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Após atentados, mulçumanos se dizem discriminados | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Mulheres com véus na cabeça e homens barbudos de turbante. Em Bethnal Green, na região Leste de Londres, todos estão acostumados a ver dezenas de pessoas circulando dessa forma pelas ruas. Porém, se antes as outras comunidades do bairro não se importavam com a aparência muçulmana, agora esse estilo de vida passou a atrair olhares de desconfiança. Eles começaram logo depois dos ataques do dia 7 deste mês, portanto antes mesmo de a polícia divulgar que acredita que os quatro suspeitos de ter realizado as explosões são muçulmanos britânicos de origem paquistanesa. Badrul Alam, de 24 anos, que é muçulmano, disse que percebeu a diferença de tratamento. "Todas as outras comunidades desse bairro estão olhando para nós de forma estranha e pensando outra coisa de nós. Agora estamos sentindo medo, porque nós não nos encaixamos nesse país e, ainda por cima, as pessoas agora estão olhando de forma diferente”, disse Alam. Convivência As mulheres, mais facilmente identificáveis por causa dos lenços na cabeça, são os alvos mais fáceis, como conta uma jovem muçulmana, que não quis se identificar: "As pessoas vêem que eu estou usando este lenço e lançam olhares esquisitos. Elas não dizem nada, mas é um tanto quanto intimidador." Ainda segundo a jovem, esse comportamento começou no dia seguinte aos ataques da quinta-feira em Londres. "Antes disso, a convivência com as outras comunidades sempre foi boa aqui na cidade." Alam se disse irritado com o fato de ser julgado com base na ação de alguns integrantes da comunidade muçulmana. "Depois do que aconteceu na última quinta-feira, todos acham que os muçulmanos são todos iguais, que todos são homens-bomba. Não é todo muçulmano que é assim. O Islã não tem nada a ver com violência e sim com paz e obediência a Alá." O jovem, que mora na Grã-Bretanha há 20 anos, faz coro com os líderes muçulmanos e condena as explosões da última quinta-feira. "Essas pessoas não merecem viver. Eles vão direto para o inferno. Eles acham que fizeram isso pelo Islã, mas não fizeram. Em vez disso, eles conseguiram causar mais problemas para nós nesse país. Eles simplesmente não pensaram no que estavam fazendo com a comunidade muçulmana na Grã-Bretanha. Eles foram egoístas", diz Alam. Discriminação 'inevitável' Diferentemente de Alam, um jovem muçulmano que não quis se identificar, não acredita que os autores dos ataques tenham sido pessoas de sua religião. "Não foram muçulmanos. Se fossem, eles iriam reivindicar a autoria. Eu acho que eles próprios estão envolvidos nos ataques, os cidadãos britânicos." Exaltado, o jovem de barba e turbante, que nasceu e sempre viveu na Grã-Bretanha, disse lamentar o que aconteceu na quinta-feira e afirmou que "também havia muçulmanos entre as vítimas". "A culpa não é nossa, mas agora eu não posso mais andar dessa forma porque as pessoas já me olham com raiva!" Na opinião da diretora do Departamento de Política e Estudos Internacionais da Universidade de Westminster Rachel Barnard, o aumento da discriminação de muçulmanos na Grã-Bretanha é inevitável. "Infelizmente, as minorias religiosas sempre têm problemas quando acontece qualquer coisa dessas, já que aumenta o fervor das pessoas contra esses que são diferentes." Ela acrescenta: "Apesar de todas as organizações muçulmanas e mesquitas terem condenado os ataques, dizendo que isso não tem nada a ver com o Islã e com os muçulmanos, não há dúvida de que qualquer pessoa – não só que faça parte da comunidade, mas por causa da própria aparência - vai encontrar problemas sérios." Confusão É o caso dos sikhs, que também usam barbas e turbantes, mas seguem uma religião completamente diferente da muçulmana. Segundo Kas Singh Matharu, mais do que nunca, eles querem informar a população que eles são diferentes. "É preciso que a geração de jovens consiga diferenciar os muçulmanos dos sikhs. Nós somos do Norte da Índia, de Punjab, que é totalmente separado do Paquistão. Nós não somos muçulmanos, somos sikhs. É uma religião completamente diferente." Matharu explica por quê atualmente também não quer ser confundido com um muçulmano: "Porque desde o 11 de Setembro, vários sikhs foram atacados em Nova Iorque. A geração jovem não sabe se os homens ali na rua são sikhs ou muçulmanos." Depois do dia 7 deste mês também já houve agressões contra sikhs na Grã-Bretanha. De acordo com Mejindarpal Kaur, diretor da União dos Sikhs, "foram atirados coquetéis molotov num templo sikh em Kent e num outro em Bradford". A comunidade pediu à polícia britânica que aumente as medidas para proteger os sikhs e reforçe a segurança nos templos. Outro motivo que deixa sikhs bravos quando eles são confundidos com muçulmanos é a luta religiosa existente entre os dois grupos, segundo Matharu. "Nós não gostamos dos muçulmanos. Eles mataram milhares de sikhs na Índia." Porém, na opinião de Matharu, a maioria dos muçulmanos que vivem na Grã-Bretanha não tem conexão com o que ocorreu na última quinta-feira. "É apenas uma pequena minoria. Dizem que se tem uma maçã podre no meio de outras, todas elas apodrecem, mas eu não culparia todos os muçulmanos por isso." |
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