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Após um mês, explosões mudaram humor de Londres | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Turistas passeiam pelo centro de Londres, muitas pessoas aproveitam as liquidações nas lojas de roupas e o entra-e-sai nas estações de metrô não pára. Apesar de parecer um típico mês de verão na capital britânica, existem sinais de que a cidade se abalou com os dois atentados a bomba realizados em julho. Os trens do metrô, principal alvo dos atentados dos dias 7 e 21 de julho, continuam lotados nos horários de pico, mas é possível notar algumas diferenças em relação à rotina existente antes dos ataques. Antes mesmo de passar a catraca, o usuário se depara com um grupo de pelo menos cinco policiais no saguão da estação. Assim que chega à plataforma, ele é bombardeado com avisos de segurança, que recomendam, principalmente, que ninguém abandone bolsas nos trens ou nas estações. O comportamento de muitos usuários também mudou depois das explosões e das investigações da polícia, que indicam que todos os suspeitos de responsabilidade nos atentados são muçulmanos. O pintor e decorador Wadson da Cunha, de 35 anos, disse que não deixou de utilizar o metrô como meio de transporte, mas admite ter adotado certas precauções. "A forma de andar de metrô mudou: olho mais para as pessoas, carrego menos coisas comigo, menos bagagem. Eu carregava mochila, não carrego mais. Também ando com mais documentos para apresentar no caso de uma parada", afirma o brasileiro. Preconceito No ônibus, outro alvo dos dois ataques em julho, os olhares atentos e desconfiados também aumentaram, como exemplifica a estudante Jaqueline de Souza Lima, de 25 anos: "Eu já cheguei a descer (do ônibus). Depois do primeiro atentado, eu estava dentro do ônibus, olhei e achei a pessoa suspeita, não me senti à vontade e desci." A pessoa considerada "suspeita" por Jaqueline era um homem muçulmano. "É preconceito, eu sei. Só que o medo vence isso." Por outro lado, a comunidade muçulmana também está com medo - justamente do preconceito. Mohammed Abul Kalam, que faz parte de uma organização de jovens muçulmanos na Grã-Bretanha, diz que muitos estão sentindo a mudança de tratamento do resto da população. "Quando alguém de barba e chapéu de estilo muçulmano entra no metrô com uma sacola, essa pessoa é alvo de vários olhares. Existe gente que evita até sentar do lado dela", segundo Mohammed. "Em vez disso, as pessoas ficam de pé, alternando os olhares desconfiados entre a bolsa e o proprietário dela." Uma pesquisa realizada pelo jornal The Guardian mostra que dois terços dos muçulmanos pensam em deixar o país. Um em cada cinco afirmou que ele ou algum membro de sua família sofreu abusos ou atitudes hostis depois dos ataques do mês passado. Não é apenas a população que está atenta aos sinais que denunciam a identidade muçulmana. Nesta segunda-feira, os policiais que cuidam da segurança no sistema de transporte passaram a priorizar a parada e revista de homens jovens de origem asiática. São as ordens do chefe da polícia do transporte britânico, Ian Johnston, que afirmou ser perda de tempo revistar "senhoras idosas de pele branca". Centenas de policiais extras foram colocados nas ruas depois dos atentados do começo de julho e o número chega a 6 mil às quintas-feiras - dia da semana em que ocorreram os dois ataques. Menos negócios Os atentados em Londres vieram num ano que era considerado o mais promissor de todos os tempos para a indústria turística, com um aumento de 3,5% no número de turistas em Londres. Depois dos primeiros atentados, as estimativas foram reduzidas. Segundo o grupo Tourism Industry Emergency Response, que re‎úne as principais associações turísticas britânicas, o montante de dinheiro gasto por visitantes em 2005 na Grã-Bretanha deve ficar 2% abaixo do previsto, o equivalente a mais de R$ 1,2 bilhão de reais. O quadro pode ser ainda pior, já que essa estimativa não leva em conta os ataques do dia 21 de julho. Vários pontos turísticos da cidade registraram queda no movimento. A London Eye, roda-gigante que fica à beira do rio Tâmisa, está recebendo 20% menos visitantes. Os teatros do West End, no centro de Londres, mostram uma recuperação depois dos dias dos atentados. No dia das primeiras explosões, todos os teatros da região foram fechados, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial. Duas semanas depois, quando veio o segundo ataque, muitos perderam os ingressos comprados antecipadamente para evitar a região. Em Covent Garden, outra área turística da capital londrina, também existem menos pessoas fazendo compras, segundo comerciantes da região. "Infelizmente, uma grande parte dos turistas está evitando o centro de Londres. E o verão é a época do ano em que nós mais contamos com o fluxo de turistas. Infelizmente, não está sendo o esperado", afirma Roberts Leech, dono de uma loja de artigos de couro em Covent Garden. Luiz Carlos Moreira de Souza, proprietário de um restaurante de comida brasileira na Oxford Street, a rua de compras mais movimentada de Londres, também tem motivos para reclamar. "O movimento caiu pelo menos 30%. O povo ficou apavorado de vir ao centro. Quando eles têm opções para comprar outras coisas fora do centro eles compram, quando eles não têm, eles evitam ao máximo." "Tivemos um baque depois dos primeiros atentados e depois, quando a gente estava se recuperando, veio o segundo atentado." Enquanto a maioria dos comerciantes se lamenta, um pequeno grupo não tem do que reclamar. As lojas de bicicletas, que viram as vendas disparadas depois dos ataques do dia 7 de julho, ainda registram negócios acima do normal. "As vendas cresceram de forma fenomenal, triplicando logo depois dos primeiros atentados. Elas continuaram altas durante todo o mês de julho e agora estão começando a baixar, provavelmente porque as pessoas estão se sentindo mais confiantes e confortáveis depois das prisões de suspeitos realizadas pela polícia", conta Adrian Normanton, dono de uma loja de bicicletas no norte da cidade. |
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