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Análise: Bolívia pode ter chegado a um beco sem saída | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Ninguém sabe na Bolívia, nem sequer os principais protagonistas políticos, o que vai acontecer com o país. As soluções constitucionais e democráticas foram esgotadas com a renúncia do presidente Carlos Mesa. Em termos legais, com a demissão de Mesa a presidência deve passar para o presidente do Senado, Hormando Vaca Díez, mas as forças de oposição o consideram inaceitável, apesar de pertencer ao Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). O mesmo acontece com presidente da Câmara dos Deputados, Mario Cossío, que é sumariamente rejeitado. Só o presidente da Suprema Corte, Eduardo Rodríguez, parece ter certo apoio, talvez devido ao fato de não ser um político e por ter declarado que só ocupará o cargo até a realização de novas eleições. Ora, Mesa tem prometido a mesma coisa várias vezes sem muito sucesso. O detalhe é importante. Democracia 'participativa' A jogada da oposição, tanto daquela que possui representação parlamentar – como é o caso de Evo Morales e seu partido Movimiento al Socialismo (MAS) – como dos sindicatos e outras organizacões, parece ser o de quebrar o sistema político para demonstrar sua inutilidade. Os analistas que assim pensam lembram do antecedente fornecido pelo período 1982-1985, quando os movimentos populares virtualmente se apossaram do governo graças às convulsões políticas, substituindo a democracia representativa pela “participativa”. As eleições de 1985 deixaram claro que estavam longe de serem tão populares como pareciam. Os paralelos com a situação atual são evidentes. Apesar de ser a segunda força política do país, o MAS não conseguiu nas urnas mais de 20% dos votos. Para um partido que promete mudar radicalmente o regime e o sistema econômico do país, essa porcentagem é obviamente insuficiente. Daí o impasse. Os setores radicais não podem obter uma maioria, e a maioria que se lhe opõe está tão dividida que não chega a ter peso eleitoral ou político. Mentor Isso explica uma inesperada atitude de Evo Morales. O líder dos “cocaleros” – o minúsculo setor dos cultivadores da folha de coca – tem rejeitado sem ambigüidades as propostas de golpe militar de outros líderes radicais. Os analistas acreditam ver nisso a mão do mentor de Morales, o presidente venezuelano Hugo Chávez. Nas condições atuais, Morales poderia obter uma maioria eleitoral mesmo com pouco mais de 20 por cento dos votos, o que lhe permitiria, como a Chávez, realizar seu programa radical dentro de um marco democrático. Com isso, os dois principais produtores de gás do continente, Venezuela e Bolívia, poderiam unir forças. Preocupação Os países vizinhos e clientes da Bolívia, inclusive o Brasil, consideram essa possibilidade com grande preocupação. Para os Estados Unidos isso representaria uma ameaça, pois os dois maiores produtores de gás do mundo, Rússia e Irã, não são exatamente aliados políticos. A crise boliviana pode facilmente tornar-se uma crise regional. Sinal do receio que inspira a situação boliviana é o plano de coordenação energética que estão elaborando Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, para aproveitar o gás produzido no Peru. De fato, a bonança do gás poderia ser de curta duração para a Bolívia graças ao populismo nacionalista. Isso já aconteceu na história boliviana, quando as minas de estanho – então a principal riqueza nacional, como é hoje o gás – foram nacionalizadas pela revolução de 1952. Em poucos anos o custo de produção era mais alto do que o preço internacional do estanho. O povo boliviano tinha se tornado dono único e soberano de empresas que davam prejuízo. |
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