanto, que parasse. Ao menos, tenho que admitir, não recebo os convites pornográficos ou a proposta para a compra daqueles afrodisíacos infalíveis. Mas continuo invariavelmente convidado para festanças brasileiras. No que cabe o comentário: como acontecem coisas no Brasil! Que turbilhão de marcos e eventos! Quantas peças e museus e espetáculos estreiam por dia, ou mesmo por hora! Tamanha efervescência cultural e social eu agradeço ter de viver apenas por – isso, “junk”, lixo de Internet. Fico zonzo só de pensar se eu fosse mesmo comparecer a essa azáfama de frivolidades em que vivem os brasileiros. Sim, eu estou falando com você mesmo, companheiro ou companheira. Amando amores Vez por outra, vem uma e me pega distraído. Caio e abro e torno-me, sou informado por quem entende disso, freguês internauta. É o caso de um email que me chegou ao computador semana passada. Na minha caixa de correio normal lá estava: “Amando o amor de alguém”, e o nome da remetente. Ora, aqui entre nós, brasileiros da BBC Brasil há uma Mônica (e já tivemos até duas), a Vasconcelos, que trata de música popular e da melhor maneira possível, já que entende do traçado, como dizemos nós, os mais velhos. A Mônica Vasconcelos canta (sim, podem dizer, encanta também) tem uma boa, mas boa mesmo, meia dúzia de discos gravados aqui, todos com excelentes resenhas nos jornais de categoria e, volta e meia, está se apresentando com seu grupo em um clube noturno londrino de boa qualidade. Sempre recebendo resenhas elogiosas nos grandes jornais. Parabéns, pois à Mônica. À Mônica Vasconcelos. Porque outra Mônica surgiu em minha vida e me deu voltas à cabeça, que já não é grande coisa em condições normais, se condições normais eu tivesse, ou pelo menos conhecesse de vista. Abri o email da, agora sei, falsa Mônica. Lá estava o convite que, nas primeiras linhas, confuso, foi me deixando tonto. Dizia assim: “Livro traz dicas para pessoas que se apaixonaram por comprometidos”. “Minha nossa”, exclamei em voz alta mesmo, assustando o colega aqui do lado. “Em que terá se metido a querida Mônica?” Era o equivalente menos conciso de nosso velho, “Qual é, pôxa?” E durante uma página vendia-me o correio eletrônico as vantagens de se ler esse livro, cujo subtítulo tudo explicava e que, no corpo do texto, em itálicos, meus olhos pegaram logo: “Amando o amor de alguém – quando a história pode dar certo e garantir felicidade para todos os envolvidos.” Em bom português: du-vi-de-o-dó. Essas coisas sempre acabam em bobagem. Tive pena de nossa Mônica e fiz uma nota mental de, na primeira oportunidade, bater um papo com ela, pedir que pensasse duas vezes, coisa e tal. Para bem de todos e felicidade geral da nação, logo no finalzinho do bilhete de vendas (R$ 24,90 a brochura, 112 páginas) dei com o sobrenome da autora. Nada tinha a ver com o simpático Vasconcelos. Não digo qual era para não fazer publicidade, não passar adiante o logro (logro ao menos eletrônico) em que me vi envolvido. Também não dou os telefones para contato ou o nome e o e-mail da editora. Só queria saber porque raios fui contemplado com esse pastel premiado e pedir – com o devido respeito, inclusive para a Assistência da Presidência do Brasil – que parem, que parem com isso, gente! |
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