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Caio Blinder: Crise na Bolívia reforça hostilidade EUA-Venezuela | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A crise na Bolívia se converteu em um campo de manobras ideal para o reforço das hostilidades mútuas entre os Estados Unidos e a Venezuela. Existe uma profunda suspeita em Washington em relação ao líder esquerdista boliviano Evo Morales, cujos seguidores forçaram a renúncia do presidente Carlos Mesa na última quinta-feira. Para o governo Bush, uma possível vitória de Morales em eleições que serão convocadas pelo presidente interino Eduardo Rodríguez será uma nova prova de que o receituário populista e de antiamericanismo do presidente venezuelano Hugo Chávez ganha ímpeto no continente e, em consequência, diminui a influência de governos esquerdistas com uma política econômica pragmática, como é o caso do Brasil do presidente Lula. A instabilidade na Bolívia tem duradouros componentes domésticos, mas para os formuladores de política latino-americana no Departamento de Estado não há dúvida que Hugo Chávez é uma grande fonte de inspiração (e apoio) nas mobilizações de setores esquerdistas e indígenas bolivianos e também nas reivindicações pela nacionalização de recursos naturais. Na reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), realizada na semana passada em Fort Lauderdale, na Flórida, a diplomacia americana fracassou no seu propósito para formalizar mecanismos de fiscalização democrática no continente, tendo a Venezuela como alvo preferencial, mas o encontro foi mais uma oportunidade para denunciar Hugo Chávez. Troco de Chávez Roger Noriega, o subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental, afirmou ser "óbvio" o papel desestabilizador do presidente venezuelano na crise boliviana. O troco veio rápido, por meio do próprio Chávez. No domingo, ele também carregou na retórica e atribuiu a crise na Bolívia ao "remédio envenenado" da política de livre mercado que Washington quer impor na América Latina. Noriega e Otto Reich, seu antecessor no cargo e eminência parda da política de Bush para o hemisfério, forjaram sua visão de mundo com as lentes do anticastrismo e da contra-insurgência na América Central nos anos 70 e 80. As turbulências na região andina (e aqui é preciso incluir a o quadro de precariedade no Equador e a narcoguerrilha na Colômbia) são consideradas uma nova etapa de desafios aos interesses americanos no continente. Não é uma visão de mundo completamente imaginária, pois Hugo Chávez assumiu com gosto o papel histórico e as ambições de Fidel Castro. E não custa lembrar que Ernesto "Che" Guevara escolheu a Bolívia em 1967 para ser o "foco" da revolução continental. Deu em delírio político e na morte do ícone da esquerda armada romântica. Vozes fora do governo Bush alertam contra os argumentos de Noriega e Reich a favor de um ativo engajamento americano na região andina para impedir o alastramento do receituário de Hugo Chávez. Decanos acadêmicos, como William LeoGrande, da American University, em Washington, advertem que, no caso da Bolívia, o envolvimento americano será interpretado como apoio a empresas estrangeiras que exploram gás e também às elites tradicionais. Já em um editorial no domingo, o jornal The Miami Herald advertiu que o governo Bush "deve resistir à tentação" de culpar Hugo Chávez pelos problemas da Bolívia e buscar a cooperação de líderes pragmáticos na América Latina como Lula para impedir o alastramento do "vírus populista" no continente. No geral, o caos na Bolívia é visto nos Estados Unidos como um revés para esta corrente esquerdista pragmática. O The Wall Street Journal avalia que talvez seja tarde para o governo brasileiro exercer um papel moderador na Bolívia quando ele atravessa sua "própria crise de legitimidade". |
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