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Atualizado às: 28 de julho, 2005 - 19h14 GMT (16h14 Brasília)
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Para ativistas, Irlanda traz lições para conflitos atuais

Soldado na Irlanda do Norte
Luta armada marcou a vida na Irlanda do Norte desde 1969
Após mais de 30 anos de ações violentas que resultaram na morte de 1.800 pessoas, o IRA (Exército Republicano Irlandês) anunciou o fim da luta armada contra o Estado britânico.

O anúncio veio na hora em que a polícia de Londres se vê diante da maior operação anti-terrorista de sua história, conforme descrição do comissário-chefe da Scotland Yard, Ian Blair.

O que deu certo na luta contra o extremismo irlandês que poderia ser aplicado ao confronto atual contra fundamentalistas religiosos?

Duas pessoas que tentam responder a essa pergunta são o escritor veterano ativista de esquerda Tariq Ali, que morou em Londres durante todo período de ataques do IRA, e a advogada Shami Chakrabarti, diretora da organização Liberty, dedicada à defesa dos direitos civis, nascida e criada em Londres.

"Eu estava aqui durante aqueles anos em que Londres era atacada com bombas pelo IRA", diz o escritor Tariq Ali. "Muitos de nós ficávamos com medo de chegar perto da City (o centro financeiro de Londres)."

Ali lembra que o IRA "atingiu o bairro financeiro, fez explodir prédios grandes na City e tentou acabar com todo o ministério (do governo Margaret Thatcher) quando pôs uma bomba no Grand Hotel de Brighton, durante uma conferência do Partido Conservador".

"E depois disparou mísseis contra Downing Street, quando John Major era o primeiro-ministro. Bombardeou pubs em Birmingham e Guildford. Foi uma campanha contínua. O governo britânico reagiu com leis anti-terrorismo, um decreto para prevenção de terrorismo. Nada disso funcionou", afirma Tariq Ali.

O que teria funcionado então? Na opinião do escritor, foi a negociação política.

"Quando o governo britânico decidiu começar negociações clandestinas imediatas com o IRA para acabar com aquela situação, aí deu certo. A lição é clara: terroristas têm de ser encontrados via métodos policiais, ser presos, acusados, levados a um tribunal e, se condenados, submetidos à pena. É assim que se deve lidar com eles", afirma.

"O que me preocupa no caso de fundamentalistas religiosos é a corrente de recrutamento para suas organizações. Isso precisa ser interrompido. E, para interromper, é preciso haver soluções políticas, acordos como os britânicos foram obrigados a fazer no caso da Irlanda do Norte."

O primeiro-ministro Tony Blair argumenta que é possível falar com o IRA, mas não com os líderes obscuros do movimento fundamentalista, raciocínio que é questionado por Ali.

"Não estou falando de chegar ao núcleo duro desse pessoal, lá nas montanhas do Afeganistão ou do Paquistão. Estou me referindo aos jovens muçulmanos insatisfeitos que estão sendo recrutados todo dia, em várias partes do mundo."

Para conter essa corrente de recrutas, segundo o escritor e ativista, é preciso "resolver questões políticas como a da Palestina e retirar tropas ocidentais do Iraque e do Afeganistão. Enquanto as tropas permanecerem lá, atos esporádicos de violência vão continuar."

Uso da injustiça

A advogada Shami Chakrabarti argumenta que a maior lição a se extrair da expriência britânica com o problema da Irlanda do Norte é que "injustiça visível serve aos interesses dos terroristas".

"Está bem documentado que, antes da adoção da política de prisão preventiva sem julgamento, na Irlanda do Norte, a participação em organizações terroristas e o apoio que elas recebiam (da comunidade) eram em grau relativamente baixo", afirma a diretora da Liberty.

"A política de prisão preventiva provocou um aumento dramático na participação e no apoio. Precisamos aprender essa lição antes que seja tarde demais na contexto da nova ameaça terrorista."

Segundo Chakrabarti, atos de injustiça afetam toda a comunidade onde surgem grupos extremistas.

"Não é só que atos de injustiça fazem que certos jovens vulneráveis se tornem presa fácil dos terroristas – e são rapazes jovens na maioria", afirma.

"Afeta também outras pessoas na comunidade mais ampla, gente que apóia necessariamente o terrorismo ou ao menos sonhe em realizar um ato terrorista."

"Mas talvez comecem a se fazer de desentendidos e não queiram apoiar ativamente a polícia e os serviços de segurança. É porque começam a se sentir como uma comunidade sob suspeita. Sentem-se tratados como inimigo, quando deveriam ser acolhidos por quem sabe que o único jeito de pegar fugitivos é por meio de maiores informações."

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