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La Paz está sitiada e com medo | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A capital da Bolívia, La Paz, é atualmente uma cidade sitiada, cercada por barricadas, pedregulhos e árvores atravessadas nas ruas e avenidas. O medo é o sentimento dominante entre os que não participam das manifestações e só pretendem ir de casa para o trabalho, se a empresa não suspendeu as atividades. Na chegada à noite ao aeroporto, a dúvida é sobre como dali sair – não há táxis para todo mundo. Os vôos que chegam pela manhã estão praticamente todos cancelados. E existem dúvidas, diárias, que se intensificaram nesta semana, se os vôos da noite vão chegar ou não à capital boliviana. O aeroporto está no bairro do Alto, em meio aos protestos, e onde já há desabastecimento de combustível e comida. Soldados da Aeronáutica, fortemente armados, fazem a segurança no local. Corre-corre Na hora da saída, no corre-corre dos táxis, cabe à polícia boliviana escoltar o comboio improvisado até o centro da cidade. Táxis, vans e carros de família são cercados por policiais em motocicletas, ostentando armas. Todos vão em alta velocidade, por ruas escuras e sem asfalto. Na noite de terça, o primeiro grupo avistado foi o das cholas (mulheres indígenas bolivianas). Elas parecem curiosas, mas pacíficas, como são normalmente caracterizadas. Depois, vimos alguns homens bolivianos, com pedras nas mãos, gritando insultos para os automóveis. "Não se pode usar terno e gravata, ostentar jóias ou qualquer tipo de riqueza. Eles atacam, arrancam a gravata e gritam insultos. Acham que é gente do governo ou ricos. Todo cuidado é pouco", conta o argentino David Crespo, que trabalha em La Paz e desembarcou no mesmo vôo vindo de Buenos Aires, com escala em Santa Cruz de la Sierra. "Oh, Deus, o que vai acontecer com meu país? Onde isso vai parar?", lamenta a boliviana Veronica Flores, que trabalha numa ONG em defesa das mulheres e também veio no mesmo avião. Após quatro semanas seguidas de manifestações e o anúncio de renúncia do presidente Carlos Mesa, a incerteza e o medo reinam em La Paz. Em Santa Cruz de la Sierra, a uma hora de avião da capital do país, a situação não é diferente. "Meu irmão está há quatro dias parado na estrada entre Cochabamba e a entrada de Santa Cruz. Ele é caminhoneiro, e a gente está aqui preocupada com ele. É possível viver assim?", questiona Jaqueline, que trabalha na banca de jornal do aeroporto Viru-viru, de Santa Cruz. A cidade, rica em minerais e agricultura, tem setores que pedem a sua autonomia de La Paz. "O que não dá para entender é por que os de La Paz nos odeiam tanto", diz Jacqueline. "Não odiamos ninguém. Só achamos que as riquezas são nossas e devem ser bem cuidadas", afirma um motorista boliviano na capital. A Bolívia é um país dividido. "Vamos reagir enquanto temos uma só Bolívia e ela não termine em pedaços", disse o próprio presidente Mesa, na TV, no dia seguinte à sua renúncia. |
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