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Referendo sobre Constituição Européia mobiliza a França | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A seis dias do crucial referendo sobre a Constituição européia na França, os defensores do "sim" e do "não" ao tratado constitucional mobilizam todas as suas forças na reta final do mais acalorado debate político no país nos últimos anos. Comícios, debates, discursos no rádio e na TV, coletivas para a imprensa: todos os meios possíveis estão sendo utilizados pelos partidos alinhados com os dois campos. Eles percorrerão todo o país, numa disputada campanha para convencer os 22% dos franceses indecisos - o grupo que decidirá a votação, no dia 29 de maio. Segundo a última pesquisa de opinião, divulgada no final de semana pelo Journal de Dimanche, o "não" à Constituição Européia continua majoritário, com 52% das intenções de votos, apesar de ter recuado dois pontos percentuais em relação às pesquisas divulgadas nos últimos dez dias. Mas nesta última semana antes da votação, acompanhada de perto pelos demais países europeus, as incertezas em relação aos resultados ainda permanecem na França. É justamente por isso que os principais representantes políticos virão novamente a público tentar convencer os eleitores. Mini-referendos O referendo à Constituição Européia se transformou no principal assunto do país nas últimas semanas. Algumas empresas estão até realizando "mini-referendos" entre seus funcionários. O presidente Jacques Chirac, cujo índice de popularidade é um dos mais baixos dos últimos anos (59% de insatisfeitos com sua gestão, segundo pesquisa divulgada ontem) fará um novo discurso na televisão nesta semana. Mas muitos franceses acreditam que as intervenções de Chirac para defender a aprovação da Constituição não têm o efeito desejado porque sua imagem está desgastada na opinião pública. Esse referendo sobre um assunto europeu acabou se tornando, na realidade, uma ocasião para muitos franceses expressarem sua rejeição à política interna do governo. Suas reformas em áreas como a da aposentadoria, educação e sistema de seguro social tornaram o governo francês impopular. A grande maioria (74%) dos franceses se dizem insatisfeitos com o primeiro-ministro, Jean-Pierre Raffarin, que Chirac insistiu em manter no cargo apesar da imagem bastante enfraquecida. O Partido Socialista (PS), que atravessa uma forte crise devido à divisão interna em relação ao referendo, decidiu usar todas as suas armas nessa votação e colocar em evidência o ex-primeiro ministro Lionel Jospin, afastado da vida política francesa após sua derrota na última eleição presidencial. Como Chirac, Jospin também defenderá na TV, em um discurso na noite de terça-feira, a aprovação da Constituição Européia. Mas o número dois do PS, o também ex-primeiro ministro Laurent Fabius, é contra o texto constitucional e se tornou um dos líderes do campo do "não". As alegações de Fabius têm recebido grande destaque na imprensa francesa. Para o ex-primeiro'ministro e vários partidários da oposição (sobretudo os partidos de extrema esquerda), a Constituição européia é considerada muito liberal e "abre caminho para o dumping social". Encanador polonês Esse receio tem sido traduzido (e resumido) com um frase que se tornou recorrente nos debates na França: "o encanador polonês". Segundo os defensores do "não", a Constituição permitiria também que trabalhadores do leste europeu viessem em massa à França, tirando o emprego de seus cidadãos. Este argumento é realmente tido como o principal para a rejeição do tratado constitucional entre os representantes dos partidos de esquerda. Mas fora da esfera dos líderes políticos, para uma boa parte dos cidadãos franceses de classe média, profissionais liberais ou outros que não se sentem particularmente afetados pelas possíveis transferências de fábricas para países do leste europeu ou pelo "encanador polonês" que trabalhará na França, o "não" significa sobretudo um voto de censura ao atual governo. A política interna já prevaleceu nas últimas eleições municipais e européias no país, vencidas amplamente pela oposição de esquerda. Os defensores do "sim" alegam que se a França, país fundador da União Européia, não ratificar a Constituição, se tornará o "patinho feio" do bloco europeu e perderá sua força nas negociações européias. Argumento falso, rebatem os adversários, dizendo que a França não ficará tão isolada, já que o texto poderá também não ser aprovado em países como a Holanda, Grã-Bretanha e Polônia. Mas uma coisa é certa: a taxa de abstenção nesse referendo que mobiliza toda a sociedade francesa não será tão elevado quanto a última votação desse tipo realizada no país. O referendo sobre o mandato de cinco anos para o presidente da República, em 2.000, registrou uma taxa de abstenção de quase 70% dos eleitores. E o resultado da consulta popular sobre a Constituição européia deverá ser tão apertado quanto o do referendo sobre o Tratado de Maastricht, em 1.992. O "sim" ganhou por uma diferença mínima, totalizando 51,04% dos votos. |
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