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Atualizado às: 19 de junho, 2006 - 23h18 GMT (20h18 Brasília)
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Copa desperta novo nacionalismo na Alemanha

Torcedores alemães
Ser patriota não é mais tabu. Por enquanto
Por quase 60 anos, nacionalismo e Alemanha era uma dessas combinações que causavam arrepios em muita gente. Mesmo entre alemães, a lembrança da Segunda Guerra Mundial servia, no dia-a-dia, de proibição velada a qualquer manifestação patriótica.

No entanto, em 2006, assumindo o papel de anfitriões simpáticos – o slogan da organização da Copa no país pode ser traduzido como: "O mundo hospedado por amigos" – e embalados pelo time do ídolo Jürgen Klinsmann, os alemães estão deixando de lado décadas de timidez patriótica e resgatando um orgulho nacional.

O fenômeno vem sendo registrado por vários jornais da Alemanha e do exterior. Como o português Diário de Notícias, que comentou: "A Copa do Mundo se transformou na melhor terapia de grupo para os alemães, que se debatem com problemas de identidade nacional, embora sejam os campeões de exportação e tenham um sistema social generoso".

Claro que não é a primeira vez que se vêem bandeiras nas cores preto, vermelho e dourado pelas ruas desde o fim da Guerra. Na queda do muro, em 1989, ou depois da conquista do título mundial, em 1990, elas também foram desfraldadas.

Transformação

Para o jornalista esportivo da Thüringer Allgemeine Zeitung (TA), Gerald Müller, que também viveu a Copa do Mundo da Alemanha de 1974, a reação dos alemães hoje ainda é "impressionante".

"Naquela época, seria impensável ver um carro andando pelas ruas com uma bandeirola alemã na janela", afirmou Müller.

A opinião de Florian Gathmann, também da TA, é semelhante. Ele conta que nos estádios de 74 era possível ver uma ou outra bandeira da Alemanha, mas que, sem dúvida, os tempos mudaram.

Ele cita como exemplo antes "impensável" a iniciativa da multinacional BASF, que na última edição do seu jornal interno, distribuiu uma bandeira da Alemanha. E faz outra observação ainda mais prosaica.

"Até hoje, ninguém imaginaria jogar uma pelada de domingo com uma camisa da seleção alemã. Depois dessa Copa, vamos ver", disse o jornalista.

Para o escritor e roteirista alemão Thomas Brussig, de 40 anos, o que mudou foi o patriotismo alemão.

"O velho patriotismo morreu, definitivamente. O novo patriotismo significa: 'não ao velho. Algum outro. Nós ainda estamos experimentando'", escreveu Brussig em um artigo para o jornal alemão Süddeutsche Zeitung (SZ).

Mesmo um dos jornais mais popularescos do país, o tablóide Bild Zeitung, faz questão de passar longe do "antigo patriotismo" descrito por Brussig, do qual o racismo era companhia inseparável.

O tablóide não se cansa de incensar as qualidades futebolísticas, que dificilmente mereceriam elogios da imprensa brasileira, e extra-campo dos dois jogadores negros da seleção alemã, David Odonkor e Asamoah.

Na edição desta segunda-feira, o tablóide alemão separou um alto de página para estampar uma foto do jogador John Pantsil, de Gana, agitando uma bandeira de Israel.

Na legenda, sem nenhuma ironia afirma: "Um dos momentos mais bonitos da Copa! John Pantsil levanta a bandeira de Israel, por amor ao seu clube, Hapoel Tel Aviv."

Orgulho

Ainda na definição de Thomas Brussig, a frase "Tenho orgulho de ser alemão", não é mais sinônimo de "Tenho orgulho de ser de direita".

"O novo patriota alemão considera uma vergonha para a Alemanha que existam 'áreas proibidas', nas quais pessoas com outra cor da pele sintam-se inseguras. Um novo patriota não quer enviar soldados alemães ao redor do mundo, mas que fundar escolas e universidades alemãs", resume o escritor.

Para esses novos patriotas, não faltam opções para expressar o seu nacionalismo em época de copa. Em qualquer loja, encontram-se dezenas de produtos nas três cores da Alemanha.

Um chapéu preto-vermelho-dourado pode ser comprado em qualquer esquina por menos de um euro. Já um kit completo, com direito a chaveiro, chapéu, bola e bandeira sai por 19,90 euros.

A linha de produtos nas cores nacionais é infindável. Almofadas da bandeira, tapetes, cadeiras de praia, bolsas e carteiras com as três cores e até colares no estilo havaiano.

Sem contar, é claro, com as indefectíveis perucas em estilo moicano em preto-vermelho-dourado, que já podem ser vistas até nas cabeças de torcedores de outras seleções.

O que ainda não está claro é como vai ser a ressaca da euforia futebolística. Na opinião do escritor Thomas Brussig, "depois que a Alemanha fracassar", vão ser três dias de bandeiras a meio mastro.

"Até que nós pintemos outras cores nos nossos rostos. Seremos Brasil, Itália ou Portugal. Mas lembraremos que fomos Alemanha, como os franceses são França ou os brasileiros são Brasil."

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