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Ataques em Londres põem liberdade civil em xeque | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Limitar a liberdade dos cidadãos é um aspecto "inevitável" nas medidas que o governo britânico deve tomar a fim de prevenir atentados como os da quinta-feira da semana passada, em Londres. Essa é a avaliação de especialistas consultados pela BBC Brasil como Marco Cepik, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e que acabou de voltar ao Brasil, depois de concluir um pós-doutorado em Segurança Internacional na Universidade de Oxford. "A tendência é inevitável de uma sociedade com maior vigilância e, portanto, com limitações ao exercício das liberdades civis. E, nesse momento, sob o trauma dos ataques de Londres, as pessoas estarão mais dispostas a trocar liberdade por segurança", disse. As medidas apresentadas pelo governo do primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, vão desde a implementação de carteiras de identidade até o arquivamento do conteúdo de ligações telefônicas e de e-mails, inclusive nos demais países da União Européia. "Qualquer político ficaria com medo de ser contra medidas dessa chamada guerra contra o terrorismo. Se elas são efetivas, nós só saberemos no futuro", comentou Rachel Barnard, diretora do Departamento de Política e Estudos Internacionais da Universidade de Westminster. Ela observa que a restrição da liberdade individual para que se tenha maior segurança é um dilema vivido, atualmente, por todos os países. É uma "sociedade do Big Brother", como ela descreve em referência ao programa de televisão, em que "alguém está controlando e vendo tudo". Direitos humanos Se é inevitável limitar a liberdade dos cidadãos, é também inevitável que haja maior risco de violação aos direitos humanos ou até de uso de instrumentos de vigilância para outros fins que não o de conter atentados. Mesmo antes das explosões, o governo da Grã-Bretanha já tinha sido criticado pela forma como trata os "suspeitos de terrorismo". Um relatório do Comissário para Direitos Humanos do Conselho da Europa, Álvaro Gil-Robles, publicado em junho, criticava o fato de que o Ministro do Interior britânico pode ordenar a prisão de um suspeito caso ache necessário – uma decisão que, segundo Robles, cabe apenas aos juízes. Abusos podem ser cometidos, principalmente, contra membros da comunidade islâmica, na avaliação de Cepik. "Qualquer medida que o governo britânico tomar a partir de agora limitará as liberdades civis e colocará problemas sérios de direitos humanos a uma população expressiva na Grã-Bretanha que são os muçulmanos", disse. "Haverá maior vigilância dos indivíduos, das características étnicas, formas de se vestir, a língua. Todos esses elementos visíveis que diferenciam a comunidade islâmica na Grã-Bretanha tendem a ser considerados pelas autoridades de vigilância. Mesmo que para efeito de acalmar o público você diga que não, não tem outro jeito de fazer essas coisas. Você tem que considerar toda a população da Inglaterra como suspeitos potenciais e passar a vigiar quem vai à mesquita. Não tem jeito de fazer de outra forma." Para Barnard o fato de que os suspeitos de terem perpetrado os ataques a bomba em Londres sejam cidadãos britânicos representa a "radicalização da juventude islamista". "Isso é extremamente perigoso porque se têm esses quatro, têm muitíssimos mais", comentou. Segundo ela, é possível inclusive que agentes secretos do MI5, o serviço de inteligência britânico, se infiltrem nas comunidades muçulmanas para descobrir mais informações sobre redes de militantes. Tolerância O cerco em volta dos muçulmanos pode ainda ter implicações na forma como os estrangeiros vêem a Grã-Bretanha. "Até agora a Grã-Bretanha foi uma sociedade muito tolerante, aberta e pessoas ao redor do mundo fizeram daqui a sua casa. Se essa tolerância sumir, menos pessoas farão isso", observou Tim Ripley, que pesquisa a história dos ataques terroristas ao redor do mundo na Universidade de Lancaster. O inglês Glenmore Trenear-Harvey, analista da área de segurança e inteligência, observa que, para muitos países europeus, essa tolerância britânica é demasiada. "Pessoas que foram expulsas de países como Espanha, França, Itália e Estados Unidos encontraram o paraíso seguro aqui na Grã-Bretanha", disse. Aqueles que "abusam" dessa tolerância serão deportados, prevê Trenear-Harvey. Nesse grupo ele inclui pessoas que não têm a cidadania britânica, mas que receberam asilo, e que "conclamam o jihad e estimulam suicidas". Será um difícil trabalho de identificação, na avaliação de Cepik. "Separar ideologicamente, culturalmente e socialmente os apoiadores da Al-Qaeda do resto da comunidade islâmica será crucial para o sucesso da campanha contra o terror", disse. |
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