|
Não tem mais conserto | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Num Rio antigo, na rua da Passagem, ligando os bairros de Botafogo e Flamengo, entre botequins, armarinhos, lojas de móveis e ferragens, havia uma lojinha em que nunca pus os pés, mas admirava e chegava mesmo, de longe, a prezar. É, é verdade o que dizem. Há pressentimentos e cabe aos muito jovens ter uma visão do futuro. A loja em questão, que durante anos passei por ela duas vezes por dia de semana, vendo-a do bonde e tentando adentrar seus mistérios, não era uma loja de brinquedos, conforme seria de se esperar. Loja? A rigor, não era mais que uma entradinha e o resto escuridão. Óbvio que era mínima. O nome do estabelecimento comercial era “Hospital de Bonecas”. Umas duas ou três daquelas antigonas, lindas de morrer, chamavam a atenção de quem passasse e declarava de que tratava o “hospital”. Vou deixar bem claro que não havia nada de errado comigo. Eu gostava de futebol, ali mesmo na rua da Passagem estava a uns poucos metros do time pelo qual torci a vida inteira, o Botafogo de Futebol e Regatas, e no setor garoto zona sul ia tudo bem, muito bem. Só que o “hospital” mexia comigo e eu me punha a indagar – por pouquíssimo tempo, sem dúvida – o quanto poderia dar de lucro para os donos e por que esses teriam se aventurado por esse ramo? Discutiriam à mesa? Haveria mesa? Os fregueses quem seriam? Recomendavam o tratamento dado às bonecas? O trabalho de recuperação era dispendioso? Um belo dia, acabou o curso ginasial, acabou o bonde, acabou o “hospital”, acabaram as bonecas de louça ou porcelana (haveriam de porcelana?) e eu não pensei mais nisso. Minto. Pensei e pensei muito. Penso em tudo que acaba, em tudo que virou uma esquina e o tempo e os gatos comeram. Nunca tive uma namorada que ao “hospital” tivesse recorrido numa hora com toda certeza beirando o trágico. Possível que eu só namorasse meninas que ou só brincavam com bonecas de pano ou importadas e inquebráveis, com garantia de fabricação. Como disse: não pensei mais nisso. O tempo corre atrás da gente Não pensei mais nisso até esta semana que passou quando, no jornal que compro na entrada do metrô e venho lendo a caminho do trabalho (gripes permitindo. Meus hospitais não andam cuidando muito bem de mim) publicou uma reportagem de três páginas em seu suplemento de trivialidades e cultura. Com todos os dados, e até mesmo gráficos comparativos, o jornalista Tim Dowling mostrava que não há mais consertos. Algo de que há muito eu já desconfiava e no sentido mais geral, mais global possível. Dowling argumentava e ia provando por números, cifras e cifrões que os consertos são uma arte a caminho da extinção. Ou deixaram de haver aqueles homens que “davam um jeito em tudo” ou então passou todo mundo a quebar (ou remendar) o galho por conta própria. Vai então exemplificando: sai mais barato comprar uma tostadeira nova do que levar ( e levar onde?) para o conserto. O mesmo se aplica aos aspiradores de pó, geladeiras, máquinas de lavar roupa e de escrever, se é que sobrou alguma máquina de escrever. Tem mais: não é uma questão de tecnologia obsoleta. O seu aparelho de DVD pifou? Um novinho em folha custa por volta dos 40 dólares. Para substituir o laser do antigo a conta chega fácil, fácil a qualquer coisa perto dos 200 dólares. E assim por diante. Não se falou no preço de gente – amizades rompidas, corações despedaçados. Esses nunca tiveram, sabemos, preço ou hospital. Como aquele das bonecas na Rua da Passagem. |
NOTÍCIAS RELACIONADAS Não tem mais conserto19 janeiro, 2007 | BBC Report Nas barbas da lei17 janeiro, 2007 | BBC Report Justiça cega (e louca)15 janeiro, 2007 | BBC Report Cabelos em chamas12 janeiro, 2007 | BBC Report Ivan Lessa: Entregues aos cachorros10 janeiro, 2007 | BBC Report Esse garotão vale um bilhão08 janeiro, 2007 | BBC Report Ivan Lessa: E começou a inana...05 janeiro, 2007 | BBC Report Resoluções de ano novo02 janeiro, 2007 | BBC Report | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||