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Na Grã-Bretanha, crime com arma aumenta apesar de proibição | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A aprovação de uma lei contrária à circulação de armas de fogo na Grã-Bretanha não conseguiu impedir o aumento do número de crimes cometidos por esse meio no país. Segundo estatísticas do governo britânico, os crimes com armas de fogo na Inglaterra e no País de Gales mais do que dobraram desde 1997, quando o Parlamento aprovou a proibição da posse e venda de armas acima do calibre 22. Em julho, o Ministério do Interior da Grã-Bretanha publicou um relatório no qual registrava 10.979 ocorrências com armas nos últimos 12 meses, uma alta de 6% em relação ao período anterior. Trata-se como "ocorrência" incidentes em que a arma foi disparada, usada como um instrumento de agressão ou usada para intimidar. O número de mortes provocadas nesses incidentes, porém, é muito menor. As armas de fogo foram usadas em 8,5% dos homicídios no período analisado – um total de 73 mortes em 12 meses, cinco a mais do que o período anterior. No Brasil, quase 40 mil pessoas morrem por ano vítimas de armas de fogo. Sucesso Especialistas consultados pela BBC Brasil interpretam essas estatísticas de formas distintas. Para alguns, o problema está em uma brecha da lei de 1997, que não baniu as armas de ar comprimido, réplicas e armas desativadas. "Desde 1997 houve um aumento do uso dessas armas. Segundo a polícia, 75% dos crimes armados são cometidos com esses três tipos de armas. Foi um erro da lei de 1997 não tê-las incluído", afirma Rebecca Peters, diretora da Iansa, coalizão de 500 ONGs que trabalham para o controle de armas no mundo. De acordo com o levantamento do governo britânico, réplicas de armas foram utilizadas em 3.332 ocorrências entre 2004 e 2005, representando uma alta de 55% ante o período anterior. Rebecca Peters e Peter Squires, professor de criminologia da Universidade de Brighton, compartilham de um mesmo argumento: se os criminosos estão apelando para réplicas, então o desarmamento da população e o banimento das armas estão funcionando.
"Isso sugere que a disponibilidade de armas reais tem ficado mais restrita. Elas ainda estão circulando, mas tornamos mais difícil o caminho para adquiri-las", observa Squires. Ciente do problema, o governo britânico tenta aprovar agora um projeto de lei que prevê medidas ainda mais rigorosas para o controle de armas. "O governo leva o crime com armas a sério e está determinado a resolver esse problema", diz um comunicado do Ministério do Interior britânico enviado à BBC Brasil. "Estamos introduzindo medidas adicionais para tornar mais severa a legislação por meio do projeto de lei Redução do Crime Violento. Algumas das medidas incluem maior rigidez nos padrões de produção para prevenir que armas de imitação sejam convertidas em armas com poder de fogo real e sentenças mais duras para quem portar armas de imitação." Fracasso Mas nem todos acreditam que o banimento das armas na Grã-Bretanha foi um sucesso. A americana Joyce L. Malcolm, autora do livro Guns & Violence: the English Experience (em tradução livre, Armas e Violência: a Experiência Inglesa), argumenta que os crimes com armas estão aumentando na Grã-Bretanha porque a população não está armada e os bandidos, sabendo disso, atacam mais. Ela defende uma sociedade armada: "Se tirar as armas das pessoas, elas não poderão se defender. É um incentivo maior para os criminosos. Fica mais fácil para eles". Na sua avaliação, o desarmamento tomou o tempo do governo britânico e teve um alto custo para os cofres públicos. "Mesmo assim, isso não conteve os crimes com armas", destaca Malcolm, que não acredita que grande parte dos crimes com armas é feita com as armas isentas da proibição de 1997. Ela diz que os crimes são feitos com armas verdadeiras e ilegais e que são essas que devem ser retiradas de circulação e não armas registradas legalmente. Medidas eficazes, segundo ela, seriam o aumento da vigilância das fronteiras dos países para conter o contrabando de armas, aumento da força policial nas ruas e penas mais duras aos criminosos que usam armas. Outro problema, aponta, citando o caso do Brasil, é o fato de que muitas vezes armas apreendidas pela polícia não são destruídas. Quanto ao fato de que mais policiais estão portando armas na Grã-Bretanha, Joyce L. Malcolm afirma que "isso mostra que o desarmamento não funcionou". Mais policiais passaram a portar armas, no entanto, não em resposta aos crimes comuns, mas, sim, após os atentados em Londres. Causas James Bevan, pesquisador do grupo suíço Small Arms Survey, argumenta que o processo de desarmamento da população é lento e sua repercussão, também. "Diminuindo as armas em posse da população você diminui a fonte na qual os criminosos conseguirão armas ilegalmente. Não é algo instantâneo. É um processo de longo prazo", comenta. Squires concorda: "Acho que vamos olhar daqui uns dez anos para ver se houve uma mudança na tendência de aumento de crimes com armas no país. Afinal, temos que lembrar que são bens duráveis e ficam em circulação por até 30 anos". Os especialistas dizem ainda que o desarmamento e a proibição de comércio de armas são apenas alguns dos passos para tornar a sociedade mais segura. "Não é apenas uma lei que vai mudar tudo. É preciso lidar com as causas sociais que geram a demanda por armas, problemas como pobreza, exclusão social e desemprego. Ainda há a questão da eficiência da polícia e da corrupção, além do tráfico de drogas e do crime organizado", resume Squires. |
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