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Análise: A rebelião contra Chirac | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
No referendo sobre a Constituição Européia, os franceses votaram contra seu presidente, Jacques Chirac. Isso porque Chirac, de 72 anos, encarnaria todos os males contra os quais a vencedora campanha do "não" à Constituição lutou: o alto nível de desemprego, de 10,2%, a queda do poder aquisitivo desde a adesão da França ao euro, a moeda única européia – e a própria União Européia (UE), que estaria levando a França rumo a um suposto modelo anglo-saxão. Portanto, as aparições televisivas de Chirac para defender o oui (‘"sim", em francês) à Constituição européia foram nada mais que um tiro pela culatra. Neste domingo, 55% do povo francês votaram non ("não", em francês); e apenas 45% manifestaram seu oui à Constituição européia. Controle Numa de suas idas à tevê, um condescendente Chirac tentou, não sem razão, convencer 80 estudantes de que uma Constituição daria maior controle sobre o mercado econômico da União Européia. Mas será que a decisão de realizar um referendo sobre a Constituição européia na França e as tentativas televisivas para defendê-la seriam indícios de que o presidente francês perdeu seu faro político? Isso levando-se em conta que cada um dos 25 países da UE pode ratificar a Constiuição em seu Parlamento nacional. Mais: o ‘’sim’’ no referendo sobre o euro ganhou por uma margem mínima, na França. Além disso, Chirac, primeiro-ministro de Valéry Giscard d’Estaing 30 anos atrás, nos últimos meses atingiu seu nível de popularidade mais baixo de seus dez anos de presidência, segundo enquetes. Uma ironia para o destino político do protegido do lendário presidente Charles de Gaulle. Herói Dois anos atrás, é verdade, Chirac era tido como herói, pelo menos na França. Isso porque se opôs à invasão do Iraque perpetrada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido. Sua queda de popularidade se deve, antes de tudo, à atual situação econômica, na França. Seu discurso tem sido no mínimo sinuoso. Se em certos momentos Chirac defendeu impostos menos elevados e privatizações, em outros ele martelou sobre a importância de reduzir a chamada "fratura social". Resumindo: Chirac oscilou entre o liberalismo econômico e uma maior intervenção do Estado na economia. Em relação à Europa, ele comportou-se da mesma forma. Dependendo da reação do eleitorado francês a novas diretivas da UE, Chirac criticou ou apoiou o liberalismo econômico europeu. Porém, os franceses se rebelaram, no último dia 29, não somente contra a volatilidade do programa econômico e político de seu presidente, mas também contra o personagem Chirac. Desconfiança Em programas satíricos, o presidente francês é apresentado, com máscara e capa, como o "Super Mentiroso". Essa desconfiança da integridade de um político de alto escalão é rara na França, onde o povo tende a aceitar os périplos menos legítimos de seus governantes. Desde, claro, que esses líderes não sejam vistos com os culpados por uma degringolada econômica. Portanto, a imunidade política do presidente Chirac contra acusações de que teria aceitado subornos quando prefeito de Paris, entre 1981 e 1989, causa certa inquietação no povo. Por isso, a criação do personagem "Super Mentiroso". Ao mesmo tempo, 1997 já entrou para a história como um ano fatídico para Chirac, o visionário político de centro-direita. Naquele ano em que presidia o país com um governo de centro-direita, ele supreendeu o mais cético dos analistas convocando eleições legislativas. Resultado: teve de coabitar durante cinco anos com um governo socialista. Detratores de Chirac alegam que ele cometeu um erro semelhante. Desta vez, decidiu fazer um referendo sobre a Constituição européia para fazer campanha para sua terceira reeleição à presidência, em 2007. A única certeza após a esmagadora vitória do non à Constituição é que Chirac não será presidente após 2007. |
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